Salvador, o Consultor


As Escadinhas Marotas

     Em tempos falei-vos do súbito interesse do Salvador em comercializar programas de desenho. E referi, até, que isso tinha nascido - a acreditar nas suas palavras - por associação de ideias com o seu novo CAD...illac!
     - Olha lá, e CAD não terá a mesma origem que a palavra "esCADa"? - atirou-me ele, inesperadamente, quando um dia destes o visitei no escritório.
     Não percebi a pergunta. Tomei-a como sendo uma gracinha, pelo que achei por bem rir-me. Mas o certo é que ele estava ar de grande sofrimento, e gemia como se tivesse dores! Era urgente, portanto, averiguar o que se passava, mas não foi preciso perguntar, pois ele mesmo se encarregou da explicação:
     - O Dr. Diospiro, a quem eu vendi em tempos um software de desenho para a sua fábrica de chinelos, só me faz perguntas idiotas. Ora, se ele nem sabe o que é um ficheiro, como é que lhe hei-de explicar o que é o anti-aliasing? Mas vou convidá-lo a vir cá e ele vai perceber depressa...
     «Boa!» - pensei eu, mesmo sem atingir o alcance da frase dele - «Não há nada como ter alunos ignorantes para - ao tentar ensiná-los - se aprender a matéria!»
     E foi assim que tive de ouvir uma prelecção acerca de desenho vectorial e não-vectorial, ficando a saber que, no segundo caso e ao aumentar uma figura, começam a aparecer irritantes escadinhas no desenho. E o método para disfarçar isso parece que se chama anti-aliasing.
     Fez-se luz no meu espírito: desenho... escadas... CAD!
     Mas o Salvador estava sorumbático. Fez-se um silêncio pesado e, vendo eu que não havia muito mais para dizer, comecei a pensar em despedir-me e vir-me embora. Só que, nessa altura, ele explodiu:
     - Olha, eu quero é que vá para o raio que o parta quem inventou o anti-aliasing!
     Não percebi o motivo de tão despropositada fúria! Mas ele explicou-se:
     Dias antes (como é que eu não reparara?!) tinham andado a fazer obras na escada. E uma parte dos degraus fora coberta com cimento, criando, assim, uma rampa para permitir a passagem de cadeiras de rodas.
     «Isso até já devia ter sido feito logo na construção do prédio» - pensei eu. Nesse momento, percebi a graça: alguém tinha feito o anti-aliasing da escadaria!
     E a D. Rosa (a tal minha amiga que quisera ser admitida como assessora de imprensa e acabara como responsável pela limpeza) decidira, na véspera, lavar e encerar a nova rampa!
     Até aí, tudo bem, e prometi que, quando descesse, iria ver isso. Só que, depois de mais alguns estranhos impropérios contra o anti-aliasing, o Salvador rematou:
     - Olha, quando saíres tem cuidado com a cera. Mas antes de te ires embora, chega-me aí as muletas, se fazes o favor.

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