As Aventuras de Serapião SAPO (*)



1
O Relógio


O meu avô era o famoso Serapião Albino de Oliveira, o mais famoso comerciante de parafusos do país e arredores.
Isso nada teria de extraordinário se não fosse o caso de ele ter dado o mesmo nome ao filho e este, por sua vez, ao primogénito...
Por isso aqui estou eu, o Serapião Albino da terceira geração.
Mas o que me tornou conhecido até nem foi o meu nome pouco vulgar. Foram também os apelidos e o que, por causa deles, depois veio.
E passo a explicar:
A minha extremosa mãe herdou o apelido de Pereira e o meu pai, já se vê, não pode fazer nada em relação ao "Oliveira".
E eu, portanto, não pude escapar ao nome de Serapião Albino Pereira de Oliveira, por alcunha (e adivinhe-se porquê...) o SAPO!
Mas, tanto, quanto sei, já o meu avô brincava com isso:
E, enquanto muitos miúdos tinham ursinhos de peluche sem os quais não conseguiam adormecer, eu, desde muito pequenino, tive um sapinho verde dado por ele e ao qual me afeiçoei mais do que seria normal.
Mas não vos vou agora confessar que ainda gosto de dormir com o simpático boneco ao lado, apesar de já muito velhinho e gasto (o boneco, é claro).
E também não esperem que vos diga que, para adormecer, lhe conto como foi o meu dia, e desabafe com ele acerca das alegrias e tristezas da vida.
Ora acontece que, para meu grande espanto, descobri (já há algum tempo) que o simples facto de eu, em voz murmurante, lhe contar essas coisas antes de adormecer, tem estranhas e benéficas consequências!
Lá iremos, e hão-de perceber o que eu digo. Mas não na história de hoje.
Talvez numa próxima vez, se para tal houver oportunidade.

***

Ora o que vocês não sabem é que eu tenho um tio muito refractário a tudo quanto sejam coisas novas, pelo que é sempre um grande problema dar-lhe prendas pelo Natal!
Enquanto, para as outras pessoas, toda a gente procura novidades, para ele só se forem antiguidades!
Acontece, porém, que eu li recentemente na Internet (1) alguns textos acerca de pessoas desse género e, num livro que lá encontrei, descobri a solução para a prenda a dar ao meu tio:
Um relógio de sol! (2)

Ia ser uma ideia original! «Mais antigo do que os relógios digitais... mais antigo do que os relógios de corda, as clepsidras e as ampulhetas... Recuando o mais possível na tecnologia da medição do tempo... Aqui está uma prenda bem ao seu gosto!» - Tal seria o teor do cartão que eu iria escrever a acompanhar a prenda, se a conseguisse encontrar à venda por um preço acessível.

***

E foi assim que, percorrendo as habituais vias de pesquisa do SAPO, acabei por encontrar um comerciante que se propunha vender-me uma dessas relíquias e até trazer-ma a casa!
Contactei-o, mas havia um grande problema:
O homem ia nesse mesmo dia para o estrangeiro e era preciso resolver o assunto de imediato! Isso veio a traduzir-se num preço muito em conta, e fechámos o negócio mesmo pelo telefone.
Bem... eu só queria que vocês vissem a cara da minha mãe quando abriu a porta e deu de caras com um senhor muito pequenino que trazia ao colo um embrulho maior do que ele!
Ali vinha o meu relógio de sol!
Mandámos entrar o cavalheiro. E foi com grande alívio que ele pousou, no chão da varanda, o enorme e pesado embrulho.
Sim, porque não será preciso dizer que a base era de pedra!
Os números (indicativos das horas) estavam gravados a cinzel, e o estilete responsável pela sombra era uma enorme barra de ferro...
«Mas é amovível e ajustável» - informou-nos o cavalheiro, limpando o suor da testa e depois de se ter apresentado como «Narciso Venantílio, Novidades em Velharias».
E chamou-nos a atenção para um pormenor, dando-nos o seu cartão de visita:
«Aí consta apenas um N e um V. Dá para as duas coisas - nome e actividade - e toda a gente me conhece no meio».
Eu estava embasbacado, e fiquei a saber que um relógio de sol, no hemisfério Norte, deve ser montado por forma a que a vareta que origina a sombra aponte para a Estrela Polar.
Fica, portanto, com uma inclinação (em relação ao solo) igual à latitude do lugar, pelo que foi preciosa a informação de que «a vareta era ajustável»!
Estávamos nós a pensar onde é que íamos esconder aquele trambolho até à noite de Natal quando aconteceu uma coisa imprevisível:
O meu tio entrou em casa, mais cedo do que o costume, e precisamente nessa altura!
E, é claro, ficou embasbacado a ver a cena:
Eu, a minha mãe e o Sr. Venantílio, acotovelando-nos na varanda, a afinar o relógio de Sol para a latitude cá do burgo!
«Como podem ver, é um autêntico relógio suíço! Um verdadeiro cronómetro! Está certíssimo! E a vara pode tirar-se., para o caso de ser necessário transportá-lo ou arrumá-lo...» - explicava o vendedor, gabando as qualidades do seu produto, ao mesmo tempo que cumprimentava o recém-chegado com um rasgado sorriso.
Mas o meu tio, como percebem, quis saber o motivo daquele espalhafato todo...
E, nessa altura, o Sr. Venantílio (que já dera mostras de ser um bom fala-barato) falou mais do que devia:
«É uma prenda que este jovem amigo quer oferecer a uma pessoa de família que não gosta de modernices!»
Já não havia nada a fazer. O melhor era mesmo abrir o jogo!
E eu disse, rindo, procurando quebrar o mau ambiente que aquela observação produzira:
«Olhe, tio, fica já resolvido o assunto da sua prenda de Natal... É esta! Quer coisa mais apropriada?!»
Mas ele não estava a achar muita graça. Olhou para aquilo, mirou... remirou de todos os ângulos possíveis... e eu só estava a pensar qual era o defeito que ele ia pôr...
Talvez perguntasse pelo livro de instruções!
Ou, se calhar (como o outro da história do livro), ia perguntar «como é que funcionava de noite»!
Mas não...
Limitou-se a meter as mãos nos bolsos, a fazer o ar depreciativo com que eu tanto embirro, e a perguntar, torcendo o nariz:
«E essa coisa é fornecida com as duas bases, espero eu...».
Duas bases?! Outra base de pedra?! Para quê? Ninguém percebia a pergunta do tio. Teria medo que esta se partisse?!
Nesse aspecto o Sr. Venantílio tranquilizou-o, dando valentes murros na pedra para lhe provar a robustez.
Mas talvez o tio viesse, simplesmente, maldisposto do trabalho e com vontade de embirrar...
De qualquer forma, deu-se ao trabalho de explicar a sua observação, que associou ao facto de a vara ser amovível:
«Se não for assim, como é que se acerta quando chegar a hora de Verão?!»


(1) http://www.janelanaweb.com/humormedina.
(2) Do livro "Operação JEREMIAS", capítulo «Um Lugar ao Sol», on-line no site acima referido e em http://www.digito.pt/jeremias.



(*) Esta história foi escrita para o SAPO, para o Natal de 1999, e esteve on-line em http://natal.sapo.pt/QA. Havia mais histórias previstas e até já escritas. No entanto não chegaram a ser publicadas no site do SAPO. Sê-lo-ão, com outras personagens, na «Janela na Web». 26 de Maio 2000

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