Salvador, o Consultor


O Sr. Nematelminta - II

     Na semana passada falei-vos de um patusco indivíduo, o Sr. Nematelminta, e dei-vos conta de como (e porquê) ele foi despedido da empresa do Prof. Equinócio.
      No entanto, o certo é que o homem lá se esforçou e, à custa de reciclagens e cursos intensivos de formação (dados pessoalmente e à distância pelo Salvador), lá conseguiu ser admitido numa outra empresa vizinha, a do Dr. Bedúncio. E, sendo verdade que «Em terra de cegos quem tem um olho é rei», o Sr. Nematelminta a breve trecho conseguia brilhar, no que se referia a informática, e não só.
     Agora imaginem o nosso espanto quando, um dia que estávamos de visita à empresa, ouvimos uma altercação vinda do lado dos gabinetes da Chefia. Não foi preciso esperar muito para percebermos que, pelos vistos, e mais uma vez, o homem estava em vias de ser despedido!
     A D. Rosa, que nos acompanhava sempre nestas actividades, tentou saber o que se passava perguntando a algumas pessoas que por ali andavam. Mas, pelos vistos, o clima naquela empresa não era dos melhores, e as pessoas furtavam-se a dar as explicações que pretendíamos obter. A solução foi, portanto, irmo-nos aproximando, «como quem não quer a coisa», do lugar da barafunda e apurar os ouvidos, pensando que talvez com uma intervenção oportuna e discreta conseguíssemos remediar o problema...
     Mas o que ouvimos estarreceu-nos, convencendo-nos de que não haveria muito a fazer:
     - Chefe! Não sei porque é que me quer mandar embora! Eu bem sei que acabou o meu período experimental, mas eu esforcei-me o mais que pude para ser o empregado-modelo! - Argumentava o funcionário, quase com lágrimas nos olhos.
     - Esforçou-se demais… - respondeu enigmaticamente o distinto Doutor, sem nunca deixar de roer o seu charuto apagado.
     - Como assim?! - Insurgiu-se o outro.
     - Exagerou...
     Não se dando por satisfeito, o pobre Sr. Nematelminta subiu de tom, olhando em volta como que a procurar o apoio dos colegas, mas só nos vendo a nós, ao fundo das escadas. Continuou, argumentando:
     - O senhor sabe que, sempre que eu vou no corredor, a caminho de uma reunião, e para ganhar tempo, já estou a tirar o notebook da pasta!
     - É verdade - anuiu o patrão, fleumaticamente.
     - E o senhor sabe que, sempre que eu vou no corredor, a caminho do seu gabinete, e para ganhar tempo, já estou a tirar a esferográfica do bolso!
     - Também é verdade...
     - Então qual é o problema, Dr. Bedúncio?!
     - Já não se lembra de que hoje de manhã, quando ia no corredor, a caminho da casa de banho, e para ganhar tempo...?

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