Salvador, o Consultor


Educação esmerada - II

     Se há coisa que verdadeiramente me comove é o espírito paternal do Salvador.
     Por exemplo: embora tenha sido um verdadeiro desastre a experiência tecnológica em que ele se meteu (para pôr a Rosarinho a tocar piano sem inibições), isso não quer dizer nada: o nosso amigo continua a esforçar-se o mais que pode para que a filha atinja a idade adulta bem preparada em tudo o que possa ter a ver com estudos e não só!
     Um dia destes fui dar com ele, na leitaria da D. Deolinda, com um lápis e um papel. Coçava a ponta do nariz com o bico enquanto lia:
     - Ginástica... skate... bicicleta... canto lírico... piano... xadrez... karaté... educação sexual...
     E, depois, fazia pequenos "V" em frente de cada palavra. O Salvador confirmava se a educação extra-escolar da filha estava completa!
     - Já agora não te esqueças do espanhol... - Comentei eu, rindo - Os queridos vizinhos estão a tomar conta do nosso país todo, e convém ir aprendendo a língua deles...
     Mas o Salvador nem me ouviu.
     - Não pode ser! - Gritou, subitamente - Faltou a natação!
     
     E, deixando-me a falar sozinho, saiu porta-fora sem mesmo se despedir nem pagar a conta! Evidentemente que descobrira uma grave falha na educação da jovem e ia tratar de a suprir de imediato!
     Ora aconteceu que, num dos dias seguintes, eu tive de ir para fora, em serviço, para um longínquo país africano. E, durante algum tempo, fiquei sem notícias do nosso amigo pois onde eu estava a Internet ainda era desconhecida.
     Porém, um belo dia, quando eu menos esperava, recebi uma mensagem escrita no meu telemóvel. Do Salvador, evidentemente.
     Dizia:
     «ora ainda bem que agora temos este servico maravilhoso de mensagens curtas! nao ha duvida que se trata de um grande progresso! assim, ja te posso informar, com o maior prazer, que a rosarinho ja»
     E acabava assim, a meio de uma frase, deixando de fora a informação mais importante por causa da porcaria da limitação dos 160 caracteres!
     Não descansei, portanto, até que lhe telefonei para saber o resto.
     Ele, rindo-se muito, comentou:
     - Era para te dar uma novidade importante relacionada com a educação da minha filha, mas também aproveitei para ver como andava a tua inteligência! Só que, pelo que estou a ver, estás a desiludir-me!
     Depois de eu muito insistir, lá condescendeu em explicar-me que o facto de a frase acabar assim pretendia dizer, precisamente:
     «...a Rosarinho já... NADA»



DESTAQUES possíveis:

Se há coisa que verdadeiramente me comove é o espírito paternal do Salvador!
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Se há coisa comovente, é o espírito paternal do Salvador!
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O Salvador coçava o nariz com a ponta do lápis enquanto ia lendo...

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