O Rei da batata
Salvador é consultor em novas tecnologias, actividade que exerce servindo-se das instalações do sobrinho. Este, um jovem empresário de sucesso, sai por volta das 18h e cede-lhas até às 20h 30m.
Mas o certo é que, ultimamente, a sua actividade tem crescido de tal maneira que esse tempo de que dispõe é manifestamente insuficiente. E o horário é bastante impróprio para os contactos com empresas que trabalham em período normal.
E foi assim que ele alargou os seus horizontes técnico-comerciais passando a ocupar, a partir das 16h, duas mesas - sempre as mesmas - na Primorosa das Avenidas, a leitaria onde vamos, com frequência, fazer horas até o escritório estar livre. Da última vez que lá o encontrei (já com a nova "sucursal" a funcionar) ele conversava, com ar muito compenetrado, com a D. Deolinda (a dona do estabelecimento), e com Sr. Joaquim (o marido, que trata da mercearia do lado).
Quando me aproximei, hesitando se havia de interromper a conversa ou não, o Salvador, vendo-me, fez-me sinal para me sentar também.
- Ainda bem que chegas. Empresta aí o teu telemóvel.
Que diabo! O que é que se passava para que os três estivessem tão sisudos e concentrados?! Além do mais, A D. Deolinda era habitualmente vista atrás do balcão e nunca a imaginara sentada, como cliente! Ora acontecia que o nosso amigo Salvador tinha em cima da mesa, devidamente aberto e ligado, o seu velho computador portátil que, melhor ou pior, lá vai servindo para o que precisa. E agora imagine-se o meu espanto quando me apercebi que ele explicava aos dois os rudimentos da Internet! E passava-se até uma coisa muito interessante: Salvador procurava palavras portuguesas que substituíssem os habituais barbarismos como e-mail, Browser, e-business, Web, etc.
Esse louvável cuidado fez-me lembrar um ministro que, há dias, anunciando o lançamento do novo aeroporto da Ota, se recusou a usar a palavra TGV para designar o futuro combóio de alta velocidade.
Dizia ele, e muito bem: «Vai-se chamar RAVEL, que significa Rede de Alta Velocidade e é um nome bem português!». E, na frase seguinte (continuando a usar termos bem portugueses), informou que «na Gare do Oriente se poderá fazer o... Check-In».
Mas o certo é que a coisa, ali na leitaria, parecia estar a correr bem e, com a minha chegada, passou a correr ainda melhor: o nosso amigo, usando o meu telemóvel, ligou-se à Internet ("Inter-Rede" - como traduziu), explicou o que era o e-mail ("É Correio"), os newsgroups ("Novos Grupos") e mostrou ainda as virtudes de ter uma Home-Page ("Casa da Página")!
Não me atrevi a corrigi-lo, para não lhe abalar o prestígio, mas fiquei sem saber o que responder quando me perguntou, baixinho:
- Olha lá, em português chats é "chatos" ou "gatos"?
Felizmente, nessa altura, o Sr. Joaquim questionou:
- E como é que se chama esse gatafunho que você tem aí na gravata?
Referia-se a um enorme @ bordado que a decorava. E eu ia a dizer que se pronunciava "at" quando o Salvador, cuidadoso, atalhou:
- Arroba. O símbolo, em português, chama-se "arroba".
O homem, então, levantou-se ligeiramente, tirou do bolso de trás das calças uma sebosa carteira, e começou a procurar febrilmente qualquer coisa. Por fim, encontrando o que pretendia (tratava-se de um impresso, muito dobrado, para pôr um anúncio num jornal), espalmou-o em cima da mesa e, pegando num pequeno lápis que trazia preso na orelha, explicou:
- Eu queria pôr um anúncio e fico muito satisfeito por ver que as novas tecnologias me podem ser muito úteis.
Eu e o Salvador sorrimos, contentes. E ele completou:
- Além do mais, dá muito bom aspecto, numa altura em que tanto se fala de modernizar o comércio tradicional.
Não tardou a explicar-se melhor:
- Ora então vejam lá se está bem.
E, escrevendo com alguma dificuldade e mordendo a língua, redigiu o anúncio que queria meter:
REI DA BATATA
Onde a @ é + barata
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