Salvador, o Consultor


A Jantarada - I

     Da última vez que visitei o Salvador no "seu" gabinete, vi-o extremamente risonho. Tinha nas mãos uma carta acabada de abrir e, tão deliciado estava com a sua leitura, que quase nem me deu atenção.
     Limitou-se a fazer-me sinal para me sentar, mas sem tirar os olhos do papel. Por fim, pousando-o em cima da mesa, deu uma sonora gargalhada e comentou:
     - Este Dr. Diospiro é mesmo impagável!
     Ah, sim... O incrível cavalheiro, dono de uma fábrica de chinelos, e que em tempos queria comprar software de desenho "1D"!
     Fiquei um pouco confuso, mas o mistério dissipar-se-ia em breve:
     - Como já percebeste, esse patusco é um dos maiores resistentes à Novas Tecnologias que andam a bordo do planeta! Aliás, ele é resistente a tudo o que cheire a Tecnologias... Como podes reparar, esta carta (apesar de se tratar de uma circular enviada a várias pessoas) não foi escrita à máquina nem sequer fotocopiada!
     De facto, pegando nela, fiquei estarrecido! Tratava-se de uma convocatória para o JANTAR ANUAL de uma colectividade (a tal de que o Dr. Diospiro era, pelos vistos, o Presidente) e estava escrita com uma caneta de aparo, possivelmente até uma pena de ganso!
     - Nunca perco estes jantares por nada deste mundo. Ele juntou uma quantidade de tecnófobos como ele, tudo gestores de empresas portuguesas que se opõem à modernização, e fundou uma associação muito interventiva.
     Perguntei, então, ao Salvador porque é que aceitava convites de pessoas cuja actividade era precisamente a oposta àquela que justificava a sua actividade de Consultor. A resposta desarmou-me:
     - Porque são pessoas extremamente divertidas. Olha, no jantar do ano passado, o homem fez um discurso fabuloso. Tenho aqui a cópia, se quiseres ler.
     E passou-me para a mão uma outra folha manuscrita correspondente a uma alocução repleta de elogios à "Velha Tecnologia... Culinária"! Diziam-se maravilhas da cozinheira que preparava os habituais jantares comemorativos da fundação da Sociedade, e terminava com uma divertida frase:
     «Companheiros! Aqui temos uma excepção, uma tecnologia aceitável: a tecnologia da culinária da D. Arminda!» - a D. Arminda, como se percebe, era a cozinheira. E prosseguia:
     «Saberemos manter a chama da luta contra as NOVAS TECNOLOGIAS (que tanto mal têm provocado no mundo), pois, quanto às NOVAS, a única coisa que podemos aceitar são as OVAS, que por sinal a D. Arminda cozinha como ninguém!».



DESTAQUES POSSIVEIS

A convocatória estava escrita com uma caneta de aparo...
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Eram tudo gestores de empresas que se opunham à modernização...
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Numa folha manuscrita, uma alocução repleta de elogios à "Velha Tecnologia... Culinária"!

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