As férias do Salvador - IV
Salvador abandonou durante algum tempo o gabinete que o sobrinho lhe dispensa e vamos encontrá-lo no Algarve. Enquanto a família descansa, ele procura novos negócios.
Como muito bem sabe quem costuma usar processadores de texto, há uma maravilhosa opção a que se dá o nome de Correcção Automática.
Essa facilidade permite não só corrigir erros que frequentemente cometemos, como usar abreviaturas de palavras que usamos a todo o momento.
Pelo menos quanto a mim, e no seguimento de algum tempo que gastei nessa actividade e dei por muito bem empregue, ao escrever "tb", "qd", "qt", etc., aparecem no monitor, respectivamente e sem mais esforço, as palavras "também", "quando", "quanto" e por aí fora.
Claro que, de vez em quando, surgem confusões e mal-entendidos que é preciso evitar. Pois, por exemplo, ao usar um "T" seguido de um "V" como abreviatura de "talvez", deparam-se divertidas trocas de palavras se o tema é a talvez (perdão: a TV) propriamente dita!
É então necessário voltar atrás e corrigir as correcções ou até, em casos-limite, limpar da memória essas parcelas dessa função auxiliar.
Ora tudo isto vem a propósito do facto de o Salvador andar, ultimamente, a tentar dar aulas de Novas Tecnologias a turistas endinheirados.
Como sabe quem tem acompanhado as suas últimas peripécias algarvias, ele tem usado um computador associado a um projector para, ao fim da tarde (e numa sala de aula improvisada no jardim em frente ao «Fina-Flor Hotel») fazer o que pode, projectando num écran o que vai digitando.
Os seus conhecimentos de Novas Tecnologias não vão muito mais longe do que uso do correio electrónico e de uma ou outra pesquisa mais simples (que não implique o uso de expressões booleanas), mas chegam perfeitamente para os barrigudos do Jet-Set que lhe têm aparecido como alunos.
Além disso, quando os seus conhecimentos atingem o limite e roçam a ignorância, ele muda estrategicamente de assunto e começa a ensinar alguns segredos da língua de Camões com o pretexto de que tal é absolutamente necessário para uso dos softwares intrinsecamente complicados de que ele diz dispor nos cafundores do disco rígido!
Ora foi num intervalo dessas aulas que a Rosarinho - a filha - lhe pediu o computador para escrever uma carta ao namorado.
E aí temos a pobre moça a esbarrar nos misteriosos meandros da tal Correcção Automática!
É que o Salvador preparara tudo para que o acto de digitar "TI" desse origem, de imediato, à escrita da expressão "Tecnologias da Informação" que, agora, usa por tudo e por nada!
Desesperada, mas também não querendo mostrar ao pai a carta de amor que estava a alinhavar, a pobre jovem tentara outras grafias.
Temporariamente, e só a título experimental, passara a tratar o namorado por "você", mas eis que a expressão "SI" (em vez de "TI") dera origem à frase "Sociedade da Informação"!
E fora assim que ela, furiosa, acabara por recorrer às velhas tecnologias, usando uma esferográfica para passar ao papel o que lhe ia na alma.
Mas já vão ver que tudo isto vem a propósito de um acontecimento notável.
Um belo dia, estava eu a apanhar o solzinho do fim da manhã na minha varanda, quando recebo um telefonema do nosso Grande Consultor.
Estava feliz!
«Vê lá tu» - dizia ele - «que o dono do parque de campismo, decerto em minha honra, aderiu à Sociedade da Informação! E o mais interessante é que eu estava farto de fazer tentativas para o convencer e não conseguia. Sempre recusou ligar-se à Internet!»
E mais não disse.
Sabendo como eu sou curioso, ele gosta de deixar este tipo de conversas a meio pois sabe que, fatalmente e movido pela curiosidade, eu em breve monto na bicicleta e vou até lá.
E assim foi.
Ainda era cedo, pelo que ele ainda não tinha levado a roulotte para o jardim em frente ao «Fina-Flor Hotel», como habitualmente fazia.
Assim, foi no parque de campismo que tive de o procurar.
Como em tempos vos disse, a sua caravana não era difícil de encontrar pois, embora fosse de um modelo igual a todas as outras do tipo pelintra, era a única decorada, nas quatro faces, com gigantescos "@" vermelhos! E, para quem não atentasse nisso, uma gigantesca bandeira com "HTTP" bordado (hasteada num pinheiro) ajudava a encontrá-lo facilmente no meio da Babilónia das tendas e dos grelhadores de sardinhas.
- Houve um grande mal-entendido - atirou-me ele, com ar abatido, quando o encontrei - Ainda estive para te telefonar quando percebi tudo. Mas deixei que viesses, para me acompanhares na tristeza e na decepção.
Não percebi o que se passava.
Ao lado dele, carinhosas, a mulher e a filha procuravam animá-lo. E eu só olhava em volta para tentar descobrir o mistério e a razão de tanta tristeza.
- Eu sei o que isso é, papá. Também já passei por isso... Esqueça! - comentava a Rosarinho, limpando-lhe as lágrimas rebeldes.
Eu cada vez percebia menos! Até que, por fim, a passagem ali perto de um sorridente cavalheiro gordo - o dono do parque - levou o Salvador a apontar para ele, rancoroso, e a desembuchar.
Pude, então, compreender tudo:
Dias antes tinha havido uma vistoria da DECO, que concluíra pelas deficientes condições de segurança desse e de muitos outros parques de campismo. Nomeadamente no que respeitava a protecção contra fogos, a situação era calamitosa, e todos tinham na memória o fogo-gigante na zona Sintra-Cascais em 9 de Agosto.
Assim, o parque onde o Salvador estava fora devida e profusamente equipado com extintores e mangueiras. E muito bem!
Só que as enormes letras S.I., que se viam agora por todo o lado e ainda estavam frescas, não eram alusivas a nenhuma SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO... mas sim ao SERVIÇO DE INCÊNDIOS...
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