Salvador, o Consultor


Os bits do byte

Salvador Matatias, Consultor em novas tecnologias, serve-se das instalações do sobrinho, que lhas cede a partir das 18h 30m de segunda a sexta...

     «Preciso que passes por cá hoje, sem falta, antes das 19h» - Foi com esta mensagem de correio electrónico que me deparei esta manhã.
     Mais uma vez o Salvador pedia a minha ajuda!
     Assim, à hora indicada, lá apareci no "seu" escritório. Mas estava irreconhecível: cotovelos na secretária, face nas palmas das mãos... E até me pareceu que chorava!
     Mas, afinal, apenas dormitava - como explicou a D. Marília, que se propôs despertá-lo ligando o aspirador mesmo ao pé dele.
     E, assim, foi um homem estremunhado que, recompondo-se, me desfechou:
     - Esta noite não dormi por causa da porcaria de um bit!
     Claro que, perante tão estranha declaração, eu quis saber do que se tratava.
     Depois de se certificar de que ainda tínhamos algum tempo antes de aparecer o cliente esperado, saiu-se com esta:
     - Olha lá, quantos bits tem um byte?
     Fiquei baralhado, pois acho que um byte tem oito bits. E foi o que lhe disse.
     Mas se o Salvador me fazia uma pergunta dessas era porque havia qualquer mistério!
     Por isso quando ele me retorquiu «Tens a certeza?» fiquei sem saber o que lhe responder.
     - O melhor é vermos isso na Internet...- sugeri.
     Prontamente chegou-se para trás - a cadeira até tem rodinhas - e deixou-me ser eu a tratar disso.
     Mas, na altura exacta em que eu me preparava para lançar o meu pesquisador favorito, notei um grande reboliço:
     A D. Marília alertara as colegas de que vinha alguém a subir as escadas o que, àquela hora, era sinal de que cada uma se devia sentar frente ao "seu" computador (desligado) e fazer o habitual ar de trabalho.
     O facto é que mal houve tempo para arrumar o aspirador e as vassouras, pois o tal cliente subira as escadas à pressa e em menos de nada estava a bater-nos à porta.
     Mas nós estávamos autênticos especialistas em enfrentar situações melindrosas e que careciam de decisões rápidas.
     Assim, e afivelando o meu mais cordial sorriso, abri a porta ao cavalheiro e ajudei-o a tirar o sobretudo, o que fiz com o maior vagar possível pensando que tal pudesse ser proveitoso para a recuperação do Salvador.
     O homem estava nervoso e nem me cumprimentou. Dirigindo-se para o cubículo do nosso amigo, desfechou:
     - Então os bits? São sete ou oito?!
     O Salvador levantou-se e sorriu:
     - Tenha calma, Sr. Marquês! Já tenho o meu staff a tratar do problema!
     Boa! Tínhamos então ali um nobre! E, antes que o outro dissesse mais alguma coisa, perguntou, quase servil:
     - O Sr. Marquês aceitaria um cafezinho?
     «Boa!» - Pensei eu «Nada melhor do que isso para ganhar tempo! Mas... e a máquina do café?!»
     Perante a aceitação do cavalheiro, o Salvador retorquiu:
     - Então o meu assessor acompanha-o lá abaixo à leitaria, que a máquina do café que aqui temos está para reparar.
     E lá fomos os dois a caminho da Primorosa das Avenidas.
     - Não se preocupe em me tratar por Marquês. Sou nobre, mas democrata. Ora veja: não tenho pruridos por estarmos sentados à mesma mesa, nem me ofenderei quando me pagar a conta.
     «Boa!» - matutei - «O Salvador arranjou mais um cliente pelintra...» Mas procurei esquecer esse pormenor e tentei aproveitar a intimidade que o cavalheiro me oferecia para saber o que o apoquentava.
     Ele, então, tirando um telemóvel do bolso do colete, mostrou-me uma mensagem escrita que recebera.
     Não notei nada de especial. Mas ele esclareceu:
     - Dantes, 7 bits chegavam para escrever tudo, pois davam 128 combinações.
     «Ah! Cá temos, então, o drama dos bits» - pensei eu.
     E prosseguiu:
     - Mas, para serem possíveis as cedilhas e os acentos, o código ASCII passou a usar 8 bits, que já dá para 256 caracteres.
     Ó diabo! Se o homem até sabia o que era o código ASCII, o Salvador estava tramado!
     O cavalheiro, certificando-se de que ninguém o estava a ouvir, aproximou-se muito de mim e explicou, em grande segredo, o problema:
     - Pois este telemóvel deve receber as mensagens em 7 bits. Isso, só por si, não seria grave. O problema é que, apesar de eu ser um democrata, se há coisa com que embirro solenemente é que me tratem por Sr. Marques!

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