Serapião, o Sabichão

 

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Velas, vê-las?


      Ultimamente, cheguei à conclusão de que uma parceria com o Serapião, o filho do
      Eng. Estultício, podia ser uma boa ideia...

    ... mas confesso que desta vez não estava à espera de o ver, sentado com o pai, na esplanada onde dantes eu encontrava o Grande Engenheiro, quase sempre apenas na companhia do fiel Batatinha.
    O certo é que agora ali estávamos os quatro, mas o Serapião não parava quieto: ora abria a pasta que tinha ao colo, ora a fechava. Até que o pai, aborrecido, resmungou:
    - Então?! Estás com bichos-carpinteiros, ou quê?!
    Sem responder, o jovem acabou de tomar o sumo, pegou nas suas coisas um pouco agastado e levantou-se. Por fim, virando-se para mim, disse:
    - Já sei qual vai ser o nosso próximo negócio. Só preciso de fazer mais algumas pesquisas mas estou a ver que aqui não há sossego.
    E, dando as boas-tardes delicadamente, foi-se embora.
    - Lá tenho eu de pagar a bebida do rapaz... - resmungou o pai - Esta juventude não sabe quanto o "cacau" custa a ganhar! Mas agora anda a fazer negócios com este nosso amigo - referia-se a mim, é claro - e pode ser que comece a dar valor ao dinheiro!
    Dobrou cuidadosamente um guardanapo de papel usado, que guardou no bolso, e quis saber, zombeteiro:
    - Então e como é que vai a vossa indústria de passear turistas?
    Não lhe respondi, pois eu reparara que, ao longe, o Serapião se sentara na entrada de um prédio e tirava da pasta um portátil e um telemóvel.
    A curiosidade foi grande. Levantei-me, despedi-me, e fui ao encontro do nosso jovem amigo que não se mostrou surpreso ao ver-me aproximar:
    - Sente-se aí. Ando a apurar uma ideia de génio: um negócio de aluguer de velas de aniversário.
    Explicou-me, então, que em todas as festas de anos as pessoas compram velas com algarismos para meter nos bolos, acendem-nas, e pouco depois, uma vez despachados os "parabéns-a-você", apagam-nas e deitam-nas fora ou perdem-nas.
    Ora a ideia do Serapião era comprar velas com os dez algarismos e propor às pessoas que as alugassem em vez de as comprar. Segundo a pesquisa que, nos últimos tempos, andava a fazer na Internet, ele pensava que era possível montar um negócio fabuloso!
    Para ser sincero, não me parecia que a ideia fosse muito boa, e não me estava a ver a entregar velinhas ao domicílio e a recolhê-las mais tarde, uma vez acabadas as festas. Nem me estava a imaginar a emitir facturas. E o IRS? Haveria "recibos-verdes" para a profissão de "alugador de velas"?
    "Nã"... dessa vez a ideia não era grande coisa e, pela minha cara, o Serapião viu que o meu entusiasmo não era grande. Mas também não deu mostras de se preocupar com isso e continuou a teclar.
    Espreitei-lhe por cima do ombro.
    O nosso amigo acedia ao "site" do INE (onde procurava saber as idades das pessoas da zona da Grande Lisboa) e, através de um algoritmo que já tinha criado, obtinha o número e o tipo de velas a adquirir para iniciar o negócio.
    Para não desanimar o rapaz, prontifiquei-me a emprestar-lhe o capital necessário. E, entusiasmado por esse meu acto solidário, pediu-me que lhe guardasse as tralhas enquanto ia à loja da frente comprar o material!
    Mais tarde vim a saber que tudo aquilo fora mais científico do que eu pensara, pois nem todos os algarismos têm a mesma probabilidade de ocorrência. Por exemplo: ele teve de comprar várias velas com os algarismos 1 e 2, enquanto apenas comprou duas ou três com os algarismos 8 e 9.
    Achei graça ao aspecto matemático do problema, disse-lhe que ficasse com o troco («para investir») e fui para o meu emprego, que já se fazia tarde.
    Ora eu confesso que esperava tudo menos que ele tivesse anunciado a sua actividade na Internet: quer na sua "home-page", quer nos "chats", quer nos "newsgroups", toda a gente "deste mundo e do outro" foi informada de que havia agora a possibilidade de alugar velas de aniversário!
    Para ser sincero, tive muita pena quando, dias depois, o encontrei de novo e ele me disse, abatido, que o negócio não estava a correr bem.
    Mas nessa altura apareceu o Estultício. Apercebendo-se do que estávamos a falar, riu-se e comentou:
    - Que porcaria de gestor que este rapaz vai sair! Nem sequer se lembrou de que o pai faz anos hoje!
    Ficámos abismados! Como fora possível essa falha?! O Estultício fazia 51 anos!!
    - Vai então ser o nosso primeiro freguês, pai? - os olhos do Serapião estavam brilhantes de satisfação.
    O Grande Engenheiro sorriu misteriosamente, meteu a mão ao bolso do colete e tirou de lá duas velas usadas: uma com um 5 e outra com um 1.
    - Negativo, meu jovem! Estas são as que eu guardei quando fiz 15 anos.

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