Salvador, o Consultor


As férias do Salvador - II

Salvador abandonou durante algum tempo o gabinete que o sobrinho lhe dispensa. Está no Algarve, num misto de descanso e de pesquisa de novos negócios.


     Da última vez que vos falei do nosso amigo contei-vos como e porquê ele estava de saída do Hotel de 5 estrelas onde se tinha hospedado em busca de clientes do Jet-Set.
     De facto, irritado com o barulho que uma banda de corridinhos do Algarve fazia, decidira procurar um local mais tranquilo para exercer a sua actividade de Consultor de Novas Tecnologias.
     «Há que facturar sempre!» - é o seu lema - pelo que lá fora ele à procura de sítio mais propício.
     Deu gosto vê-lo, rua acima com o seu velho carro fumegante, levando a reboque a desconjuntada roulotte, à qual estava atrelado o carrinho dos cães regurgitando de equipamento informático!
     Como era de prever, em breve recebi notícias:
     O carro não aguentara grandes viagens e a deslocação acabara pouco adiante, logo na terra a seguir.
     Mas, para meu espanto, tinha ido agora para um parque de campismo. Não resisti e, logo que pude, meti-me na bicicleta e fui até lá.
     Ora, na terra havia vários parques e ele não me indicara em qual estava. Também não lho perguntei porque, sendo a povoação relativamente pequena, pensei que só houvesse um.
     Assim que cheguei, entrei num café para perguntar o caminho, mas fui surpreendido por uma grande algazarra que agitava todas as pessoas que ali estavam. Aproximei-me para ver o que se passava e de que é que se estariam a rir.
     Pois precisamente nas traseiras do café, e visível da janela, o meu amigo Salvador, ajudado pela mulher e pela filha, tentava desesperadamente estacionar o carro e os seus dois reboques!
     Saí, contornei o edifício e fui ajudá-lo.
      Depois da festa que me fizeram, tratámos de retirar aquilo tudo dali (que já tinha provocado um engarrafamento até à EN 125) e, à força de músculo, lá arrumámos as carripanas o melhor possível.
     Vim então a saber que, apesar de estar aboletado no parque de campismo mais barato que encontrara, todos os dias pela manhã trazia a tralha para ali, e armava o escritório no jardim em frente ao «Fina-Flor Hotel»!
     - Só estou no parque provisoriamente, até termos vaga ali no «Fine Flower», que está esgotado.
     E prosseguiu, com ar profissional, enquanto a mulher e a filha punham as coisas cá fora, nomeadamente uma dúzia de cadeiras de plástico:
     - O importante é que o pessoal do high-life passa todo por aqui.
     Fiquei abismado! O Salvador dava aulas a uma dúzia de alunos?! E aulas de quê?! De novas tecnologias, decerto...
     - Sabes? Isto é como as cerejas: comecei a querer ensinar-lhes essas coisas, mas os programas do meu computador estão todos em português e eles não percebiam nada.
     Lembrei-me, então, de lhes dar, previamente, um curso computadorizado de linguística portuguesa. Para já, só o essencial.
     Decidi assistir, é claro. Mas, como era preciso esperar pela tardinha, ocupei o tempo a ajudá-lo.
     A mulher e a filha foram então para a praia, o gato foi apanhar sol, e nós ali ficámos a preparar tudo. Parecia fácil. Mas o máximo do meu espanto deu-se quando ele desenrolou um enorme écran que atou a um ramo de amendoeira. Havia, portanto, um projector algures!
     - Tem de ser assim, pois só tenho um computador. O curso é ao pôr-do-sol, por causa do contraste.
     - Com traste, queres tu dizer! - comentei, rindo.
     De qualquer forma, tendo ele posto todas aquelas coisas ao ar livre, como é que, por exemplo, podia ir para a praia?!
     - Mas qual praia?! Aqui, trabalha-se!
     Expliquei-lhe, então, que não percebia o que é que ele ia fazer durante o resto do dia.
     - Marketing científico - respondeu.
     E, entrando na roulotte, trouxe de lá de dentro um molho de folhetos que me deu para a mão:

SALVADOR COVAS MATATIAS
Consultor de Novas Tecnologias
1º Piso, Sala B
Horário: 18h 30m - 20h 30m


     As duas últimas linhas estavam já cortadas a esferográfica e, com um carimbadela aposta recentemente, o leitor era esclarecido:

Serviço Permanente.
Das 0 às 24h (inclusive), de dia e de noite.


     - Repara no verso - chamou-me ele a atenção.
     Não se tratava do verso do slogan... Ele queria que eu visse o verso do papel:

Aprenda a língua de Camões
ao acender dos lampiões


     - Se queres ajudar, vai ali para a porta do hotel distribuir isso.
     Eu não me conseguia abstrair do pessoal, no café, decerto a olhar para nós e a rir à gargalhada. Aliás, nem me atrevia a olhar para lá. Por isso, foi com prazer que saí dali para fazer o que ele me pediu.
     À tardinha, começou então a chegar um grande grupo de ruidosos estrangeiros (quase todos saídos do hotel), com os quais o nosso amigo parecia tu-cá-tu-lá!
     Depois de todos sentados, ligou o computador e o projector, bateu as palmas pedindo silêncio, e começou a falar lentamente, usando palavras simples, para o perceberem bem:
     - O português é uma língua muito fácil. Enquanto o inglês, por exemplo, precisa de 26 letras, o português apenas usa 23. Vamos recapitular.
     E lá foi teclando e as letras aparecendo no écran!
     - Como vêem, não há letras esquisitas, como o "A" colado ao "E", o "U" com trema e coisas dessas.
     Mas em breve embatucava. É que, logo a seguir à tecla do "L", o "Ç" desmentia-o! Para já não falar no til e nos acentos (agudos, graves e circunflexos que andavam ali perto).
     - São excepções sem importância. Podem dispensar-se, como sabe quem usa o TELEX.
     E estava ele a retomar o controlo da situação quando uma velhinha de cabelos brancos, que até aí passara despercebida, levantou o braço para pedir um esclarecimento.
     Fiquei gelado! Era mais uma vez a Miss Riitta, a inevitável finlandesa que parecia perseguir-nos para todo o lado! E o Salvador que não a conhecia!
     Pois ela, apontando para um sinal que ali estava na rua (representando um parque de estacionamento coberto), queria saber como é que se lia e escrevia o "P" com acento circunflexo...

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