Salvador, o Consultor


O Sand... Man

Salvador desdobra-se em actividades como consultor. Mas hoje, e excepcionalmente, não o vamos encontrar no escritório que o sobrinho lhe dispensa a partir das 18h...


     - Olha lá, tu já ouviste falar das "chaves de 128 bits"?
     Foi com esta estranha pergunta que o Salvador me acordou ontem de manhã.
     Depois de abanar vigorosamente a cabeça, e quando me senti mais desperto, dei-lhe a resposta natural: claro que sim, já ouvira falar das "chaves de 128 bits"!
     E, apesar de aborrecido, ainda lhe atirei com uma gracinha:
     - Olha, e tanto quanto sei não se trata de uma chave de parafusos nem de uma "chave-inglesa". Acho que é uma autêntica "chave americana" e que eles até nem queriam que se exportasse, comparando-a a segredo militar.
     O motivo que o levara a telefonar-me tinha a ver, portanto, com encriptações e segurança, o que me deu uma grande alegria pois isso significava que ele estava, agora, a entrar em assuntos que metiam software de alto nível! Mas a pergunta seguinte, pontuada por uma gargalhada, fez-me descer à terra:
     - E de chaves de latão e de ferro, daquelas que abrem fechaduras, também já ouviste falar?
     Quando me preparava para o mandar passear e virar-me para o outro lado para retomar o sono interrompido, ele continuou, mas agora num outro tom:
     - Desculpa lá, pá. Estou-me a rir mas trata-se de um assunto muito sério. A que horas posso passar por tua casa? Vais ver como é uma coisa importante, quando te explicar.
     E rematou, sem me dar tempo a retorquir:
     - Pensando bem, até vou já para aí -. E desligou o telefone!
     De qualquer forma, tínhamos então alguma grande novidade! E, pelos vistos, até havia alguma urgência no assunto, pois era a primeira vez que ele se propunha aparecer-me em casa para resolver um problema que tinha todo o aspecto de ser exclusivamente profissional.
     Mal me deu tempo para tomar banho. Um quarto de hora depois tocava-me à porta, e entrava por ali adentro direito à divisão onde sabe que tenho a minha oficina da biscatada. E eu limitei-me a segui-lo, em silêncio, visto saber que ele conhece bem os cantos à casa.
     Pois foi também sem grandes conversas que ele colocou em cima da bancada de trabalho um computador portátil, aparentemente novo, mas que tinha a particularidade de possuir uma fechadura, coisa essa que eu nunca vira em nenhum.
     Mas o essencial é que o problema, pelos vistos (e ao contrário do que a conversa inicial me levara a supor), era de hardware, e o mais puro possível: o dono muito provavelmente perdera a chave, e recorrera ao Grande Consultor para o ajudar!
     Abri então uma gaveta onde guardo inúmeras velharias, deixei-o entretido a procurar, no meio daquelas tralhas todas, a resolução do seu problema, e fui calmamente tomar o meu pequeno almoço para a cozinha pois as torradas já começavam a cheirar a carvão.
     - Já está! - ouvi-o bradar, feliz, na altura exacta em que, logo por acaso, o telefone tocou -. Deve ser para mim. Diz ao homem que eu já saí e que já vou a caminho!
     Por mais espantoso que parecesse, a chamada era, de facto, de um cavalheiro que, tendo sabido (talvez pela mulher) onde o Salvador estava, o procurava, desesperado! E mais não soube na altura pois o nosso amigo já desaparecera pela porta-fora, a correr, sem sequer se despedir (nem muito menos agradecer ou pedir-me desculpa pelo incómodo causado!).
     Mas o certo é que eu já começo a estar habituado a estes mistérios do meu amigo Salvador pelo que, escusado será dizer-se, à tarde lá estava eu à sua espera na leitaria Primorosa das Avenidas, aguardando que ele chegasse e me elucidasse.
     E, de facto, lá apareceu. Vinha de mãos a abanar (o que lamentei, pois tinha algumas esperanças de que trouxesse o aparelho para eu ver), mas estava muito sorridente:
     - Ó D. Deolinda, olhe que quem paga hoje a conta deste nosso amigo sou eu!
     Sorri, pois o truque já é velho:
     Ele manda vir o seu lanchinho, paga de facto o meu café, mas depois, como diz que não tem mais dinheiro, sou eu quem paga a conta dele!
     Mas tudo isso já faz parte do folclore dos nossos encontros, e o que eu queria saber era novidades do tal estranho cavalheiro que até me telefonava para casa a perguntar por ele.
     - Nada de especial. Trata-se apenas de um desses gestores de empresas que têm horror aos computadores e que, por vezes, passam por algumas vergonhas
     Não precisava de dizer mais. Muitas firmas são dirigidas por pomposos cinquentões que, além de não saberem sequer ver as contas da empresa que dirigem se elas estiverem numa disquete, ainda se gabam desse triste facto.
     Mas o Grande Consultor, que se especializara nesse autêntico nicho de mercado, sentia-se como peixe na água a lidar com essa gente.
     E explicou-me:
     - Ora eu arranjei uma solução para ele e para todos os outros como ele. Aquilo que viste é só uma caixa, e por dentro não tem computador nenhum. Em caso de necessidade, nomeadamente em reuniões, o homem só tem de fingir que procura a chave e fazer um ar desolado, dizendo que não a encontra.
     Fiquei de boca aberta. Essa era de génio!
     - Mas então porque é que quiseste arrombar a caixa? Assim, com a chave verdadeiramente perdida, é que o truque era convincente! - argumentei.
     Mas eu não estava a ver a globalidade do problema (como ele dizia):
     - Não podia ser. Como aquilo era oco, estava muito leve. E, nestas coisas, nunca fiando. Alguém lhe podia pegar, notar esse facto, e fazer qualquer pergunta embaraçosa, como querer saber a marca...
     Ri-me. E só percebi o que o Salvador lhe meteu quando, piscando o olho, comentou:
     - Coitado do homem... Foi ele mesmo que me deu a ideia do que havia de pôr lá dentro quando me disse que isto da informática era muita areia para a sua camioneta...

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