O telefone especial
O meu amigo Salvador tem uma actividade como Consultor em novas tecnologias, actividade essa que exerce nas instalações do sobrinho.
Este, que sai por volta das 18h, cede-lhas com muito prazer a partir do fim da tarde.
- Olha lá, tu não és do Porto?
Eu já estou habituado a estas perguntas com que o Salvador de vez em quando me desperta de manhã.
Mas o certo é que, no seguimento de perguntas aparentemente sem jeito vêm, muitas vezes, biscates interessantes que lá me vão rendendo algum dinheiro.
Mas, afinal, porque é que ele quereria saber se eu era do Porto, estando farto de saber que sim?! E, para cúmulo, desligou o telefone, depois de um «Bem me parecia» que me desorientou.
Bem, depois foi o habitual: já não consegui voltar a adormecer, telefonei-lhe para casa mas ninguém atendeu, e em seguida para o telemóvel de onde me respondeu o atendedor de chamadas...
Saltei da cama, furioso. Liguei-me à Internet e enviei-lhe um e-mail, sem me preocupar em disfarçar a irritação.
Ora, quando aproveitei a ligação para ver se havia correio, já lá estava a resposta!
O maroto sabia de antemão os passos que eu iria dar para o localizar!
Mas a resposta também era lacónica: «Grande negócio com teu conterrâneo. 17 h leitaria do costume».
Pois o grande pirata nem sequer se mostrou admirado quando me viu aparecer!
- Desembucha! - resmunguei, sentando-me.
Não se fez rogado. Mas, afinal, queria só desabafar, para o que contava comigo apenas para o papel de ouvinte!
- Há dias apareceu-me no escritório um cavalheiro do Norte a pedir-me conselhos tecnológicos. O homem até é teu conterrâneo, anda difícil de aturar, e falta-me a sensibilidade necessária para abordar certos aspectos...
Referia-se, possivelmente, a quaisquer peripécias do futebol. Mas nesse aspecto não podia contar comigo, pois - felizmente! - não sou maluco da bola.
De qualquer forma, o que é que isso teria a ver com as novas tecnologias?!
- Não me digas que vens com a piada de que o software de reconhecimento vocal tem problemas com quem troca os B pelos V... - adiantei eu.
- Nada disso. Aliás, esse problema foi superado desde que se descobriu que nos teclados essas letras estão ao lado uma da outra, o que desculpa as confusões. O problema mete telecomunicações que, como sabes, não é a minha especialidade.
E passou a explicar que o tal cliente quisera modernizar o seu negócio, pelo que ele, Salvador, fizera os possíveis para o convencer a usar as novas tecnologias.
Mas o homem era extremamente conservador e o mais que estava disposto a aceitar era um telefone com dez memórias.
- E foi a propósito de telefones que eu, para o despachar - continuou o Salvador - lhe sugeri que tentasse arranjar um com um número fácil de decorar.
- Parece uma boa ideia - comentei - E ele conseguiu?
- Ainda não sei. Como já viste, o meu carro está para venda...
O que é que uma coisa teria a ver com a outra?!
Mas o mistério durou pouco.
O cliente, ao sair do escritório, deparara, por coincidência, com o carro dele onde um enorme letreiro informava: «Vende-se Telefone Nº ...».
- Ora, como sabes, o meu número de telefone é uma capicua, e o homem, encantado, convenceu-se de que o que estava à venda era o telefone e não o carro!
Dei uma gargalhada. Veio depois o resto da história:
- Pois o desgraçado ficou ali até eu aparecer, e imagina a nossa cara quando o mal-entendido se esclareceu!
- Podes não ter vendido o carro, mas ficaste com uma história divertida para contar. - comentei, rindo também.
- Mas ainda não acabou. Eu sugeri-lhe então que contactasse a Telecom para ver se lhe arranjavam um número fácil de decorar. E ele, então, escreveu para lá dispondo-se a pagar o que fosse preciso para obter um número que sabia estar vago: o 22 2222222.
E tão confiante estava de que o seu pedido ia ser atendido que já ia avisando as pessoas:
- O meu número vai ser facílimo de fixar, nem precisa de o escrever. Não esquece: nove dois!
Mas havia um pequeno inconveniente: é que, com frequência, as pessoas ficavam a olhar para ele, talvez pensando que se tratava de algum novo operador de telemóveis.
E perguntavam, expectantes:
- Sim, sim... 92... e o resto?
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