Salvador, o Consultor


As férias do Salvador - III

Salvador abandonou durante algum tempo o gabinete que o sobrinho lhe dispensa. Vamos encontrá-lo no Algarve, num misto de descanso e de pesquisa de novos negócios.


     Nos últimos dias falei-vos da estada do Salvador no Algarve.
      Inicialmente hospedado num hotel de 5 estrelas (logo por azar na terra onde eu tenho o meu T2 secreto!), mudou-se em seguida para um modesto parque de campismo na localidade mais próxima, onde o visitei por diversas vezes.
     Concretamente, na semana passada contei-vos os seus esforços para tentar dar aulas de Português como primeiro passo para, em seguida, passar a leccionar Novas Tecnologias a estrangeiros endinheirados.
     Mas também dessa vez a evolução dos negócios não foi muito brilhante. Os alunos até eram bons pagadores mas, tendo começado por ser uma boa dúzia, foram desistindo a pouco e pouco até ficarem menos de metade.
     Assisti a algumas aulas, e acho que pode ter um certo interesse ver como correu uma das últimas, quando já havia mais cadeiras vazias do que ocupadas.
     Talvez estejam recordados que ele anunciava o seu curso de "linguística lusitana" aludindo ao idioma de Camões (embora apenas para rimar com "ao acender dos lampiões" - como constava no verso do folheto informativo para explicar que as aulas começavam à tardinha).
     E foi precisamente o Grande Lírico que o ia metendo em sarilhos (e o poderia ter feito passar um mau bocado) se ele não fosse um perito em situações difíceis e, consequentemente, em "dar a volta por cima".
     Pois num fim de tarde em que se preparava para iniciar a aula, ia a passar um famoso ex-Primeiro-Ministro português (cujo nome agora não interessa). Esse cavalheiro, de ar distinto e superior, aproximou-se da última fila da improvisada sala de aula e perguntou, com ar inseguro mas também com uma pontinha de arrogância:
     - Caro mestre, já que fala de Camões... importa-se de me informar quantos cantos têm «Os Lusíadas»?
     Salvador coçou o queixo e ficou a olhar para o ar, por momentos que me pareceram uma eternidade. Depois saiu-se com esta:
     - Terei o maior prazer em esclarecer essa problemática. Mas, se não me leva a mal, responda-me primeiro a uma pergunta: Vossa Excelência já preencheu a fichinha? Está devidamente inscrito no meu curso?
     O outro afastou-se, aborrecido, e com cara de quem fora apanhado em falta. Mas, pelos vistos, sem ficar a saber a resposta. E o Salvador, ignorando as minhas duas mãos abertas em que lhe escarrapachava a resposta, procurou mudar de assunto.
     Mas isso era não contar com a curiosidade e a aplicação dos seus alunos, pois a tal Miss Riitta (tinha de ser ela!) trouxera precisamente consigo um exemplar d' «Os Lusíadas», numa edição de luxo, em carneira!
     Levantou-se timidamente e dirigiu-se lá à frente, onde o grande Mestre tentava explicar que a letra "X" , em português, se pode ler como "Z" (em palavras como "eXame"), como "CH" ("enXame"), ou como "CSS ("fleXão").
     E o "X", como número romano, vinha mesmo a calhar a propósito da questão d' «Os Lusíadas»!
     O nosso amigo encarou de frente o problema.
     Pegou no livro, agradeceu à simpática senhora, e fez-lhe sinal de que se podia sentar. Depois, explicando que era importante, em termos pedagógicos, nunca deixar uma pergunta sem resposta, regressou ao computador ao qual estava ligado um projector (cuja imagem aparecia num écran pendurado numa amendoeira).
     Em seguida, apagou as enormes letras através das quais já se preparava para explicar os mistérios dos "LH", dos "NH", dos "RR" e dos "ÕES" e, no seguimento de uma confrangedora pausa, lá conseguiu sair do Word e entrar no Paint.
     Depois, perante o silêncio respeitoso da assistência, começou, com o rato, a traçar riscos de várias espessuras...
     Iríamos, então, entrar finalmente nas "novas tecnologias"?
     Ao fim de algum tempo (que pareceu uma eternidade porque estávamos curiosos para saber o que é que aquilo ia dar), comentou:
     - Ora então aqui temos... UM RECTÂNGULO!
     Era verdade... O Salvador conseguira desenhar um rectângulo!
     - E agora vamos pintá-lo de... castanho claro!
     Assim fez, com algum custo, aproveitando para (num oportuno parêntesis) explicar os significados da palavra «claro»: «menos escuro» e «evidentemente».
     E prosseguiu, sempre falando muito devagar (para ser percebido e também para passar o tempo):
     - Agora imaginem que este rectângulo tinha espessura. Ficaríamos, então, com... UM PRISMA!
     E, virando-se para a Miss Riitta que, na última fila, parecia fascinada, sorriu-lhe e sugeriu:
     - Ora pronuncie, minha cara senhora: «PRIS-MA».
     Ela, embora com alguma dificuldade no "R", lá lhe fez a vontade. O resto do pessoal riu, bateu palmas, e instalou-se um clima de descompressão que foi muito bem-vindo. Mas eu e todos os outros continuávamos sem perceber onde é que ele queria chegar!
      «Talvez esteja agora a enveredar por aquilo que era suposto fazer: ensinar informática...» - pensei eu - «Não sei se vai por bom caminho, mas os alunos, pelo menos, estão muito atentos».
     Quando se sentiu senhor da situação, o Salvador pegou no exemplar d' «Os Lusíadas» que a Miss Riitta lhe tinha dado para a mão e levou-o para junto do écran:
     - Como vemos, e dentro dos limites da minha habilidade para o desenho, um livro pode perfeitamente ser considerado um prisma.
     Fez uma pausa e olhou para a plateia.
     Quando se certificou de que toda a gente tinha percebido a frase e acenava com a cabeça que "sim", concluiu, depois de referir, de passagem, o nome de Gutenberg:
     - Agora vamos aprender, em coro, a contar até oito. Ficarão a saber como se diz em português o número de cantos de um livro. Deste e de qualquer outro de forma prismática, evidentemente.

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