Serapião, o Sabichão

 

1
Moeda de Troça


     Como decerto estarão recordados, ao contar as aventuras e desventuras do Eng. Estultício,
     falei do seu filho com bastante frequência.

    No entanto, e até há muito pouco tempo, não tive o prazer de o conhecer a não ser através das referências feitas pelo pai (naquelas conversas de café que eu mesmo provoco quando se aproxima a data de enviar a história mensal para a Revista).
    Pois eu só sabia que o jovem se chamava Serapião, que tinha por alcunha "o sabichão", e que era portador de um senso de humor muito agudo do qual, com frequência, o pai era a vítima preferencial e - evidentemente! - involuntária. Como esquecerei a partida que o rapaz lhe pregou ao convencê-lo de que ISP queria dizer Industrial de Salsichas e Presuntos? E muitas outras de igual jaez e que, por falta de oportunidade e tempo, nunca referi?
    Ora o certo é que, a pouco e pouco, comecei a ter uma curiosidade muito grande de conhecer esse rapaz, além de que já me sinto um pouco desactualizado e preciso de alguns "banhos de juventude".
    Quero dizer: sendo eu escriba de uma Revista como esta, tenho a obrigação de estar minimamente informado acerca dessas coisas dos chats, das novidades dos jogos de computador, etc., etc. (embora, talvez devido à idade - que, de facto, não perdoa - sinta que já não tenho muita paciência para isso).
    Pois a oportunidade apareceu com a festa da Passagem de Ano (e de Século, e de Milénio). Quer acreditem quer não, o melhor convite que arranjei veio do Estultício: «Apareça lá em casa, homem! O Batatinha e a mulher também vão, e sempre fica a conhecer a minha patroa, a minha sogra e o Serapião!».
    E - vejam lá! - aceitei, e apareci, devidamente equipado com uma garrafa de champanhe que comprei on-line nessa manhã e ainda chegou a tempo.
    Para ser sincero, a festa não estava a ter graça nenhuma, e eu só esperava que as badaladas não demorassem muito para me poder "desenfiar" dali para fora em busca de companhia mais agradável ou interessante.
    E foi quando, já muito perto da meia-noite, eu estava a pensar nisso, que o Serapião me tocou no braço e, piscando olho, me puxou para um canto, segredando-me:
    - O meu pai fala muito de si. Você farta-se de gozar à custa dele, não é verdade?
    Fiquei embaraçado e sem saber o que dizer. Mas o rapaz, enquanto descascava displicentemente um pistacho, continuou:
    - Veja se está com atenção à cara dos velhotes quando derem as badaladas...
    Não percebi.
    - As badaladas da meia-noite - explicou ele, rindo... - Eu armadilhei o relógio da sala para o pessoal ficar baralhado. Vai faltar a última.
    De facto, os outros presentes, com as taças de espumante na mão, olhavam atentos para o enorme relógio de parede (cujas badaladas estavam nesse preciso momento a soar) e contavam em voz alta, alegremente e em coro: "Nove... dez... onze..."
    - Onze... onze... ?! Então?! A porcaria do século passa ou não passa?! - resmungava a D. Elisa, a sogra do Estultício de quem já vos falei.
    - Não se pode dizer que seja uma festa "muito badalada"... - comentou o Serapião, fungando de riso, e puxando-me novamente pelo braço, mas desta vez para o corredor.
    - Deixe lá o novo século e venha ver uma coisa interessante que tenho no meu quarto para lhe mostrar.
    Voltei a encher a taça para a levar comigo, meti uma mão-cheia de amendoins no bolso das calças, e lá fui atrás dele. Foi preciso subir umas íngremes escadas de madeira ao fundo do corredor, pois o quarto era no sótão, uma pequena maravilha que eu bem gostaria de ter tido na minha juventude! Mas, lá chegado, não notei nada de especial, além do que talvez já fosse de esperar: uma bicicleta com os pneus vazios, bolas para diversos desportos, um skate velho, desarrumação quanto-baste... Ah! E muita tralha de informática, como também era de prever:
    Ecrãs, teclados, ratos, modems, fios e cabos por todo o lado, computadores esventrados... e um poster do Bill Gates transformado em alvo de um jogo de setinhas!
    Depois de escorregar numa chave-de-parafusos e de bater com a cabeça numa parte mais baixa do tecto, passei a dar atenção ao que o meu novo amigo se preparava para fazer ou mostrar.
    Alheio àquela confusão toda, onde parecia sentir-se perfeitamente confortável, repimpou-se frente a um poeirento monitor, fez-me sinal para eu me sentar em cima de uma caixa de um velho Macintosh, e avisou, ajeitando os óculos:
    - Prepare-se para se rir um bocado!
    Procurei concentrar-me. Mas a ligação à Internet (que era o que ele procurava fazer) estava difícil. Não via graça nenhuma nisso!
    - Não se assuste! - avisou-me, logo de seguida, inclinando-se para uma caixa que, pelos vistos, continha "o cérebro" do computador que estava a uso.
    Depois de dois ou três segundos de concentração verdadeiramente oriental, aplicou, com a biqueira do sapato, um certeiro golpe de karaté numa zona já bastante amolgada, voltou de imediato a sua atenção para o monitor, e anunciou, triunfante:
    - Pronto, já estamos no ciberespaço!
    Mas ainda resmungou, como se falasse sozinho:
    - Estes fornecedores de Internet gratuita nem sempre são muito bons, mas o que eu uso até não é dos piores. Só é chato é o pontapé que de vez em quando tenho de dar na zona do modem interno. Farto-me de estragar sapatos.
    Não comentei, para que o meu novo amigo pudesse dar largas à sua imaginação ou ir direito ao que me queria mostrar. Era nítido que ele tinha algum fim em vista ou, pelo menos, procurava na Web qualquer coisa muito concreta.
    A certa altura, depois de mais uns momentos de concentração e de apelo à memória, os seus dedos voaram pelo teclado, digitando um incrível e inextrincável endereço. Por fim, afinfou um resoluto enter, recostou-se na cadeira e, metendo as mãos nos bolsos, anunciou:
    - Já está a abrir, chefe. Foi tudo feito por mim.
    Cheguei-me mais à frente e pude ver nascer, a pouco e pouco, uma imagem de qualquer coisa que a princípio não percebi o que era.
    - Você não sabe que o meu pai é numismata? Ele nunca lhe contou que é maluquinho por moedas antigas?
    De facto, e à parte o seu "amor às moedas" sob a forma de sovinice primária, não fazia ideia nenhuma desse hobby do Estultício! Vendo a minha cara, o Serapião sorriu e prosseguiu:
    - Pois o meu pai diz que só levará a Internet a sério quando ela lhe servir para alguma coisa. Eu, então, tentei mostrar-lhe que podia dar largas à sua mania das moedas usando a Web e preparei-lhe esta página, que tem links para muitas outras de numismática. Autênticas maravilhas! Mas ele é casmurro, como você sabe, desdenhou do meu trabalho e, por isso, arranjei-lhe aqui uma coisa que estou a preparar para o Carnaval que vem aí...
    Eu não via nada de estranho. Por isso limitei-me a redobrar a atenção e a ouvir:
    - Acontece que lhe falta, na colecção, uma moeda quadrada muito rara. Essa moeda (que, ao contrário do que eu pensava, até existe), já a encomendei pela Internet, e está guardada aí nessa gaveta. Era para lha oferecer pelo Natal, mas resolvi esperar... Ele ainda vai sofrer um bocado, para não andar sempre a dizer mal da Internet! - Explicou o Serapião, rindo com gosto e descascando um dos amendoins que eu pusera em cima da mesa.
    Depois, soprou as cascas que se iam infiltrando pelos interstícios do teclado e levou o cursor para junto de um texto que dizia: «MOEDAS - PESQUISA!!» e que ele tinha preparado. À direita havia várias hipóteses à escolha, sendo uma delas, em letras cintilantes e bem apelativas: «MOEDAS QUADRADAS!!!».
    Em seguida, quando o nosso amigo activou essa última opção para me mostrar o resultado, pude ver a resposta com que o Estultício iria apanhar:

MOEDAS QUADRADAS?!!
NÃO SEJA IDIOTA!
SE EXISTISSEM, COMO É QUE PODERIAM... CIRCULAR?!
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