Salvador, o Consultor


Educação esmerada - I

     Ao ler a "Valor" do dia 18 de Janeiro (onde se refere que as criancinhas, hoje em dia, têm tudo o que querem) dei por mim a pensar como o Salvador tem tentado ser um pai exemplar!
     Talvez estejam recordados do aparelhómetro que ele inventou para ajudar a filha a vencer a timidez (que a iria prejudicar no recital de piano que teria de dar): a experiência, por ser realista demais, não correu bem e a Rosarinho recusou-se a usar a geringonça. Mas o Salvador, não querendo deitar a perder todo o trabalho que tinha tido, reconverteu o aparelho para uma outra função com os resultados que hoje veremos.
     Mas, antes do mais, vai ser preciso recuar um pouco no tempo:
     Para aqueles que, como nós, foram educados muito antes do 25 de Abril, levar duas palmadas de vez em quando (passe o eufemismo), não era nada de especial. E parece até que toda a gente se coligava para esse fim: professores, pais, irmãos mais velhos... era uma festa! Todos estavam (ou se sentiam) autorizados a cumprir a tradição de "chegar a roupa ao pelo" dos "educandos".
     Estes, por sua vez, apenas tinham de esperar até chegar a oportunidade de darem seguimento à tradição, fazendo oportunamente aos mais novos o mesmo que lhes tinham feito a eles. E o mundo ia correndo, parecendo estar tudo muito bem assim.
     Só que os tempos mudaram e, logo por azar, eu e o Salvador vimo-nos perante o estranho facto de não podermos descarregar na juventude actual as lambadas que tínhamos armazenado à espera de as podermos passar à geração seguinte!
     Ora, um dia destes, a D. Adélia (a mulher do nosso amigo) chamou-me, em pânico. É que o Salvador arranjara maneira de, através da tal realidade virtual, simular o filho que nunca tivera! E agora ali estava ele, no escritório, e ligado ao computador com cabos de 2 metros, a esbracejar, espancando alguém que só ele via:
     - Já não há respeito pelo teu pai, é?! - Bramava - Ora toma, que é para aprenderes!
     Pimba! Pimba! E lá se seguia uma e mais outra "lamparina" no espaço, num qualquer avatar com forma de adolescente, tendo eu e a D. Adélia de nos desviar para não sermos contemplados!
     - Compreendo-o bem, minha senhora. Deixe-o dar largas à frustração... - Aconselhei-a eu, baixinho.
     E, sempre olhando para trás, puxei-a rapidamente para fora do escritório, continuando a tentar tranquilizá-la.
     - Tudo bem - Respondeu a boa senhora já na sala de estar - Segundo percebi, enquanto os fios só tiverem aquele comprimento, eu, a Rosarinho e os jarrões podemos estar sossegados.
     Não entrei em pormenores técnicos. Nem a senhora precisava de saber que o Salvador andava, ultimamente, a falar de ligações por rádio.

***

DESTAQUES:

Pensando bem, não há dúvida que o Salvador tem sido um pai exemplar!

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