Salvador, o Consultor


A Teknospiro - I

     Devem estar recordados do Dr. Diospiro, estranho cliente inforfóbico que o Salvador se esforça para converter às delícias das "novas tecnologias". Mas o facto é que, por mais sessões de formação à distância que ele faça, "a coisa não vai lá".
     E foi por isso, em desespero de causa (e porque o bom do Doutor às vezes até se mostra receptivo), que o nosso amigo mudou de táctica: aulas ao domicilio! Bem... ele não vai propriamente a casa do Doutor, vai apenas à empresa. Mas tem de se defrontar com o terrível problema dos transportes.
     Como sabem, o Salvador tem o seu Cadillac perfeitamente equipado com aquilo a que ele chama o "ciberespaço ambulante": adaptou toda a parte de trás do carro, e meteu lá tudo o relacionado com informática e Internet. Sobra apenas o enorme banco da frente onde me leva a mim, à D. Rosa ou a ambos, conforme os casos.
     Ora acontece que a Teknospiro (a empresa de chinelos do Dr. Diospiro) fica numa zona onde as ruas são muito estreitas, pelo que o Salvador teve de recorrer a um artifício: escolheu o material essencial, arranjou uma malinha onde conseguiu meter tudo isso, e fez o que não lembraria a mais ninguém: "requisitou" a bicicleta da Rosarinho (que mete no porta-bagagens) e lá vai ele, nos dias em que tem de dar lição.
     Depois, quando chega ao sítio a partir do qual o carro já não passa, estaciona-o e tira da bagageira a malinha (o "e-kit das emergências") e a bicicleta de senhora na qual cavalga com algum embaraço.
     Depois, pondo uns óculos escuros para ajudar a vencer a vergonha, lá vais ele, o mais depressa que pode, a pedalar os dois ou três quilómetros que o separam da empresa. Um pouco antes de lá chegar, esconde a bicicleta no meio de uns arbustos, alisa o casaco e as calças, sacode o pó e apresenta-se na Portaria onde já o tratam por Doutor. Ora, com receio de que eu o goze, guardou o segredo dos pormenores destas divertidas andanças, mas o certo é que, pela D. Rosa, acabei por saber tudo. Assim, quando um dia o apanhei a jeito, levei a conversa para esse assunto e ele, vendo que eu não me ria, acabou por confessar, incluindo o pormenor delicioso das molas da roupa que coloca para segurar a boca das calças.
     - É a vida... - comentei eu - E, ao menos, o homem aprende alguma coisa?
     - Olha, tão depressa se mostra interessado como, à mínima dificuldade, diz que isto são coisas sem interesse nenhum. Aprende, esquece, aprende, esquece.... E ainda faço a triste figura da bicicleta!
     E rematou, mostrando que pretendia mudar de assunto:
     - Deve ser a isso que se chama um "problema cíclico".

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