Salvador, o Consultor


Chinesices - I

     Quando, há dias, liguei para casa do Salvador para saber se ele ia precisar da minha ajuda, fui surpreendido por uma estranha resposta:
     - Chim, chim!
     Estaria ele a querer imitar alguém que falasse "axim"?! Se fosse isso, ele teria dito "Aparexe" em vez de "Aparece", como acabou por pronunciar!
     Perante a minha incompreensão, preferiu deixar-me na ignorância (que é o seu truque para garantir a minha comparência no escritório).
     Lá fui, mas esperava-me uma surpresa: Ele preparava-se para sair!
     - Anda daí, que eu explico-te pelo caminho.
     A viagem não foi longa. A princípio, pensei que fôssemos até à leitaria da D. Deolinda (onde ele atende os seus clientes de menor status) mas vim a saber que o nosso destino era a mercearia do Sr. Joaquim, mesmo ao lado.
     À porta, lá estava a mais famosa tabuleta do bairro: "O rei da batata, onde a @ é mais barata!". Entrámos, cumprimentámos o dono que nos fez uma grande festa, e, sem perder mais tempo, o Salvador colocou o seu portátil em cima de um barril de vinho e o telemóvel sobre um saco de bacalhau.
     Ligou-se à Internet, acedeu a um site que já tinha nos "Favoritos", e chamou-nos:
     - Devia estar aqui a solução para o problema, mas não encontro nada. Preciso de mais esclarecimentos que só o Sr. Joaquim me pode dar. Por isso é que viemos cá pessoalmente.
     Espreitei e limitei-me a ficar de boca aberta:
     Um dicionário português-chinês!
     O merceeiro aproximou-se, e percebi que já há algum tempo eles falavam sobre o assunto e que nada daquilo era novo para ele.
     Afastei-me, e deixei os dois embrenhados no ciberespaço e nos mistérios do mandarim e do cantonês. Até que, a certa altura, o Sr. Joaquim exclamou:
     - Ali vem ela! Vamos resolver o problema de uma vez por todas!
     Para meu máximo espanto vi aproximar-se (e depois entrar na loja) uma velhinha chinesa que, pelo que vim a saber, residia no prédio recentemente. Com alguma dificuldade, expressando-se num português dificilmente compreensível, a senhora perguntou se já tínhamos encontrado o que ela queria.
     Responderam-lhe que não. Ela sorriu, abriu a malinha de mão, e tirou de lá um pequeno papel. Depois, com algumas trocas de "R" por "L", lá se explicou:
     - Encontrei o papel que embrulhava o outro que se acabou. Talvez por aqui descubra o que eu quero.
     De facto havia na loja o que ela queria. Mas não era usando a Internet que o Salvador iria alguma vez descobrir o que era um sabonete "com aroma de LI-KA-DO"!



DESTAQUES POSSÍVEIS

Estaria o Salvador a querer imitar alguém que falasse "axim"?!
***
Para meu máximo espanto vi aproximar-se uma velhinha chinesa!

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