Salvador, o Consultor


Ora bolas!

     Um dia destes telefonou-me a D. Adélia, a mulher do Salvador, com uma voz muito angustiada:
     - Não sei o que é que o meu marido tem - começou -, com a porcaria das novas tecnologias deixou de dar atenção às coisas da casa! Só se agarra ao computador, à Internet, e deixa tudo o resto!
     Estávamos, pelos vistos, perante um problema conjugal de difícil solução e as "novas tecnologias", que tão bem serviam, ultimamente, para o Salvador ganhar a vida, podiam levar a vida familiar - quem sabe? - até para um divórcio! E eu e a D. Rosa também teríamos a nossa dose de culpa! Procurei saber mais coisas, mas desatou a chorar.
     E então eu, para me livrar dessa situação embaraçosa, disse-lhe que, com tantos soluços, a chamada estava a ficar-lhe cara... Ela aceitou o argumento mas, antes de desligar, ainda me disse que o marido estava a entrar à porta e que, se eu pudesse, fosse até lá a casa para me aperceber ao vivo do que se passava.
     Assim fiz. Pouco depois, lá chegado, a boa senhora veio receber-me, com os olhos húmidos.
     - Já se enfiou no escritório, o cretino! - resmungou.
     Pelos vistos, eu teria de ser cuidadoso. Assim, antes de entrar pela casa adentro, pedi, em surdina, que me desse mais pormenores. Como, por exemplo, a que trabalhos caseiros ele se furtava.
     - Não vamos mais longe! - replicou - Vê este quadro aqui no chão? Pois está assim há mais de uma semana, e quando lhe digo para pregar o prego na parede põe-se a rir, diz que é coisa para três horas, e lá vai ele para o ciberespaço!
     Afinal, talvez se tratasse tudo de uma tempestade num copo de água. Eu mesmo pregaria o prego sem fazer muito barulho, ir-me-ia embora, e o nosso homem até escusava de saber que eu tinha estado lá em casa.
     Mas o certo é que era preciso o martelo e - por um motivo difícil de explicar - essa ferramenta estava ao pé do Salvador! Assim, a solução foi mesmo ir ter com ele e puxar conversa. Mostrou-se satisfeito por me ver e até interrompeu o trabalho. Depois, vendo-me a olhar para o martelo, comentou:
     - Não tarda nada, ainda vai ser usado! - e mostrou-me, no monitor, uma daquelas mensagens de erro que todos nós conhecemos.
     E foi assim que veio à baila o tal prego que ele nunca mais pregava, tarefa essa que eu me oferecia para fazer. Então, resmungando, levantou-se e, pegando no martelo, dirigiu-se para o sítio onde o quadro esperava.
     Deu uma cuspidela nas mãos e esfegou uma na outra. Depois, pegou no prego, empunhou a ferramenta... e pimba!
     - E era isto que tu dizias que demorava três horas?! - comentou a D. Adélia, agora já sorridente.
     Claro! Ela é que não ouvira o marido com atenção:
     - ORA então vamos lá a isto... ORA então com licença... (PIMBA!)... ORA então já está!

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