Salvador, o Consultor


Idade Média

     No momento em que esta crónica é escrita está o Salvador a chegar do Algarve depois das mini-férias de Junho. O certo é que, embora seja patrão de si mesmo, o "bichinho" do descanso continua a mordê-lo, fazendo-lhe brilhar os olhos só de ouvir falar em feriados e "pontes"!
     Ele compensa esse paradoxo estando sempre atento, mesmo nessas alturas, a tudo o que cheire a negócios, sejam eles relacionados com as novas tecnologias ou não. Mas imagine-se o meu espanto quando vim a saber que ele tencionava ganhar dinheiro pelo facto de ter colocado o seu Cadillac ao serviço da segurança rodoviária!
     Ora o nosso amigo é dos poucos portugueses que nada se importa com o facto de a auto-estrada para o Algarve tardar em estar pronta. É que, nessas vias, é obrigatório andar pelo menos a 40 km/h, coisa que o velho carro só consegue fazer nas descidas e, mesmo assim, com grande dificuldade.
     Mas o certo é que não há ninguém como o Salvador para reverter em seu proveito as situações adversas. E, assim, devidamente equipado com um radar que ele mesmo construiu, passou os dias a patrulhar as estradas secundárias, sempre atento aos que julgavam que, por aqueles caminhos, estariam protegidos das acções de "Tolerância-Zero".
     Nos casos que lhe pareciam ser claras infracções, pedia à mulher que fotografasse os prevaricadores e à filha que anotasse os locais e as horas. E, ao fim do dia, numa câmara-escura existente no porta-bagagens, revelava as películas e aprimorava-se nas amplicópias que também fazia nesse estúdio. Finalmente, depois de secas, as fotografias eram passadas num digitalizador e enviadas pela Internet às autoridades competentes.
     Quando soube de tão incrível método manifestei a minha estranheza e perguntei-lhe se tinha valor legal.
     - Não faço ideia - respondeu, displicente - O mais certo até é haver um dia destes uma amnistia qualquer.
     Mas tão insólita conclusão não o impediu de escrever ao Sr. Ministro da Administração Interna propondo-lhe um método infalível para reduzir as mortes nas auto-estradas:
     É que, depois de minuciosas pesquisas, concluiu que a maioria dos acidentes era provocada por gente imatura, pelo que tivera a ideia genial de impedir a condução a menores de 40 anos!
     E rematou:
     - Bem... os muito-muito-velhinhos também deverão ser impedidos de conduzir. E tudo isso é fácil de fazer, pois até já existe sinalização que se pode aproveitar.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte