Salvador, o Consultor


Mal-empregado!

     Talvez estejam recordados do infeliz Sr. Nematelminta, cavalheiro que perdia empregos atrás de empregos.
     Uma vez, sob o pretexto de que, sendo muito gordo, ficava muito caro ao patrão em dispendiosas cadeiras reforçadas; outra vez, pelo facto de ser "eficiente demais", originando situações terrivelmente embaraçosas como aquela que em tempos aqui se relatou.
     E assim sucessivamente: por um motivo ou por outro, o nosso homem não conseguia estar mais do que um par de semanas na mesma empresa.
     Pois, há cerca de um mês, fui dar com ele a ser atendido no gabinete que o sobrinho do Grande Consultor lhe dispensa a partir do fim da tarde.
     E ali estavam ambos, sob o olhar atento da D. Rosa, trocando impressões sobre as tácticas que o homem devia adoptar para manter o novo emprego que o Salvador lhe arranjara a muito custo através da Internet.
     Nunca me meti no assunto e limitei-me sempre a ouvir. Aliás, para palpites e conselhos lá estava a omnipresente senhora que, desde que deixara a funções da limpeza, era perfeitamente competente para dar directivas relacionadas com Recursos Humanos.
     E o certo é que tudo começou a correr bem e pude até ouvir frequentes conversas em que o nosso homem dizia:
     - Que maravilha! Desta vez até vou ter aumento de salário!
     Quando procurei saber pormenores ele, feliz, não se fez rogado:
     - Sabe? É que eu tenho amigos no Serviço de Pessoal lá da empresa, o que me dá acesso às informações confidenciais que o meu chefe transmite. E ele é bem claro: dia-sim-dia-não dá instruções para me darem mais ordenado! Agora é só uma questão de tempo!
     De facto era caso para nos felicitarmos, tanto mais que os nossos honorários seriam uma percentagem do aumento que o nosso cliente viesse a obter.
     Assim se passou um mês, em clima de optimismo crescente. Pelo que íamos sabendo, o nosso homem cada vez trabalhava mais, desdobrando-se em mil-e-uma actividades, acudindo a todo o lado e trabalhando numa infinidade de assuntos e em outras tantas tarefas ao mesmo tempo, sempre atafulhado em papeis e em trabalho. E muito feliz!
     Agora veja-se a nossa cara quando ontem ele veio ter connosco, mortalmente abatido:
     - Fui despedido! - e deixou-se cair na cadeira, completamente destroçado.
     Explicação do mistério:
     A tal informação confidencial: «Nematelminta MAIS ORDENADO» não pretendia dizer que ele devia ter mais ordenado. Significava, isso sim, que ele devia ser mais ordenado.

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