Salvador, o Consultor


O IRS - II

     No seguimento de mais um telefonema do Salvador a pedir a minha ajuda, a breve trecho estava eu à porta de um edifício novo onde a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma placa cujo texto parecia não ter pés nem cabeça:

MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
Departamento de IRS

     Entrei, e a recepcionista, que já tinha indicações para me encaminhar quando eu chegasse, levou-me sem mais delongas por um corredor, ao fundo do qual estava já o nosso herói - à minha espera desde que ouvira ecoar os meus passos.
     O edifício parecia estar deserto. Entrei então para uma sala semi-obscurecida onde fui surpreendido por uma parafernália de computadores, sinópticos gigantescos e uma miríade de luzes cintilantes! Eis senão quando, saindo detrás de um computador, quem é que aparece, sujo de pó e arrumando uma chave-de-parafusos no bolso da camisa? Nem mais nem menos do que Sua Ex.a., o Ministro da Justiça, a quem o Grande Consultor me apresentou!
     Mas estávamos ali só os três, e o ambiente era informal. Mostraram-me então um gigantesco painel representando o país, e onde se podiam ver algumas luzes, a maioria das quais se movia no interior de círculos fixos de diferentes diâmetros mas também não muito perfeitos.
     - Estamos a testar um novo sistema de IRS, iniciais de Integração de Reclusos na Sociedade - adiantou Sua Ex.a. - Cada condenado tem cravada na perna uma pulseira inamovível. Através da Internet e de um sistema de satélite controlamos onde ele está a cada momento. Os círculos representam o grau de liberdade de que ele desfruta.
     E o Salvador prosseguiu:
     - O raio de cada círculo vai variando, dependendo do comportamento. E há alguns ligeiramente abatatados porque que os juizes, hoje em dia, são muito humanos: há pequenos ajustes, pois não faria sentido que um recluso ficasse limitado a um círculo que passasse a um metro de uma tasca.
     Eu estava maravilhado! O Salvador continuou:
     - Chamei-te porque estamos preocupados com aquele pontinho ali em cima, que não se move há vários dias, e queríamos a tua opinião.
     - Se calhar o homem morreu... - aventei - Ou estará de cama, doente...
     - Já ligámos para casa dele, e em geral responde o atendedor de chamadas. Há pouco, atendeu a mulher. Disse-nos que ele está muito bem de saúde mas que não pode vir ao telefone. E desligou! - esclareceu Sua Ex.a, descoroçoado.
     - O homem não terá fugido? - Perguntei ainda, enquanto o Senhor Ministro procurava, numa base de dados, o nome do recluso em causa:
     - Impossível, pois a pulseira está cravada em redor da perna - respondeu ele, sem interromper o que estava a fazer -. Só cortando...
     Mas, de súbito, deu um grito e correu para um telefone:
     - Alerta! Evadiu-se o Nicolau, por alcunha o Perna-de-Pau!

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