Salvador, o Consultor


Correio Expresso - I

     - Passa pelo escritório logo à tarde que não te vais arrepender!
     Não adiantava tentar saber mais nada. A solução era esperar pelas 18h 30m e aparecer no escritório do sobrinho do Salvador.
     Mas o trânsito estava mau e, quando lá cheguei, já o nosso amigo estava a atender um cliente.
     - É o tal Dr. Diospiro - informou-me a D. Rosa, baixinho, abrindo-me a porta.
     De facto, através da parede envidraçada, o Salvador sorria e fazia-me sinais para entrar sem cerimónias. Foi um prazer rever, também, aquele patusco Doutor! Cumprimentei-o efusivamente mas, de tal forma eu me atrasara, que o cavalheiro já estava de saída. Levava debaixo de braço o que me pareceu ser um computador portátil e em breve se despedia, parecendo muito feliz.
     O resto da história, que vim a saber pouco depois, era requintada:
     Pelos vistos, o Dr. Diospiro, confrontado com a avassaladora emergência das "novas tecnologias", não ia poder continuar a fugir delas. A solução era aprender qualquer coisa, pelo menos o mínimo...
     O Grande Consultor tivera em conta que ele se iria defrontar com algumas dificuldades simples, tais como enviar e receber e-mails, e preparara um método pedagógico apurado a que chamara "Informática sem dor". Aplicado ao Dr. Diospiro, consistia no seguinte:
     O homem iria começar a receber e-mails artificiais aos quais deveria responder. Não haveria quaisquer constrangimentos, receberia tão só mensagens automáticas preparadas pelo Salvador!
     Pois o Grande Génio preparara, «usando em alto grau a inteligência artificial», um programa de computador que iria gerar e-mails automáticos para o Dr. Diospiro se treinar. E este, embora sabendo perfeitamente que se tratava de uma simulação, iria responder!
     Começava por receber um e-mail: «Olá, como tem passado?».
     Responderia qualquer coisa, e a seguir receberia outra mensagem do tipo «Tem visto o Big-Brother?» ou outra parvoíce qualquer.
     - Vais ver que o homem vai interiorizar a coisa, e ao fim de meia-dúzia de mensagens vai ter a sensação de que está a escrever e-mails a sério para pessoas reais. Perde o medo, e pronto!
     Pedi então para dar uma vista de olhos ao programa que ele tinha preparado. E havia ali um pormenor com o qual eu não podia concordar: mesmo no fim, quando era suposto o aluno já estar convencido de que estava a falar com um interlocutor a sério, levava com a mensagem:
     «Então? Gostou da simulaçãozinha?»

***

DESTAQUE

Foi um prazer, para mim, rever aquele patusco Doutor Diospiro!

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