Salvador, o Consultor


Vejam só!

Salvador tem uma actividade como Consultor em novas tecnologias, que exerce nas instalações do sobrinho. Este, que sai por volta das 18h, cede-lhas com muito prazer a partir do fim da tarde.

     Há tempos encontrei o Salvador junto ao escritório e, a seu pedido, fiquei a esperá-lo à porta enquanto ele, como de costume, subia até ao primeiro andar para mudar de visual.
     Dentro de minutos ali estava ele, de fatinho à moda e ostentando a sua incrível gravata com os @ bordados. E lá fomos até à leitaria para fazer horas.
     - Ainda bem que apareceste. Tenho hoje um cliente que tem um problema grave para resolver.
Mas, na altura, não adiantou mais pormenores.
     E foi assim que, chegados ao escritório, esperámos pacientemente.
     Atentas como sempre, mal as senhoras da limpeza ouviram passos nas escadas, largaram tudo e sentaram-se, cada uma no "seu" computador.
     Eu mesmo fui receber o cliente. E, como o Salvador me apresentou como seu Assessor Técnico, puxei do meu porta-chaves que tem uma máquina de calcular incorporada.
     - Não sei como explicar o problema... - começou o cavalheiro, depois de se ter sentado confortavelmente.
     O homem em questão, o Sr. Vibrolino, apresentou-se então como dono de uma empresa que lidava com dados informáticos altamente sigilosos.
     E, como estava preocupado com a segurança, recorria aos serviços do Grande Consultor.
     - O meu pessoal é pouco cuidadoso... Se usam passwords simples, qualquer pessoa as descobre. Quando mando usar outras mais complicadas, metem-nas em papelinhos bem à vista para não se esquecerem... Terá de me arranjar outra solução! Não se preocupe com os custos!
     Para quem, durante muito tempo, pensara que password queria dizer "passa-palavra", a última frase soou como música!
     No seguimento dessa entrevista, que pouco mais tempo durou, desencantámos uma empresa que vendia "reconhecedores" de impressões digitais: o utilizador apenas tem de tocar com um dedo num detector especial que compara o desenho das volutas da pele com as que anteriormente foram guardadas em memória.
     Fomos até ao escritório do Sr. Vibrolino e, num fim-de-semana, montámos tudo.
     Mas isso aconteceu em pleno Inverno, e não tivemos em conta os empregados que não queriam tirar as luvas...
     Desiludido, o Sr. Vibrolino apelou para que arranjássemos uma qualquer outra forma de protecção.
     Ora eu tinha lido muito acerca da técnica que identifica as íris dos olhos. E foi assim que sugerimos essa solução, que foi aceite de braços abertos.
     Portanto, no fim-de-semana seguinte, montámos tudo.
     Infalível!
     O utente, primeiro, tem de ter a sua íris fotografada e metida na memória da maquineta. Depois basta olhar para a objectiva existente por cima do monitor que aquilo funciona como um autêntico «Abre-te Sésamo!».
     Estava tudo a correr bem e a factura a ser preparada, quando apareceu o Sr. Vibrolino ao telefone. O Salvador activou o altifalante e eu, que por acaso estava presente, pude ouvir:
     - Eu acho que a técnica é que tem de se adaptar ao Ser Humano!
     Mas o certo é que, por estar muito nervoso, o homem não se conseguia explicar e a conversa não saía daquilo. Resolvemos então ir até lá para ver o que se estaria a passar.
     Chegados à empresa do cavalheiro, veio ele mesmo abrir-nos a porta e, não disfarçando a sua apreensão, foi adiantando:
     - O assunto é delicado mas podemos falar à vontade, pois já cá não está ninguém.
     E, sem dizer mais, levou-nos até dois computadores que estavam ao lado um do outro.
     - Este é o da D. Mísula e este aqui é da D. Fórmica. Por motivos de segurança trabalham juntas, como se vê, e não as posso separar.
     E prosseguiu:
     - Quando uma chega primeiro, tudo bem: o computador respectivo arranca, e quando vem a outra também não há problemas. O pior é quando ambas chegam ao mesmo tempo - o que é frequente, pois partilham o carro.
     Pareceu escolher cuidadosamente as palavras, um pouco embaraçado pela delicadeza do assunto, e desembuchou:
     - Bem... Nesses dias o computador da D. Fórmica arranca, mas o da outra bloqueia e dá uma mensagem de «Acesso interdito». Sabem... a culpa se calhar foi minha, que não vos disse tudo. É que a D. Fórmica é estrábica...

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