Salvador, o Consultor


As férias do Salvador - V

Salvador abandonou durante algum tempo o gabinete que o sobrinho lhe dispensa e vamos encontrá-lo no Algarve. Enquanto a família descansa, ele procura novos negócios.


     Julgo que as pseudo-férias do meu amigo Salvador em terras algarvias estão a chegar ao fim.
     Pelo menos os relatos algo entusiásticos que eu tenho feito relativos a essa sua estada vão ficar por aqui, pois uma série de desagradáveis acontecimentos fizeram com que o nosso relacionamento estivesse interrompido durante alguns dias e esfriasse mesmo até ao nível do gelo para whisky.
     Reconheço que, no essencial, a culpa foi minha, mas a coisa passou-se assim:
     Talvez estejam recordados que eu sempre lhes escondi (a ele e à família) a existência do meu T2 algarvio acabadinho de estrear.
     Não por eles, é claro, mas pelo estimável gato, pois se havia coisa que me fazia ter pesadelos era imaginar o Berimbau saltitando de sofá em sofá ou afiando as unhas nos meus cortinados novos.
     Talvez se lembrem que recorri, então, a uma esperteza-saloia, falando-lhes vagamente num minúsculo T0 onde eles nunca caberiam.
     Como também em tempos contei, mesmo a hipótese de uma visita que me poderia desmascarar foi afastada, visto que a "tribo" abandonou a terra e foi estabelecer-se num parque de campismo de uma outra, ali próxima mas suficientemente distante para não me aparecerem em casa inesperadamente.
     Mas o certo é que, nestas coisas, a verdade não pode ser escondida por muito tempo, e quando eu me despedi deles para regressar ao trabalho fui surpreendido por uma terrível frase:
     - Ora então, agora que te vais embora, talvez a gente já caiba no teu T0! O que é que achas, hem?!
     Não tive fuga possível. E lá veio ele, com a família, o gato e a tralha toda atrás, aboletar-se no meu apartamento.
     Ah! E o FIAT 600 tinha sido substituído por um enorme Cadillac que ele punha a trabalhar com dois pontapés certeiros («Comigo, tinha de ser Tecnologia de Ponta...pé!» - explicava, rindo-se).
     Bem... mas a sua experiência de vida fez com que evitasse pôr-me em cheque por causa da minha pequena mentira, e limitou-se a comentar, dando-me uma enorme palmada nas costas:
     - Ah, companheiro! Para T0, a chafarica não está nada mal! Deixa a chave à rapaziada que a gente rega-te as plantas todos os dias!
     E foi assim, envergonhado e aborrecido, que voltei para a cidade para enfrentar por mais onze meses o meu estiolante emprego na Makro-Teknika...
     «Gostas de Vinho do Dão?» - foi a estranha pergunta com que me deparei quando recebi o seu primeiro e-mail depois disso.
     Como sempre, ele não dizia tudo, pois gostava, primeiro, de aquilatar o interesse do interlocutor.
     Respondi-lhe que achava que o vinho do Dão era uma maravilha, fiz até um trocadilho com a palavra "dão" (do verbo "dar"), e quis saber qual o motivo da pergunta.
     A resposta, arrepiante, não tardou:
     «Estive a ver a tua garrafeira e reparei que estava muito fraquinha... Por isso tomei a liberdade de a reforçar oferecendo-te um belo Dão tinto» - explicou ele, na mensagem seguinte.
     Até aqui, tudo bem. O pior é que em baixo, em letra muito pequena, entrava em detalhes:
     «Não me agradeças. É por conta de uma chávena que se partiu. Mas estive a ver os preços na Internet e acho que não ficaste a perder. Isto agora, com o e-commerce, é uma maravilha!»
     Grande pirata! Como sabe o meu entusiasmo por tudo o que diga respeito a Internet, lá achou que me calava com essa!
     Mas o certo é que, devido a intervenções do gato ou sei lá mais de quem (hoje uma jarra, amanhã um copo...), a minha garrafeira lá se foi compondo e eu nunca lhe disse, por gentileza, que o médico me proibira de beber...
     E, invariavelmente com a notícia, vinha uma pequena explicação em letra pequena, por vezes até um link para uma página de comércio electrónico onde eu podia conferir os preços (se tivesse paciência para isso!) e verificar que «não ficava a perder»!!
     Estava eu a rezar-lhe pela alma e a contar os dias para ver quando é que ele me libertava o apartamento (e até tremia antes de abrir algum e-mail dele!) quando uma mensagem de teor deveras original me apareceu debaixo dos olhos:
     «Agradecia-te que me ajudasses a fazer uma pesquisa na Web. Preciso de saber se na China há chaminés algarvias».
     Nem mais! Chaminés algarvias na China! O Salvador enlouquecera ou estava a gozar comigo?!
     O certo é que nem lhe respondi.
     Mas, no dia seguinte, ele teve a amabilidade de me desvendar o mistério:
     «Não procures mais. Já fiz várias pesquisas e confirmei que não há».
     E rematava:
     «Assim sendo, terás de reconhecer que também não fazia sentido nenhum teres um jarrão chinês aqui no Algarve!»

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