Salvador, o Consultor


O IRS - I

     Ultimamente tenho referido a nova actividade que o Salvador e a D. Rosa (e eu, sempre que posso) desenvolvem no Parque Tecnológico onde está sediada a Teknospiro, a florescente fábrica de chinelos do Dr. Diospiro (um dos maiores inforfóbicos que já nos apareceram pela frente).
     A fábrica lá vai prosperando à custa do tal software «CAD-CHIN» que o Grande Consultor preparou, e o certo é que essa actividade (agora facilitada pelo facto de ele ter conseguido levar para lá, em peças, a sua cyber-roulotte) foi consideravelmente alargada devido ao facto de haver, ali na zona, muitas outras empresas de duvidosa eficiência a precisar da nossa ajuda.
     - É espantosa a quantidade de pessoas, especialmente patrões, que não sabem ligar um computador! São ainda piores do que os políticos que a gente conhece!
     Eu sabia, infelizmente. Mas, neste caso, a palavra "infelizmente" era mal aplicada, pois pelo menos o Salvador e a D. Rosa viram-se de um momento para o outro (e apenas entre o Palácio de S. Bento e o Parque Industrial da Teknospiro) com um gigantesco campo de actuação e facturação!
     E de tal maneira o negócio começou a prosperar que eu mesmo tive, com frequência crescente, de dar embaraçosas escapadelas do emprego para ajudar aquela dupla a fazer face a tantas frentes de trabalho!
     Ao fim e ao cabo, e quando dei por mim, tinha chegado à conclusão de que bem podia largar o velho emprego das 9 às 18h e ganhar a vida, com eles os dois, sem sair daquela zona e do Parlamento!
     Um belo dia, quando chegou a minha vez de passar o correspondente recibo verde (pois íamos alternando entre nós), cheguei à conclusão de que estava em riscos de mudar de escalão de IRS se não arranjasse nada de bastante substancial para abater na Declaração de Rendimentos.
     - Não te preocupes, homem! - comentou o Grande Consultor, sorridente, dando-me uma das suas amigáveis e espalhafatosas palmadas nas costas - Deves saber que os PPR dão bons descontos nos impostos, e isso é coisa que, para nós e felizmente, não falta!
     Claro, os PPR... Eu também tenho disso, e dão muito jeito nestas alturas. Mas a que propósito é que vinham à conversa os Planos de Poupança Reforma?! Não percebi, e o Salvador, virando-me as costas, também não me esclareceu. Claro que eu já devia saber decifrar esse tipo de piadas do nosso amigo:
     Os PPR a que ele se referia (explicou-me mais tarde, sorrindo, a sua eficiente assessora) eram os Patrões e Políticos Retrógrados.

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