Salvador, o Consultor


As férias do Salvador - I


I - Introdução


     O meu amigo Salvador tem uma lucrativa actividade como Consultor para as novas tecnologias, actividade essa que exerce nas instalações do sobrinho. Este, que sai por volta das 18h, cede-lhas com muito prazer a partir do fim da tarde enquanto as senhoras da limpeza fazem o que têm a fazer.
     Porém, quando o espaço e o tempo não chegam - o que sucede com frequência cada vez maior - o nosso amigo expande-se para a «Primorosa das Avenidas», a leitaria onde a D. Deolinda, a proprietária, permite que ele atenda os seus clientes de menor status.
     No entanto, e como sabe quem o conhece bem, ele fá-lo com a mesma eficiência e profissionalismo com que, no outro local, atende o pessoal do Jet-Set, os barões da Indústria e das Finanças ou a fina-flor da nobreza (condes, príncipes e marqueses - falidos ou não).
     Mas, hoje, não é lá que o vamos encontrar pois vai a caminho das merecidas férias (ou talvez não...)


II - As Férias


Vamos, então, ao que interessa.
     Estava eu muito sossegado a saborear o solzinho do fim da tarde na varanda do meu novo T2 do Algarve, quando um facto inesperado me fez sair, desagradável e bruscamente, do meu torpor:
     Uma fanhosa buzinadela de automóvel, acompanhada por um assobio estridente, arrancaram-me da deliciosa soneca em que eu estava quase a embarcar.
     Agora imagine-se o meu espanto quando, ao olhar para a rua, um pouco irritado, vejo o meu amigo Salvador a dizer-me efusivamente adeus da janela do seu velho FIAT 600!
     Mas a surpresa não se ficou por ali. É que a carripana, apesar de fumegante, ainda tinha força para rebocar uma roulotte desconjuntada que, por sua vez (coisa nunca vista!) trazia atrás, decerto aos trambolhões, um pequeno atrelado para cães!
     Desci e fui ter com ele.
     - Só é aborrecido e complicado quando tenho de fazer marcha-atrás, explicou-me ele sorridente, pouco depois, já no café, no seguimento de incríveis manobras para arrumar aquilo tudo no parque de estacionamento.
     E ali estávamos agora os quatro, pois além do Salvador tinham vindo a D. Adélia e a Rosarinho (a filha). Não contando com o Berimbau, o gato, que ficou no carro, mais concretamente no atrelado para cães.
     Depois de comentarmos a coincidência do nosso encontro fiquei a saber que não se tratava exactamente de uma coincidência.
     Ele soubera para onde eu vinha e resolvera fazer-me uma surpresa!
     Felizmente, não estava incluído no "brinde" eu ter de aboletar a família toda no meu apartamento, que eu lhe dissera (com alguma malícia precisamente para não me sentir obrigado a convidá-los) ser um minúsculo T0.
     A "tribo" (como o Salvador chamava à sua família e na qual incluía o gato), que habitualmente se estabelecia durante um mês inteiro num parque de campismo, ia, desta vez, hospedar-se no hotel mais fino ali da terra!
     Foi isso que ele me disse. Mas, então, para que seria a roulotte?!
     De qualquer forma nada disso iria invalidar que me aparecessem em casa frequentemente para almoçar ou jantar - como ele me esclareceu, julgando estar a dar-me uma grande alegria.
     - E, se não te importas, a minha mulher e a minha filha vão a tua casa todos os dias ao fim da tarde para verem as telenovelas. Sabes? No hotel nunca há aquele ambiente caseiro que elas tanto apreciam...
     - Claro, claro... Será um prazer.
     Receio não ter sido muito convincente, mas isso parece que não preocupou ninguém.
     - Sabes? - prosseguiu - Apesar de haver televisão no hotel, eu trago o meu próprio aparelho e a respectiva antena parabólica, pois vou precisar do equipamento, que está configurado para a minha ligação à Internet. Ah! E antes que me esqueça: se no hotel embirrarem com o gato, já sabes que conto contigo!
     Nem dei atenção a esta autêntica ameaça, pois estava banzado com a revelação anterior: o Salvador já tinha uma ligação à Internet por satélite?!
     - Caro amigo -, continuou ele como se tivesse ouvido a minha pergunta.- o trabalho não pára nas férias! Há que facturar, há que facturar sempre!
     E rematou com uma frase que aprendera com um dos seus novos clientes altamente sofisticados:
     - Business oblige!

***


     Nesse dia nada mais de especial se passou que mereça relato. E, dado que era o da chegada, fui poupado à visita correspondente às telenovelas...

***


     No dia seguinte, a meio da manhã, meti-me na bicicleta (que já deixara de se revoltar com o meu peso) e deixei-me ir, em roda-livre, pela rua abaixo até ao hotel de 5 estrelas onde o pessoal, pelos vistos e para meu máximo espanto, se hospedara.
     Vendo tanta gente fina e sofisticada por aqueles lados e a andar de um lado para o outro, e sentindo o meu estigma de personagem da classe C, resolvi entrar discretamente pela porta da piscina que dava para a rua. E estava eu a pensar como é que ia encontrar o Salvador quando vi que, afinal até era muito fácil!
     Sim, quantos patuscos teriam a sua caravana ali no parque de estacionamento do hotel, com uma roda em cima da relva da piscina, e ornada de enormes "@" vermelhos, acabadinhos de pintar nas quatro faces?!
     E quantos malucos haveria por ali que tivessem hasteado uma bandeira encarnada com as letras HTTP primorosamente bordadas?!
     Pois o nosso amigo levantara-se cedo e já tratara disso tudo!
     Fui dar com ele, satisfeito, a pregar num pinheiro a tabuleta que costumava ter na porta da rua do escritório:

SALVADOR COVAS MATATIAS
Consultor de Novas Tecnologias
1º Piso, Sala B
Horário: 18h 30m - 20h 30m


     - Pois é, as ventosas não se agarram à casca das árvores, pelo que tenho de provocar esta pequena agressão à planta... - comentou ele, rindo.
     A distracção valeu-lhe uma martelada no dedo, mas controlou-se. Em seguida, dado que tapara as indicações do piso e do horário com uma fita adesiva, escreveu por cima, com um marcador grosso:

Serviço Permanente.
Das 0 às 24h (inclusive), de dia e de noite.


     Pelos vistos não precisava da minha ajuda nesse momento. A mulher fora ver a nova marina, a filha chapinhava na piscina ali ao pé, e o gato estava fechado no reboque da caravana. Assim, limitei-me a dar-lhe os bons-dias e a ficar, pacientemente, a observá-lo.
     Mas havia uma coisa que me fazia confusão e ainda não lhe perguntara:
     Para que era a roulotte se ele ficava num hotel, e para que era o reboque dos cães se ele não tinha nenhum?!
     - A roulotte é para trazer o material de escritório, pois o meu sobrinho fechou a chafarica para férias e deixou-me trazer o essencial. E o reboque pequeno é onde vem o equipamento informático. Sabes? A ideia da casota dos cães veio-me à cabeça a propósito daquela coisa que se usa na informática, o Watch-Dog. E, além disso, meto lá o Berimbau, que os gatos querem-se a tratar dos ratos.
     Ele dizia coisas destas sem se rir. E, apesar de conhecer o Salvador há muitos anos, nunca chego a perceber bem quando é que ele está a gozar ou não.
     Mas, nessa manhã, estava mesmo bem-disposto. Depois de colocado o anúncio e de verificar que estava bem visível, desenrolou uma rede, atou-a entre dois pinheiros próximos (mesmo por cima de um turista alemão) e repimpou-se a ler um diário desportivo.
     Depois, apercebendo-se de que não era muito correcto estar a fazer isso quando eu o tinha ido visitar de propósito, pôs de lado o jornal e pediu-me:
     - Olha lá, se não te dá muita maçada, chega-me aí o computador portátil...
     E assim fiz. No entanto, fiquei espantado! Um longo cabo serpenteava pelo chão, no meio da relva da piscina, entrava pela porta da caravana e ia direito a uma estranha maquineta que percebi ser a tal ligação por satélite! Pela primeira vez na minha vida, ia poder ver essa maravilha!
     - E isso funciona? - perguntei eu, espantado.
     - Tu o disseste, companheiro! Já vais ver a tecnologia a funcionar na sua máxima força e total potencialidade!
     Levantou-se, foi à roulotte buscar uma almofada, voltou a repimpar-se e comentou (sem reparar que o alemão, resmungando, já se afastara):
     - Ora vamos lá então ver isto. Adoro trabalhar em rede!


III - A finlandesa misteriosa


     E eu ali fiquei, a ver com que rapidez ele acedia, para começar, ao correio electrónico.
     - Estou tramado! - gemeu ele, de súbito, olhando em volta.
     Depois, certificando-se de que nem a mulher nem a filha estavam por ali, sussurrou:
     - É outra vez a Miss Riitta, a finlandesa, a escrever-me! E o mais incrível é que ela anda por perto! Tens de me ajudar a sair desta!
     Tratava-se de uma velhinha finlandesa de cabelos brancos, de visita a Portugal, e que, por um equívoco que em tempos relatei, lhe enviava e-mails sucessivos pedindo-lhe ajuda por tudo e por nada.
     Mas o certo é que o Salvador também nunca conseguiu escapar-se de casa para ir conhecer aquela que, na sua imaginação, era uma espantosa beleza nórdica de cabelos platinados.
     - Nunca a irei conhecer, já percebi... - lamentava-se ele, com frequência.
     E eu conseguia sempre manter o ar sério quando lhe respondia:
     - Paciência... É um borracho, amigo Salvador... Uma loucura!
     Desta vez, como de costume, a nossa amiga enfrentava algum problema e recorria ao Salvador para lho resolver.
     - Ela não diz onde está ao certo. Só sei que está aqui na cidade e quer que a ajude a resolver um problema que tem no restaurante... E isso tudo por e-mail! Já viste maior crueldade?
     Eu, que apesar da barriguinha indomável ainda me julgo irresistível, passei a mão pelo cabelo e comentei:
     - Deixa, que eu trato da nossa amiga. Só preciso de saber onde ela está. Para já, qual é o problema dela?
     - Lê tu.
     E foi assim que, mais uma vez, me apercebi de como os estrangeiros podem sofrer em Portugal!
     A nossa finlandesa estava num restaurante típico. E tentava, desesperadamente, que o Salvador lhe explicasse que estranho prato era esse de «Refeições mais baratas»!
     Mas esse problema até foi fácil de explicar. O mais difícil foi quando ela, equipada com o seu tradutor automático, tentou decifrar uma frase que ouvira a um cliente da mesa do lado «Estamos no Algarve! Não quero peixe com gelado»!


IV - De cara à banda


     Os dias foram-se passando. E o nosso amigo Salvador, embora nunca tivesse tido possibilidade de encontrar a sua finlandesa (por quem já andava platonicamente apaixonado), lá ia fazendo algum dinheiro e arranjando alguns amigos nas classes altas portuguesa e estrangeira. Não como consultor, mas alugando a sua ligação à Internet por bom preço a quem queria navegar ou apenas aceder ao correio electrónico.
     Ah! E aprendera a jogar golfe!
     - Este programa é bestial! - confiou-me ele, um dia, mostrando-me um relvado virtual no ecrã do seu portátil - tem 18 buracos. Hoje, pela Internet, vou jogar com o Príncipe do Mónaco.
     Mas um dia, quando eu estava deitado na espreguiçadeira como na tarde em que ele chegou, vi repetir-se a cena, embora em sentido contrário:
     Nova buzinadela, nova assobiadela, novo aceno.
      Mas, desta vez, além do inesperado, havia mais alguma coisa. Um pouco de tristeza, pareceu-me.
     - Vou para outra terra! - explicou-me ele, com ar abatido, sem sair do carro - Vê lá tu que apareceu no hotel um conjunto musical! Tocam corridinhos do Algarve de manhã à noite, e o pessoal, ainda por cima, parece que adora aquilo!
     - Pensei que também gostasses... - comentei eu, só para não ficar calado.
     - Até era giro! - interrompeu a D. Adélia, sorrindo.
     - Mas estorvava o trabalho do papá - argumentou a Rosarinho.
      O carro fora-se abaixo. Enquanto o punha a trabalhar aproveitando a descida (para o que teve de virar aquelas carripanas todas ao contrário), o Grande Consultor rematou:
     - Além do mais, a banda tocava muito alto. Largura de banda faz sempre jeito. Mas a altura dispenso bem.

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