Salvador, o Consultor


Um tratado!

Salvador, consultor de novas tecnologias, costuma utilizar o escritório do sobrinho ou a Leitaria Primorosa para os seus negócios de alto nível...


     - Olha lá, tu já ouviste falar do Pantagruel?
     Claro que sim, quem não ouvira? Só o que me espantou foi o facto de o Salvador me telefonar de manhã cedo para me atirar com uma pergunta dessas.
     Mas o certo é que eu não tinha nada que me admirar, pois esses telefonemas matinais já começam a ser um hábito de que ele não dá mostras de se tencionar libertar.
     Pelos vistos é de manhã cedo que ele tem o cérebro mais fresco e predisposto a grandes e novos negócios, e o facto de isso coincidir com o período em que o sono me está a saber melhor não passa de uma infeliz coincidência para mim.
     E eu, que bem podia tirar o telefone da ficha, não o faço; porque sei que, não poucas vezes, atrás de um telefonema que parece impertinente vem uma perspectiva de negócio que pode revelar-se fabuloso.
     Por isso reprimi a má-disposição correspondente ao sono, e procurei saber mais pormenores.
     O nosso amigo queria, como rapidamente percebi, receitas de cozinha! Seria por já estar farto das comidas que a D. Adélia, a extremosa esposa, lhe faz?
     De qualquer forma, ele podia ter procurado a autêntica Bíblia da D. Maria de Lurdes Modesto (pois julgo até que em tempos comprou os livros dela), mas resolvera antes ir à Internet fazer a sua pesquisa. Sei lá... talvez porque procurasse manjares refinados, agora que começava a conviver com o mais fino Jet-Set e a nobreza mais requintada...
     Sim, que jeito teria oferecer uma feijoada ao Príncipe do Mónaco com quem, segundo o Salvador dizia, ia jogar golfe nas férias?
     Só que, ao fazer a pesquisa na Web, ele escrevera «Pantagru - L», pelo que não encontrara nada do que queria!
     Quando me apercebi desse pormenor, e após soletrar «P de Porto; A de António; N de Nazaré», etc.), perguntei-lhe o que é que ele andava a tramar...
     Mas nem me respondeu!
     Assim que se apanhou com a grafia correcta desligou-me o telefone na cara e decerto correu de novo para o computador a embrenhar-se no ciberespaço.
     Ora, quando é assim, e por mais que me esforce, já não consigo dormir! E, depois de um chuveiro rápido, lá fui a casa dele.
     - Está fechado no quarto desde manhã cedo! - informou-me a D. Adélia, com um ar bastante preocupado.
     E prosseguiu, em surdina:
     - Ontem, só falava de doces e refogados. Agora, ultimamente, acorda a sonhar alto e a falar de enchidos e presuntos. E hoje deu-lhe para os queijos!
     Como não faço cerimónia, entrei pela casa adentro. Mas fiquei confuso pois, quando eu esperava deparar com uma cara de espanto, ele reagiu como se já estivesse à minha espera!
     - Desculpa lá eu estar em chinelos e pijama. E fecha a porta, pois não quero que a minha mulher nem a minha filha oiçam.
     Esta última parte foi dita num sussurro, evidentemente. E fiz-lhe a vontade.
     Hummm... havia, então, marotice a bordo... E ele mudara a posição do monitor por forma a que, quem entrasse, não visse o que ele estava a fazer...
     Fiz um sorriso cúmplice, puxei de uma cadeira, e sentei-me ao lado dele.
     A sua navegação já deixara bem longe o Pantagruel, e andava agora pelos queijos da Serra! E estava eu ainda a tentar perceber o que se passava quando chegou um e-mail...
     Bingo! Vinha assinado por uma tal Riitta!
     - Finlandesa - esclareceu ele, antes de eu fazer qualquer pergunta - E não queiras saber se é gira ou não, pois só a conheço por correio electrónico.
     Mas havia ali um pequeno pormenor:
     O remetente indicava um servidor português... Portanto a finlandesa do nosso amigo talvez não andasse muito longe!
     - Quase de certeza está no supermercado mesmo aqui em frente -. Esclareceu ele como se eu tivesse falado alto.
     Vim então a saber pormenores deliciosos:
     A Miss Riitta, nova moradora ali no bairro, andava às compras. E, tendo entrado em pânico com as histórias dos frangos com toxinas, as vacas loucas e o queijo infectado, não sabia o que fazer nem o que comer.
     Recorrera então ao seu telemóvel com ligação à Internet e, tendo procurado um "salvador" adivinhem em quem tropeçara!
     - Agora não me larga! Vai às compras com o aparelho e a toda a hora escreve-me a pedir conselhos sobre o que há-de comprar, e sei lá mais o quê!
     - Até logo! - atirei eu, deliciado por, desta vez, ser eu a desorientá-lo! - Deixa a garota comigo!
     E, sem dizer mais, saí do quarto, esbarrei na mulher e na filha que estavam a escutar á porta, despedi-me sem mais conversas, e saí porta-fora direito ao tal supermercado ali da frente!
     Ajeitei o nó da gravata, alisei o casaco, dei um retoque no cabelo, e preparei-me para ensaiar o meu ar de irresistível no reflexo do vidro da porta.
     Só que, sendo ela automática, tive de recorrer ao espelho das hortaliças.
     Depois, começando a percorrer o supermercado com ar marialva e confiante, tentei desencantar a Miss Riitta...
     Foi muito mais fácil do que eu pensava...
     Ao fundo, junto da secção dos queijos, uma enorme senhora de idade avançada e de cabelos brancos, de longa gabardina e óculos de aros, manipulava um pequeno aparelho poisado num saco de batatas.
     Aproximei-me, como quem não quer a coisa...
     E vi que a simpática senhora usava uma geringonça que era, ao mesmo tempo, telemóvel, computador, agenda pessoal e tradutor português-finlandês-português!
     Nessa altura, por acaso, não estava a escrever ao Salvador.
     Estava apenas a traduzir os dizeres de etiquetas de queijos! Olhava para eles, desconfiada, traduzia... e voltava a arrumá-los.
     Até que teclou o texto que vinha num, ajeitou os óculos para ver a tradução e mostrou-se muito satisfeita.
     Aproximei-me ainda mais e percebi tudo.
      Vi então o bonequinho de uma ovelha e, mesmo ao lado do bicho e em letras garrafais: «Curado».

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