Salvador, o Consultor


Uma assessora acessível

     - Olha lá, tu conheces alguém que tenha boas relações com a imprensa? Mas mesmo muito boas, pois, de contrário, não vale a pena incomodares-te.
     Ainda antes de eu ter tempo de perceber a razão da pergunta (ou de lhe colocar alguma questão acerca dela), já ele estava a explicar-se, usando termos desnecessariamente complicados - sinal infalível de que o assunto era muito sério:
     - Quando digo «imprensa», refiro-me a toda a envolvente da componente psico-mediática. Entendes? Quer na pragmática macro-económica, quer na vertente do tecido micro-empresarial em que a minha empresa se insere.
     Para o Salvador, como afinal para tantas outras pessoas, os jornais, as revistas, a televisão, a Internet, o cinema... tudo é imprensa...
     Mas, depois de retiradas as palavras a mais (que ele tanto gosta de usar nesses momentos), e de tudo muito bem explicado, fiquei a perceber:
     O que o nosso amigo procurava era alguém que, estando bem relacionado e se movesse com à-vontade no complexo mundo dos meios de comunicação social, lhe promovesse os méritos e divulgasse os serviços. E, se possível melhorando-lhe a imagem, lhe trouxesse também novos clientes de alto nível abrindo-lhe (ou arrombando-lhe!) portas que o conduzissem a farfalhudos contratos de consultoria.
     - Sinto-me como peixe na água junto da Fine-Flower do High-Life - desabafa ele agora, com frequência.
     E foi assim que dei por mim a ajudá-lo a redigir um anúncio a publicar na Internet e em alguns jornais de grande tiragem.
     Não se passaram 24 horas sem que tivéssemos recebido uma montanha de respostas, por todos os meios possíveis. Mas houve uma que veio por telegrama e que nos chamou particularmente a atenção, quer pelo seu teor quer pelo meio utilizado. Rezava assim:

«CARO SR stop MEU NOME E ROSA stop COM ACTUAL GOVERNO
ISSO ABRE ALGUMAS PORTAS stop TELEF DIRECT IMPR ...»

     E seguia-se o número telefónico do contacto (que aqui, logicamente, não pode ser referido).
     Eu e o Salvador ficámos impressionados com o teor do texto da senhora. Mas o que mais nos atiçou a imaginação foi tentar saber em que empresa ela trabalhava.
     «IMPR»?! Claro, devia ser algo relacionado com IMPRensa... E, ainda por cima, «DIRECTora»!! Onde é que haveria verba para pagar a uma «truta» dessas?!
     Mas a solução passava, evidentemente, por chamar a senhora, o que o nosso amigo tratou de fazer de imediato. E foi já no escritório do sobrinho, fora de horas, que eu e o Salvador nos preparámos para proceder à inevitável entrevista.
     Só que eu esperava tudo menos deparar, cara-a-cara, com a minha velha amiga D. Rosa - que tão bem conheço de outras andanças a que me refiro noutros locais!
     No seguimento de um acordo tácito que ela estabeleceu instantaneamente com um piscar-de-olho quando me viu, cumprimentámo-nos como se não nos conhecêssemos de lado nenhum.
     Tive vontade de fugir dali! Mas compreendi: Ela queria ser avaliada (e, se possível, admitida) em função dos seus méritos e experiência, e não devido à velha amizade - e muita cumplicidade, também - que nos unia já de longa data.
     E foi assim que o Salvador, depois de a ter convidado a sentar-se, começou a conversa, evitando dar-lhe o desagradável tom que por vezes têm as entrevistas de candidatura aos empregos.
     Pareceu-me que ele não escondeu devidamente a decepção que sentiu ao deparar-se com uma senhora bonacheirona e com aspecto de avó, de lenço na cabeça e uma malinha preta, de plástico, que segurava no colo com as mãos sobrepostas.
     Ela lá relatou a sua experiência profissional, não omitindo a sua actividade como "Responsável pela Higiene e Limpeza" da Makro-Teknika, mas colocando a tónica na sua brilhante carreira como secretária particular de um tal Januário (famoso empresário da nossa praça que eu conheço muito bem de outras actividades técnico-comerciais...).
     - Não posso dizer que tenha muita experiência em comunicação social - começou ela, quebrando o silêncio que, a certa altura se instalou, já muito depois de o Salvador se ter apercebido de que não estava na presença de ninguém com experiência no ramo (nem, muito menos, de nenhuma Directora).
     E prosseguiu, sorridente e confiante:
     - Mas acho que, com a força de vontade que eu tenho e com a experiência de vida em empresas portuguesas de alto nível - que também tenho -, consigo aprender e fazer tudo o que seja preciso.
     E isso, tanto quanto eu sabia, era bem verdade!
     Então porque é que teria mentido, dizendo que trabalhava numa coisa qualquer de «Imprensa»? e - aparentemente e para cúmulo - dizendo-se «Directora»?!
     Discretamente, sem mostrar qualquer agressividade e evitando, também, exibir o que poderia ser apenas ignorância da sua parte, o Salvador espalmou em cima da mesa o telegrama onde constava a resposta dela e preparou-se para fazer as terríveis perguntas...
     A senhora, ao princípio, não percebeu a questão. Pediu um minuto, abriu a malinha de mão e, depois de muito procurar, tirou uns óculos de ver ao perto que colocou com cuidado.
     Em seguida, pegou no telegrama que ela mesma tinha enviado, virou-o para si, e tentou perceber onde é que estava a dúvida.
     O Salvador, com o indicador da mão direita e com um estranho sorriso nos lábios, apontava-lhe silenciosamente a parte do telegrama para a qual queria ser esclarecido.
     - Ah! - respondeu a boa senhora prontamente -. É que os telegramas são muito caros e isso são abreviaturas. Mas, afinal, se o senhor até percebeu e me telefonou, porque é que me está a perguntar?! Isso são as abreviaturas de TELEFONE DIRECTO DO IMPREGO.


NOTA EXPLICATIVA:
Por motivos de espaço, na edição em papel da "Valor" as histórias do Salvador tiveram de ser encurtadas já a partir do mês de Outubro.
No entanto, como algumas histórias já estavam escritas na versão "longa", a revista aceitou que se divulgassem ambas.

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