Salvador, o Consultor


A casaca do casaca

O meu amigo Salvador Matatias desdobra-se em actividades como consultor de novas tecnologias. Como tantas vezes sucede, vamos hoje encontrá-lo no escritório que o sobrinho lho dispensa a partir das 18h...


     Ultimamente não tenho aparecido por lá, nem sequer na sucursal que ele abriu na leitaria.
     Mas, entre nós, temos um código:
     Quando ele precisa de ajuda urgentemente, e mesmo que não possa falar, envia-me uma mensagem pré-programada para o telemóvel.
     E, como a minha casa é perto, é muito raro que não o possa socorrer. Foi isso o que ontem aconteceu.
     Quando é assim, já vou preparado para situações de maior complexidade, pelo que não foi com grande espanto que, ao chegar ao "seu" gabinete, o vi muito atrapalhado e sem saber o que fazer.
     Sentada na frente dele, uma senhora de meia-idade chorava como uma perdida e o nosso amigo, desorientado, apenas sabia perguntar se ela queria um copo de água...
     De longe, e sem interferir, o resto do staff assistia à cena, com a convicção de que o assunto era meramente profissional e só dizia respeito ao Grande Consultor.
     Mas comigo não foi assim.
     A primeira coisa de que a senhora precisava era um lenço, o que providenciei, aproveitando para me apresentar.
     Em seguida sentei-me ao lado deles, pois a cara de alívio do Salvador era bem eloquente e convidava-me a isso mesmo sem pronunciar uma palavra.
     - Esta senhora queixa-se de que perdeu o emprego por causa das novas tecnologias -. Explicou-me - E quer que a ajudemos...
     A situação era bizarra, pois a nossa especialidade era precisamente tentar explicar às pessoas as vantagens dessas coisas, escamoteando o mais possível os inconvenientes.
     Atendendo à idade da senhora, a primeira coisa que pensei foi que devia ser uma inadaptada dos novos tempos, quiçá uma inforfóbica...
     Mas, afinal, fora tudo muito mais complicado:
     Ela trabalhara até ao dia anterior numa empresa cujo dono, o Sr. Maurício, era - que coincidência! - cliente do Salvador.
     E fora precisamente na sequência dos conselhos do nosso amigo que a empresa do Sr. Maurício fora rejuvenescida, a golpes de hardware, software e formação acelerada.
     - E a Sra. D. Leucádia não se deu bem com algum programa? - perguntei eu - Quem sabe se um curso suplementar não resolverá o seu problema?
     Mas ela não respondia. Só soluçava e fungava.
     Por fim, respirando fundo, começou a desabafar:
     - Nada disso... O problema foi exactamente o oposto. Dei-me bem demais com as novas tecnologias! - E retomou a choradeira.
     O Salvador, então, virou-se para mim e comentou:
     - Acho que já sei o que se passou: o chefe da senhora deve ter-se sentido ultrapassado pela D. Leucádia e reagiu mal... Há chefes assim...
     E, tendo notado que ela tinha ouvido o comentário, perguntou-lhe: - Acha que foi isso o que se passou?
     Mas não. Aliás, apanhando-se com a maravilhosa ferramenta que é o correio electrónico, a D. Leucádia, feliz, começara a escrever às amigas e colegas acerca de tudo e mais alguma coisa.
     Parecia explicado, então o mistério:
     - Ah... a senhora foi então despedida por passar tempo demais nessa brincadeira, não foi? - aventou o Salvador.
     - Não, Sr. Doutor. Acho que foi uma traição de uma colega, a Luísa... Estávamos, portanto, perante um problema de má-língua!
     Apesar de tudo ainda bem, pois as novas tecnologias só em grau muito pequeno é que haviam influído no seu despedimento! Se ela era dada à intriga, mais cedo ou mais tarde arranjaria problemas, com ou sem correio electrónico!
     E foi isso que o Salvador lhe explicou, escolhendo cuidadosamente as palavras.
     - Também não pode ter sido isso... Se fosse por causa da minha má-língua já eu tinha sido despedida há muitos anos! A culpa foi da Internet, mais nada!
     E, abrindo a carteira, tirou uma cópia da carta de despedimento na qual estava agrafado um print de uma mensagem que, pelos vistos, ela enviara à tal amiga e fora a causa directa da sua desgraça:
     - Ó D. Leucádia! Então a senhora envia uma mensagem destas a dizer mal do seu chefe... e envia CÓPIA PARA ELE?!
     A senhora não acreditou nem sequer percebeu.
     Pediu para ver bem o papel, pôs os óculos de ver ao perto, e, tremendo, comentou em voz sumida:
     - A Luísa é que me disse que isto do "Cc" queria dizer "Cortar na casaca"...

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