Serapião, o Sabichão

 

2
Será Pião?


      No mês passado apresentei-vos o jovem Serapião, por alcunha "o sabichão", filho do
      Eng. Estultício.

    O certo é que a convivência com este novo amigo é muito divertida, pois ele passa a vida a encontrar coisas interessantes na Internet quando não anda a inventar partidas para pregar ao pai.
    E, assim, é com prazer que, de vez em quando, recebo e-mails dele a sugerir que nos encontremos por ter uma qualquer novidade para me mostrar.
    Depois é sabido que, uma vez ligados à Internet, lá aparece algo de especial. Outras vezes, trata-se apenas de uma nova engenhoca que ele anda a fazer ou alguma coisa que comprou e que quer que eu veja.
    - A mesada não é muito grande, mas é preciso ver o lado bom da coisa...
    Da primeira vez que ele me disse essa frase fiquei espantado! Como é que podia haver "um lado bom" no facto de ter um pai sovina?! Na realidade, o Estultício nunca iria dar um tostão para coisas que tivessem a ver com aquilo a que ele chama "progresso exagerado", dado que o seu lema é: «Progresso, só o estritamente indispensável!»
    - Não é grave - filosofou - Trato de ganhar o meu dinheiro usando a Internet.
    Ora eu andava com alguma curiosidade em saber como é que o nosso jovem ganhava dinheiro com isso. Que ele era um bom web-designer, já eu tinha visto e confirmado. Vim a saber que ele também ganhava dinheiro a reparar computadores, a instalar redes, a limpar vírus, etc., etc.
    Por isso, foi com espanto que eu soube que ele estava a lançar uma página na Internet para acompanhamento de turistas! Preparava-se para a invasão de espanhóis por alturas da Páscoa, o trabalho já estava muito adiantado, e a página foi colocada no ciberespaço com bastante antecedência.
    Os motores de busca foram devidamente informados dessa sua actividade, o pessoal que frequentava os chats e os newsgroups também, e agora era só esperar que o peixe viesse à rede!
    Mas havia um pormenor que me fazia confusão: como é que ele iria passear turistas se não tinha carro nem o pai lhe emprestava o dele?!
    Vim então a saber que o Serapião esperava que os turistas já trouxessem automóvel e, como alternativa, contava dispor DO MEU!!
    Esclareceu-me ainda, sorrindo, que não tinha carta, mas estava certo de que eu ia querer entrar para o negócio que ele antevia muito lucrativo!
    «Não dizes mal» - pensei - «Já estou farto do emprego em que me sinto estiolar de dia para dia, e isso de passear turistas cai como sopa no mel!». Mas estava longe de pensar que, nessa mesma noite, receberíamos - após contacto por e-mail, evidentemente - o nosso primeiro cliente. Aliás, UMA cliente!
    Tratava-se de uma tal Miss Riitta, simpática velhinha finlandesa com quem eu já me cruzara e que, embora tivesse carro, o havia deixado na sua terra, depois de ouvir horrorosas histórias acerca da forma como os portugueses conduzem. E foi assim que, já praticamente sócios, eu e o Serapião fomos ao seu encontro, num café da Baixa.
    A boa senhora ajeitou o óculos, parecendo tentar recordar-se de onde é que me conheceria, mas rapidamente desviou as atenções para o meu carro que começou a observar com cuidado pois (está bom de ver) era nele que a operação turística iria ter lugar. E estava tudo muito bem se ela não tivesse tomado a iniciativa de se dirigir para a porta do lado do condutor e, abrindo-a, se sentasse resolutamente ao volante!
    Nada dissemos. Limitei-me a ocupar o "lugar do morto" enquanto o Serapião se sentava no banco de trás, com um mapa na mão.
    E, sem serem necessárias grandes explicações, a Miss Riitta lá pôs o carro a andar e, no seguimento do que lhe íamos indicando, encaminhou o carro para a estrada de Sintra.
    Mas, à medida que ia avançando no trânsito pela Avenida da Liberdade acima, ela parecia ficar cada vez mais descontraída, aproximando-se rapidamente dos padrões lusitanos de condução...
    A certa altura, quando eu, arrepiado, via o ponteiro aproximar-se de valores nunca dantes alcançados, ela tirou os olhos do asfalto e, olhando pelo retrovisor para o Serapião, sorriu e perguntou, num português muito esforçado e carregando nos "r":
    - Você é Serapião com "i" ou Serapeão com "e"?
    O nosso amigo lá lhe explicou que era com "i" enquanto eu aproveitava a deixa para lhe explicar a subtil diferença entre "peão - pessoa que anda" e "pião - coisa que roda".
    Nesse momento exacto, uma pancada seca, uma guinada brusca e uma imprecação que aqui não se pode transcrever!
    Apontando para o retrovisor, fleumaticamente e sem sequer abrandar, a Miss Riitta perguntou-nos:
    - E aquilo que ficou a rebolar ali atrás? Chama-se "pião" ou "peão"?

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte