O homem que não passa cartão

Acho que vocês deviam gostar de conhecer o meu amigo Diospiro.

Eu sei que o seu estranho nome pode fazer suspeitar que ele é pouco normal. Até certo ponto isso é verdade, mas nada tem a ver com o baptismo: o que o torna uma pessoa esquisita é o facto de viver em pânico com tudo o que seja novo ou que, mesmo vagamente, lhe cheire a tecnologia.

E isso presta-se a situações caricatas ou até mesmo dramáticas. Por exemplo:

O Diospiro, como quase toda a gente que eu conheço, tem um carro. Ou antes: tinha!

Muitas vezes o ouvi confessar, nos tempos em que guiava, que vivia no pânico de um dia ter um furo, pois a simples ideia de ser forçado a manipular um "macaco" ou a cruzeta de desatarrachar as porcas punha-o doente. E não devia estar a exagerar muito quando me dizia que mais depressa compraria um carro novo do que mudaria um pneu.

Agora imagine-se o seu sofrimento quando apareceram as bombas de gasolina "self-service"! Devido ao seu ódio aos teclados e aos écrãs, o Diospiro começou a fugir dessas maquinetas como o diabo da cruz, e passou a andar quilómetros e quilómetros só para encontrar uma bomba com um empregado («humanizada» - como ele diz).

Em seguida, dada a crescente escassez de tais serviços, passou ainda pela fase de transportar bidões de gasolina no porta-bagagens e, como facilmente se depreende, pouco depois deixou de guiar e converteu-se aos tranportes públicos.

Até aí, tudo bem.

Só que, e a breve trecho, as máquinas de venda e de obliteração de bilhetes passaram, por sua vez, a enlouquecê-lo. E foi asim que o Diospiro começou a andar cada vez mais a pé recorrendo, para as viagens mais longas, a camionetas ou a combóios.

Mas tudo isto foi apenas uma introdução e um exemplo.

Pois o que eu gostaria de facto de descrever (se encontrasse as palavras certas) era o pânico que se apoderou do Diospiro quando os computadores começaram a aparecer no seu emprego. O "stress" apoderou-se dele, e a reforma antecipada (no seguimento de uma longa baixa de origem digital muito mal esclarecida) foi a solução que encontrou.

Evidentemente, os filhos e a mulher estão desde sempre proibidos de levar para casa os portáteis que usam no trabalho, e Internet é coisa de que nem quer ouvir falar.

Mas, há algum tempo, vim a saber que o Diospiro tinha adquirido um cartão Multibanco! Eu disse que só acreditava quando visse, mas já não fui a tempo. De qualquer forma, a mulher contou-me o que se passou:

Da primeira vez que ele se defrontou com um terminal do Multibanco, começou por o encarar como os pistoleiros do Oeste faziam frente aos inimigos.

Depois, decidindo-se, sacou decididamente do cartão e, ao fim de várias tentativas (pois há quatro possiblidades de o introduzir na ranhura), o painel abriu-se, rangendo ameaçadoramente.

Mas isso foi só o primeiro susto, porque depois apreceram duas coisas horríveis: um écrã e um teclado!

O Diospiro começou a tremer e (ou porque se enganou no código ou por qualquer outro motivo) a máquina aspirou-lhe o cartão.

«Mamou-o! trincou-o! devorou-o!» - foram algumas das expressões a que o Diospiro recorreu quando, ainda suando, explicou à família o que se passara.

E foi assim, até com um certo alívio, que o nosso amigo regressou às velhas e longas filas no seu banco preferido.

Ah! E quando viaja para o estrangeiro levanta o dinheiro que lhe parece necessário e suficiente e lá vai ele.

Tremem-me os dedos no teclado, com o riso, para contar um pormenor. Mas tem de ser, pois vale a pena:

Para essas viagens, e tendo em vista a maior segurança possível, a mulher do Diospiro arranjou-lhe uma bolsinha de pano, cosida nas cuecas, onde o dinheiro vai devidamente acondicionado e fechado com um alfinete-de-ama.

Só vim a tomar conhecimento dessa deliciosa solução quando soube que, uma vez na Polónia, o dinheiro se lhe acabara. E o Diospiro, não pretendendo ouvir falar de cartões (nem de crédito nem de débito!) ficou à espera de uma tranferência de dinheiro, feita à antiga, de Portugal para lá, e que demorou o tempo suficiente para ele emagrecer, almoçando e jantando as bolachinhas de água-e-sal que sempre o acompanham para todo o lado por causa da úlcera.

Ora, até há alguns dias, sempre que nos encontrávamos eu metia-me com ele, atirando-lhe em cara, entre outras coisas, a gratuidade do Multibanco "versus" o custo do velho cheque e dos seus antiquados modos de lidar com o dinheiro.

Só que, agora, com a sádica ideia de os bancos nos passarem a cobrar pelas operações com o cartão, até fujo de o encontar, com medo de que me goze.

E logo agora, que ele está quase a fazer anos e a convidar-me para a habitual jantarada!

Foi publicada uma versão resumida deste texto na edição de 9 Nov. 2001 da RECORTES

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