Salvador, o Consultor


As vantagens do grande bug

Julgo que em tempos vos contei algumas histórias do meu amigo Salvador.

     Mas o certo é que deixei de o ver, ele deixou de me procurar, e assim andámos, desencontrados, durante quase três anos.
     Agora imagine-se o meu espanto quando, um dia destes e ao abrigar-me da chuva na portaria de um recente edifício de escritórios, deparei com o nome dele escrito a letras douradas numa tabuleta de alumínio, segura com uma ventosa no vidro que dava para a rua:

SALVADOR COVAS MATATIAS
Consultor de Novas Tecnologias
1º Piso, Sala B

     Só podia ser ele, pois quantas mais pessoas haveria no mundo com aquele nome?! E eu que passava ali todos os dias e nunca tinha reparado!
     Resolvi subir para me certificar e - se tudo corresse bem e ele estivesse disponível - para o cumprimentar e matar saudades.
     Mas uma linha escrita em letras mais pequenas fez-me hesitar:

Horário: 18h 30m - 20h 30m

     Como ainda não eram seis da tarde o mais certo era que eu não o encontrasse. E já me preparava para fazer algumas perguntas ao porteiro quando vi o Salvador a arrumar o seu velho FIAT 600 mesmo ali em frente!
     Saí ao seu encontro, cumprimentei-o fazendo uma grande festa, mas ele não pareceu muito satisfeito por me ver. Estranhei tanta frieza, mas também não lhe disse nada.
     Limitei-me a fazer-me convidado para o seu novo escritório e subi com ele o lanço de escadas.
     Extasiei-me ao olhar, através dos vidros ligeiramente fumados, para a tal Sala B onde um pequeno grupo de pessoas, cada uma no seu computador, trabalhava afanosamente. Ali estava, pelos vistos, a florescente empresa do nosso amigo!
     Mas, para meu grande espanto, não foi para lá que ele se dirigiu, mas sim para uma porta, quase escondida por detrás da caixa do elevador!
     Pareceu-me até que não queria que eu o acompanhasse mas, devido à minha extrema curiosidade, fiz-me de desentendido e entrei também.
     E o que eu vi deixou-me confuso:
     Tratava-se de um pequeno cubículo de arrumações, onde - como vim a perceber - ele guardava a sua roupa especial.
     Um pouco incomodado com a minha presença, mudou de roupa ali mesmo.
     Ora bem... o Salvador que eu vira sair do FIAT 600 era um homem de jeans, sandálias e camisa desabotoada. E em três tempos ali estava agora um verdadeiro executivo, cavalheiro impecável de fatinho à moda, sapatinhos como deve ser e uma berrante gravata com um gigantesco nó e "@"s dourados!!
     Era evidente: o homem não queria entrar na sua empresa com ar desmazelado e arranjava-se "comme il faut" para impor um certo respeito aos funcionários e aos clientes!
     Mas, se era assim, porque é que não vinha já vestido de casa, sujeitando-se a ser visto como habitualmente andava?!
     De qualquer forma, e à parte a curiosidade que me abrasava, o caso não me dizia respeito, pelo que nada lhe perguntei.
     Mas havia ainda uma outra novidade:
     Quando eu pensava que íamos, finalmente, entrar no seu escritório, ele começou a descer as escadas e levou-me atrás de si voltando a sair para a rua!
     E foi na leitaria da esquina, depois de sacudida a chuva dos casacos e entre uns cafés e uns bolos-de-arroz, que ele me confidenciou:
     - Não vale a pena esconder-te a verdade por mais tempo. A sala não é minha, nem sequer é alugada. Pertence a um sobrinho meu, que agora é um desses jovens de sucesso que há para aí. Ele empresta-ma quando o pessoal sai e as senhoras da limpeza vão fazer o trabalho delas. Claro que os meus clientes não sabem disso - nem têm nada que saber - e o resto é uma questão de status, que passa pela roupa, pela mobília, pelos computadores...
     Apreciei bastante a franqueza e ali estivemos os dois a recordar velhos tempos até serem horas de ele pegar ao serviço!
     - Bem, já que insistes, podes vir comigo - anunciou -. Hoje só tenho um cliente marcado, e não deve aparecer antes das sete e meia. Dá tempo para veres as instalações.
     Voltámos então de novo ao edifício de escritórios e, desta vez, o Salvador meteu a chave a porta...
     E foi assim que, de súbito, o vi transformar-se numa outra pessoa: pareceu desempenar-se, cumprimentou com uma altivez pouco democrática as senhoras da limpeza, e começou a andar de um lado para o outro, muito activo, a dar uma arrumação naquilo tudo (muito especialmente numa secretária que, como percebi, era a do sobrinho até às 18h).
     Ajeitou a cadeira para a sua altura, tirou de um saco de plástico as fotografias da família que meteu bem à vista, recostou-se com impensável à-vontade, activou a protecção-de-écran do computador e desfechou:
     - Ora então conta-me lá o que tem sido a tua vida!
     Eu lá lhe contei as poucas coisas interessantes que se tinham passado comigo desde o nosso último encontro. Mas fui rápido, pois o que eu queria, verdadeiramente, era saber o que ele fazia ali!
     Como é que uma pessoa como o Salvador, que - tanto quanto me lembrava - mal sabia ligar um computador, aparecia agora como Consultor de Novas Tecnologias e com tabuleta à porta?!
     - Ao princípio, o texto da tabuleta foi feito para rimar com o meu nome - explicou ele, sem se rir -. Sei tanto de computadores e Internetes como sabia da última vez que nos encontrámos. Mas também já percebi que um pouco de descaramento, fala-baratismo e cultura geral é o suficiente para dar conselhos à maioria dos gestores portugueses que - valha-nos Deus! - são de uma ignorância confrangedora!
     E estávamos nós nesta conversa de má-língua quando ouvimos um toc-toc-toc no vidro. Era o cliente esperado, que chegara mais cedo do que o previsto!
     No seguimento de um tossir e de um piscar-de-olho do Salvador, um estranho cenário armou-se num instante:
     E, quando dei por mim, eu mesmo estava a abrir a porta, como se fosse funcionário da firma! Quanto às senhoras que estavam a proceder à limpeza, largaram à pressa os aventais, as vassouras e as esfregonas e sentaram-se em frente a outros tantos computadores desligados.
     Tudo previsto, portanto.
     Vim então a saber que o que trazia ali o cavalheiro não era nenhum problema novo. O homem apenas vinha agradecer e pagar o que devia! De facto, fosse o que fosse que tivesse acontecido, o Salvador dera-lhe algum conselho que fora muito útil. O que teria sido?!
     O mistério havia de se esclarecer, mas só depois de o cliente sair e de o Grande Consultor meter o cheque na carteira e dar às prestáveis senhoras a gorjeta - pelos vistos - habitual:
     - Este cliente tem uma loja de artigos desportivos e gastava rios de dinheiro em publicidade até me conhecer a mim. Eu passei a dar-lhe grandes conselhos de marketing e arranjei-lhe anúncios baratos. Ele apenas precisou de fazer alguns cartazes dos produtos. Mas uma coisa bastante económica, mesmo bastante económica...
     E assim fiquei a saber que:

     Às bolas de futebol tinha-se associado apenas a letra "O";
     às de ping-pong, a mesma letra, mas minúscula;
     às de rugby o algarismo "0";
     aos tacos de golfe, o "L";
     aos sticks de hockey, o "J";
     aos tacos de bilhar, o "I" (com a pintinha, para fazer lembrar a bola);
     às fisgas, o "Y";
     aos arcos o "D"...

     ... e assim por aí fora, numa espantosa economia de recursos que bem podia conduzir - se também os vendesse - aos escadotes "marca A", às "cadeiras h", às "escadas H", às "bengalas 7" e sei lá mais a quê!!
     Mas havia uma coisa que eu não percebia:
     O que é que aquilo tudo tinha a ver com as novas tecnologias?!
     - É fácil - explicou-me o Salvador, já na rua, enquanto empurrávamos o velho FIAT para o tentar pôr a trabalhar -.O homem passou a confiar-me toda a sua campanha publicitária mas queria que eu usasse coisas relacionadas com as novas tecnologias.
     - E desenrascaste-te?! - perguntei, espantado.
     - Claro. Por exemplo: ele tinha um daqueles carros para andar nas dunas que nunca mais se vendia. Eu, aproveitando a paranóia do ano passado, sugeri-lhe que o anunciasse como sendo «O Verdadeiro Buggy do Ano 2000». Até já mandou vir mais dez.

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