Salvador, o Consultor


Pede Meia

Salvador continua a vender conselhos, sugestões e palpites.
Mas não esqueçamos que "em casa de ferreiro"...

     Já vou estando habituado a que o Salvador me chame quando precisa de ajuda para alguma coisa, tal como receber um cliente mais exigente ou desembrulhar um problema mais bicudo.
     Mas não sei o que pensei quando, um dia destes, recebi um telefonema seu dando-me a entender que se debatia com um problema de um caso bastante grave... Para meu grande espanto, ainda por cima, chorava, fungava e soluçava! E, como a chamada era feita de um telemóvel e os gemidos tornavam demorada - e portanto cara - a explicação, pediu-me para me encontrar com ele no local do costume.
     E, deveras preocupado, dirigi-me para o escritório do sobrinho dele que, de segunda a sexta, o Salvador transforma em seu a partir das 18h 30m.
     Fui encontrá-lo com os cotovelos apoiados na secretária e a cara escondida entre a concha das mãos! Soluçava, baixinho, e o pessoal da limpeza, sem saber o que fazer, entreolhava-se perplexo mas sem ousar intervir.
     Ele nem deu pela minha chegada e até se assustou quando lhe afinfei com uma sonora palmada nas costas:
     - Desabafa, homem! O que é que te aflige? Algum problema comercial? Alguma dívida? Tudo isso, entre nós, tem solução!
     E foi assim que, em surdina, ele me confidenciou o que tanto o apoquentava:
     Nessa manhã a D. Adélia, a mulher dele, descobrira, por debaixo da cama, uma bolinha preta feita com duas meias de senhora, daquelas de ligas, bastante démodées mas de comprovado erotismo. O problema era que nem ela nem a Rosarinho, a filha, usavam disso!
     - Estou inocente! - declarou-me ele, agarrando-me firmemente nos ombros e fitando-me nos olhos. - DESTA VEZ estou inocente! E LOGO HOJE, que faço 25 anos de casado, é que o meu matrimónio está em risco!
     Acompanhou a frase com mais umas tantas fungadelas e resmungando imprecações (que foi buscar a um léxico do seu tempo de marinheiro e que até eu desconhecia) e, metendo a mão ao bolso, tirou o "objecto do crime" que desenrolou e estendeu em cima da secretária.
     Depois, com um brilhozinho de esperança nos olhos, perguntou-me:
     - Achas que eu, com a ajuda das novas tecnologias, me posso safar desta?!
     - Quem sabe? Não custa nada tentarmos... As novas tecnologias resolvem tanta coisa!...- respondi eu, apenas para ganhar tempo, pois, no fundo, não estava nada convencido.
     E, pedindo-lhe que se afastasse, sentei-me "aos comandos do computador" já vivo, liguei-me à Internet, e comecei a fazer pesquisas sobre o assunto.
     O Salvador, habituado como estava a que eu lhe resolvesse os problemas mais difíceis, suspendera as lamúrias e acompanhava agora, com grande ansiedade, as minhas diligências cibernáuticas. E não me poupei a esforços:
     Pus ao nosso serviço todos os pesquisadores e mais algum, e desde "meias pretas" até "crises matrimoniais" (em português, francês e inglês) posso garantir que corri tudo!
     Claro que as condições booleanas do and, do not, e outras ajudas semelhantes também foram convocadas mas sem resultados visíveis.
     Passeámos em seguida pelos chats, pelos grupos de discussão, pelas páginas de fanáticos de lingerie e de conselheiros matrimoniais... mas nada!
     Ou melhor: nada que, em tempo útil, nos pudesse ajudar, pois mesmo os cibernautas que, fraternalmente, se propuseram dar uma mãozinha se limitaram a dizer que iam estudar o problema. E, decerto após uma gargalhada que não felizmente não ouvimos, foram fazer alguma coisa mais interessante do que trocar ideias com dois idiotas.
     E foi nessa altura, precisamente, que entrou a D. Rosa, a simpática e prestável senhora de quem vos falei há algum tempo e que tentara ser admitida como assessora de imprensa.
     Acabara por ficar apenas - e já não fora pouco - como Responsável da Higiene e, ultimamente, também ia uma vez por semana a casa do Salvador fazer a limpeza.
     Ao cumprimentar-nos olhou, incrédula, para o par de meias que o nosso amigo não teve tempo de esconder. E, quando julgávamos que ela ia fazer algum comentário malicioso, limitou-se a exclamar:
     - Olha as minhas meias, que eu tanto procurei! Como é que apareceram aqui?!
     Afinal fora tudo muito simples. A boa senhora, antes de começar a trabalhar, mudava sempre de roupa. E fora isso o que acontecera, na véspera, em casa do nosso amigo.
     Fizera uma bolinha com as meias («É uma mania que tenho desde miúda...») e o Berimbau, o gato, fizera o resto!
     Então, e depois de o Salvador lhe ter explicado o imbróglio em que estava metido, deu uma gargalhada e, sem pedir autorização, pegou no telefone, ligou para casa dele, e, sem papas na língua, explicou à angustiada esposa o que se passara.
     - Olhe, D. Adélia, e trate bem o seu marido, que ele é um santo! - rematou, passando o telefone ao Salvador, e fazendo com as meias a tal bolinha que em seguida guardou na mala.
     Por fim, quando o nosso amigo, abraçando-a, com lágrimas nos olhos, lhe agradeceu, ela comentou:
     - O senhor pode perceber muito de "novas tecnologias", mas do que vai precisar, esta noite, é das "velhas tecnologias". Compre um ramo de flores à sua mulher, leve-a a jantar a um sítio bonito, bem... e o resto é lá convosco.
     E ele, chorando de alegria, interrompeu-a:
     - Está bem, vou levá-la a jantar a um restaurante caro. Mas, quando vier a conta, pagamos... A MEIAS!!


NOTA EXPLICATIVA:
Por motivos de espaço, na edição em papel da "Valor" as histórias do Salvador tiveram de ser encurtadas já a partir do mês de Outubro.
No entanto, como algumas histórias já estavam escritas na versão "longa", a revista aceitou que se divulgassem ambas.

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