Salvador, o Consultor


Andando aos papeis

     - Passa os dias fechado na garagem e ninguém sabe o que anda a fazer - resmungou a D. Adélia, referindo-se ao Salvador, quando há dias apareci lá em casa.
     Nunca aqui se falou dessa garagem, na medida em que é igual a todas as outras, apenas tendo sido acrescentada para lá caber o Cadillac. Ora esse carro, ficando agora na rua, deixou espaço livre para qualquer coisa misteriosa!
     Uma vez lá chegado, tive de bater à porta. Para minha surpresa, o nosso amigo entreabriu apenas uma frincha e só depois, a medo, é que me deixou entrar. Em seguida, fechando-se de novo à pressa, encarou-me nos olhos e fez-me prometer que guardaria segredo relativamente a tudo o que ali visse.
     Mas agora já estou autorizado a contar:
     A primeira coisa que me chamou a atenção foi o facto de haver uma infinidade de mesas onde inúmeros papeis enchiam todo o espaço disponível.
     - Acabo de ler que alguém patenteou um produto em que eu ando a trabalhar secretamente há bastante tempo: telemóveis descartáveis - explicou ele, finalmente, muito pesaroso.
     De facto eu também lera, mas nunca me passara pela cabeça que ele estivesse também metido nisso. Paciência... Aconteceram coisas semelhantes até com a lâmpada eléctrica e com o telefone. Mas, para ser franco, nunca pensei que ele já tivesse ido tão longe e chegado à fase dos protótipos. E guardara o segredo muito bem!
     Aproximei-me então de uma das mesas. E ali, em folhas de papel que iam do simples bilhete de autocarro até à folha de jornal, estavam impressas imagens de telemóveis que eram muito mais do que bonecos: FUNCIONAVAM!
     Mas então, se estava tudo pronto, por que é que ele esperara?!
     - É que há um problema delicado: nas instruções de alguns aparelhos vai ser necessário avisar o utilizador que terá de o desligar antes de se lhe dar "o outro uso". E, como compreendes, em certos casos a situação pode ser embaraçosa, pois não sei como dizer isso sem ser grosseiro...
     De facto, só devia faltar esse pormenor, pois até o símbolo "CE" já lá estava. E também a indicação de «Instruções: Ver verso» que me levou, maquinalmente, a virar esses tais papeis e a confirmar que nada lá constava.
     Era então esse o drama?! Sim, e o Salvador, triste, comentou:
     - Eu pensei que com a tua ajuda podia resolver o problema. Só que, se calhar, já não vamos a tempo...
     Explicou-se melhor: ele queria dar a volta ao problema escrevendo as tais instruções de forma bonita e elegante «Talvez em verso, como aí se diz...»

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