Salvador, o Consultor


Assistência... Técnica - II

     - Lembras-te de quando eu andei de roda de música clássica?
     Foi com esta pergunta que eu, hoje, às 7h da manhã, fui apanhado no telemóvel, quando ainda estava no banho.
     Mas eu já não estava estremunhado, pelo que a minha lucidez foi suficiente para saber que o Salvador não andara nada de roda de música erudita, mas sim em busca de música dos anos 60, o que, pensando bem, já se pode incluir na classificação de clássica.
     - Estou a desenvolver um protótipo espantoso - prosseguiu, imparável. - Trata-se de um produto para uso caseiro, mas, com um pouco de sorte e a tua ajuda, acho que pode vir a ter um grande sucesso comercial!
     E nada mais disse pelo que, pouco depois (e ele já sabia que ia ser assim...), lá estava eu a bater à porta da sua casa...
     Foi a D. Adélia, a esposa, quem me veio receber, muito feliz e sorridente, e levou-me logo para a sala de visitas onde fui dar com o Salvador a trabalhar febrilmente no seu computador pessoal.
     Mas havia várias coisas espantosas:
     A primeira de todas era a assistência! Sim, porque havia uma boa dúzia de cadeiras, todas alinhadas e ocupadas por pessoas que eu nunca vira: familiares, vizinhos e amigos, como vim depois a saber. Num palco improvisado, estava o Salvador, com uns estranhos óculos e uns auscultadores que segurava com fita adesiva!
     Ah! E uma série de cabos ligavam aquela tralha toda a um velho piano desafinado onde a Rosarinho costumava martelar algumas músicas para mal dos meus ouvidos.
     - Pronto, já está! - declarou ele, batendo palmas. Vamos dar início à audição!
     Depois, tirou os óculos e os auscultadores, levantou-se, e deu-os à filha que, embora com manifesta dificuldade, lá colocou aquilo tudo o melhor que pode.
     - Realidade virtual - explicou-me ele, baixinho. - A Rosarinho anda no Conservatório, vai dar o seu primeiro concerto na semana que vem, mas tem um medo terrível do público. Por isso, eu arranjei um programa que simula a sala e os espectadores...
     A jovem começou, então, a tocar uma música (que era suposto ser de Mozart), enquanto olhava, para um lado e para o outro, apreciando o público que, em perfeita realidade virtual, só ela enxergava!
     Mas, inesperadamente, largou tudo, levantou-se, e saiu, furiosa, batendo com a porta e insultando em voz alta as novas tecnologias!
     Quando percebi o que se passava, vim-me embora, discretamente.
     De facto, a tal ponto o Salvador se esmerara na simulação, que a Rosarinho pudera apreciar metade da plateia a bocejar e a outra metade a abandonar a sala!

***

DESTAQUE

O Salvador desenvolveu mais um estranho e misterioso protótipo!

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