Salvador, o Consultor


Alto nível


O Salvador foi recentemente acusado de ser pouco sofisticado.
Sendo pessoa sensível às críticas não se deixou ficar parado...

     Tenho de reconhecer que o Salvador ainda não esgotou as suas capacidades para me maravilhar e espantar!
     Às vezes até me parece que esse processo ainda está no começo pois, de todas as vezes que o encontro, há sempre qualquer coisa que me faz lamentar o facto de ter andado tanto tempo arredado da sua companhia. Além de estar sempre a aprender qualquer coisa com ele, também tenho ganho algum dinheiro graças à sua ajuda.
     E até já percebi que não é preciso que ele me chame. Quando passo à sua porta, e se isso acontece entre as 18h 30m e as 20h 30m, apenas tenho de verificar se o Cadillac está estacionado ali perto. E, como em geral está, é quase certo que me divirta a ver o responsável pela aplicação das multas dos parquímetros que ainda não conseguiu saber se há-de multar, ou não, os lugares extra que a banheira ocupa.
     À parte esse pormenor saboroso, e como ia dizendo, basta-me subir até ao primeiro piso, pois tenho a certeza antecipada de ser bem recebido e de haver grandes probabilidades de poder vir a ser útil em alguma coisa.
     Mas, como não há regra sem excepção, desta vez não foi isso o que se passou. Ou melhor: não foi "bem isso" o que se passou, pois fui dar com ele, no meio do passeio, a olhar para a tabuleta de alumínio que, em letras douradas e presa com uma ventosa, esclarece a quem possa interessar que está a chegar perto do escritório do Grande Salvador Covas Matatias, Consultor em Novas Tecnologias.
     O estranho é que ele olhava para a placa com aquele ar que fazem os pintores quando se afastam propositadamente da obra de arte que estão a criar para, beneficiando de algum distanciamento ou de uma melhor perspectiva, se aperceberem do efeito que o seu trabalho produzirá sobre quem o há-de observar.
     Apesar de eu o ter interrompido nessa actividade em que estava tão absorto, não se mostrou nada surpreendido ao ver-me aparecer. E, imaginando que eu lhe ia perguntar o que estava a fazer, adiantou-se à minha questão e respondeu:
     - Está-me a parecer que esta etiqueta é "foleira" demais. Não sei porquê, mas acho que não está de acordo com o grau de sofisticação dos meus novos clientes...
     De facto, para quem - como ele - agora atende e aconselha marqueses e industriais do mais requintado Jet-Set (a Fine-Flower do High-Life - como ele diz), talvez fosse necessário fazer qualquer coisa, tendo em conta que uma placa na porta é um verdadeiro cartão de visita e dá logo preciosas informações sobre o gabarito intelectual de quem a concebeu e mandou colocar.
     Tudo bem, ele até tinha alguma razão. Mas, em concreto, iria fazer o quê?! Deixámos esse assunto para mais tarde, eu prometi que também ia pensar nisso maduramente, e subimos para o seu escritório para ver se haveria alguma coisa de mais proveitosa (e, já agora, mais lucrativa!) para fazer.
     Nesse dia, infelizmente, não havia clientes em perspectiva, pelo menos com marcação. Mas não era caso raro aparecer algum inopinadamente, de um momento para o outro. E a experiência já nos tinha mostrado que esses casos eram, muitas vezes, os mais interessantes.
     Nessa ilusão, e para passar o tempo, dedicámo-nos a navegar um pouco na Internet, a ver o nosso correio electrónico (eu, à força de tanto lá ir, já reencaminho o meu e-mail para lá...) e a folhear revistas de novas tecnologias.      Bem, essas revistas são as sobras da semana - ou do mês - que ele rapina na tabacaria da D. Ermelinda. Assim, o mais que os nossos conhecimentos técnicos têm de atraso são o correspondente a alguns dias...
     Mas estas coisas da tecnologia são como as cerejas: umas coisas puxam as outras e, quando demos por nós, estávamos a ver inúmeras expressões que poderiam enriquecer ou melhorar a tal tabuleta da porta! E eu gozava com ele, fazendo algum esforço para não me rir:
     - Olha, pá, podes mandar pôr, por baixo ou em vez do que lá está:

«Salvador é mais que bom, é o melhor em e-com»
«O rei da alta finesse e entendido em e-business»
«Não desconverse, sou uma águia em e-commerce»

     Ele ouvia tudo o que eu ia debitando e tomava apontamentos! Estava mesmo a levar a sério as baboseiras que eu dizia! Achando graça à brincadeira, eu ainda quis prosseguir o jogo, mas não consegui arranjar nenhum slogan em verso para o e-monney. Seria uma questão de tempo, além de que teria de ver se se escreve com um "N" ou com dois. Mas expliquei-lhe que agora era um "must" meter um "e" antes de tudo o que possa ter a ver com "novas tecnologias"...
     - É isso! - comentou ele - Tens razão, parece-me uma grande ideia!
     Mas, assim como lhe chegou o entusiasmo, também lhe sobreveio igual desalento. Eu quis saber o que lhe ia na mente. Depois de muito insistir, ele desabafou:
     - Esquece. Foi uma coisa que me passou pela cabeça. Mas, vendo bem, era o meu lado pimba a vir ao de cima. Nunca conseguirei acompanhar a sofisticação do Jet-Set que me paga. Paciência... Um bom canalizador também pode não estar ao nível dos seus clientes e nem por isso deixa de ser um bom canalizador...
     Estávamos, portanto, a entrar no reino da filosofia barata! E isso merecia ser analisado, tanto mais que me parecia que ele se preparava para lacrimejar!
     Depois de eu muito insistir, ele confessou então que a primeira ideia que lhe viera à cabeça fora arranjar uma tabuleta em mármore negro, com letras em dourado («Dourado, mas do escuro, para dar o aspecto da patine» - como esclareceu) e com os seguintes dizeres:

«Salvador Covas Matatias, e-bestial em novas tecnologias!»


NOTA EXPLICATIVA:
Por motivos de espaço, na edição em papel da "Valor" as histórias do Salvador tiveram de ser encurtadas já a partir do mês de Outubro.
No entanto, como algumas histórias já estavam escritas na versão "longa", a revista aceitou que se divulgassem ambas.

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