Salvador, o Consultor


O segredo da tia rica


Hoje vamos conhecer mais uma interessante pessoa da família do Salvador Matatias...

     - Olha, nos próximos dias não apareças em nenhum dos meus escritórios, que não vou lá estar... - foi com esta frase do Salvador que eu apanhei um dia, logo pela manhã, ao atender o telefone.
     Claro que ele se referia ao escritório que o sobrinho lhe dispensa e à sucursal na leitaria da D. Deolinda (onde recebe os clientes de menor status). Mas, como de costume, não deu para eu fazer comentários nem perguntas. Desligou como se estivesse cheio de pressa, pelo que mais não disse, deixando-me roído de curiosidade.
     O que é que andaria a tramar? Sim, porque ele não estava com ar triste, antes com a voz que normalmente tem quando anda a preparar alguma.
     A solução (e ele bem o sabia!), era ir a casa dele e tentar saber coisas, quanto mais não fosse pela mulher ou pela filha.
     E foi assim que, perante o ar meio enigmático e meio constrangido do nosso amigo, vim a saber um pequeno segredo caseiro que sempre me escondera (não sei porquê):
     Ele tinha um tia podre de rica, que estava a passar uns tempos lá em casa e precisava de alguma atenção. E ele preparava-se - pensei logo eu, maldosamente -, para se insinuar como herdeiro único...
     Afinal, não era nada isso. Mas, em compensação, tratava-se de algo bastante mais complicado e que me viria a dar muito trabalho e pouco (ou nenhum) proveito.
     Ao contrário do que eu pensava, não se tratava de nenhuma velhinha, mas antes uma vigorosa matrona, praticamente da idade do nosso amigo!
     - Por pouco a tia era mais nova do que o sobrinho - . comentou a senhora, cumprimentando-me efusivamente, com toda a simpatia, que fez questão de sublinhar com um aperto de mão esmagador.
     Mas vamos, então, ao assunto que justifica esta crónica:
     Vim a saber, durante o jantar para o qual me fiz convidado, que a simpática senhora era proprietária de uma lindíssima quinta setecentista nos arredores da capital.
     Mas sentia-se muito sozinha desde que recentemente enviuvara, e o nosso amigo tivera a brilhante ideia de lhe propor que a adaptasse para turismo de habitação, não só para resolver o problema da solidão como, também, para prover alguma entrada de dinheiro que seria sempre muito bem-vindo, evidentemente.
     E, como já se percebeu, ele propôs que, enquanto isso não se passasse à prática, a boa senhora fosse viver para casa dele.
     Depois de se informar do que se tratava, ela aderira entusiasticamente à ideia, especialmente assim que o sobrinho a informou (abusivamente, na parte que a mim tocava!) de que nós os dois trataríamos de tudo.
     E, para a procura de clientes, o Salvador tivera uma ideia de génio, começando por estabelecer o seu perfil:
     - Vou transformar aquela quinta no paraíso dos que estão fartos da civilização moderna.
     Releu «A Cidade e as Serras», avisou meio-mundo, colocou publicidade nos jornais e na Internet e em breve recebia algumas respostas de pessoas (mas só das que respondiam aos anúncios dos jornais, o que já era sintomático...)
     - Muitos deles até são, ou já foram, meus clientes -. Esclareceu ele - São pessoas a quem tudo o que é novo provoca náuseas, e começam com nervoso miudinho quando ouvem falar de coisas a que chamam modernices. Estou perante um desafio que está a pedir uma acção técnico-comercial de grande envergadura e vais ter de me ajudar.
     E começou a explicar-me os seus planos.
     Percebi logo que estava em curso mais uma das suas ideias de génio! Se o Salvador não conseguia ganhar dinheiro pondo certas pessoas a conviver com as novas tecnologias, iria ganhar dinheiro pondo-os a conviver com as velhas!
     E foi assim que, durante alguns dias, fomos os dois morar para a quinta (devidamente equipados com toneladas de ferramentas que levámos no seu enorme Cadillac "novo") para procedemos a algumas remodelações que eram absolutamente necessárias para o fim em vista:
     Tudo aquilo que era (ou poderia parecer) moderno foi afastado ou escondido e substituído pelo equivalente. Mas da geração anterior, pelo menos:      O microondas deu lugar a um fogão a lenha; a televisão a cores não desapareceu mas passou a ser a preto e branco; as canetas foram substituídas por penas de pato; os relógios foram metidos na arrecadação e no seu lugar foram postas clepsidras e ampulhetas...
     E assim por diante indo até - evidentemente! - ao computador onde a D. Fátima fazia a sua contabilidade que sumiu da vista.
     Adiante.
     A quinta transformou-se, como se percebe, num paraíso dos tecnófobos, saudosistas e inforfóbicos, e ainda hoje prospera a olhos-vistos!
     Bem... para ser sincero, a coisa é um pouco mais complicada.
     É que, num quarto dos fundos, instalámos uma secreta sala de comando.
     E é a partir daí, por um sistema computadorizado e em rede (que nos deu um trabalhão dos diabos a instalar), que a D. Fátima comanda aquilo tudo:
     Assim:
     A comida continua a ser feita num microondas dissimulado no fogão a lenha; os relinchos dos cavalos são gravações; a televisão é a mesma de antigamente mas à qual se retirou a cor da imagem; o telefone de manivela activa subrepticiamente um telefone de teclas camuflado...
     E, é claro, há mais uma infinidade de outras coisas em que entram as novas tecnologias, mas devidamente ocultas dos olhos dos hóspedes.
     E penso muitas vezes se esse quarto, mantido em segredo pela D. Maria de Fátima, não virá um dia a ser associado a um eventual quarto... segredo de Fátima.


NOTA EXPLICATIVA:
Por motivos de espaço, na edição em papel da "Valor" as histórias do Salvador tiveram de ser encurtadas já a partir do mês de Outubro.
No entanto, como algumas histórias já estavam escritas na versão "longa", a revista aceitou que se divulgassem ambas.

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