O Vedor Tecnológico

I
O Vedor

Não sei se algum dos meus amigos já viu um vedor a trabalhar...
É uma coisa impressionante, que desafia a credibilidade, a imaginação e até - por vezes - o simples senso comum.
Pois, se não viram, não sabem o que perdem! Eu já vi.
O homem pega num raminho ("Não pode é ter resina!") tira-lhe as folhas reduzindo-o à condição de varinha, segura-o de determinada maneira, e começa a andar...
Depois, com um pouco de sorte para o dono do terreno e para ele, a vara começa a torcer-se toda, sinal inequívoco de que "Há água!".
Já experimentei. Mas comigo não dá...
Por isso, quando um dia precisei de abrir um furo num pequeno terreno que tenho em Sintra, fiquei indeciso se havia de consultar um cientista ou um desses estranhos sábios...
A minha formação técnica empurrava-me para a primeira hipótese, mas o meu lado irracional empurrava-me para a outra.
E não tencionaria contar isto a ninguém (até leio a "Science & Vie" onde os vedores são desancados todos os meses!) se não se tivessem passado algumas coisas esquisitas que passo a contar...

II
A Feira

Era no segundo domingo de Setembro, dia de feira na Vila.
E lá estava eu, armado em agricultor de fim-de-semana, a pedir palpites sobre as couves a plantar e a fazer de entendido no que se referia a enxertos de videira.
E era precisamente na zona onde se vendiam as árvores que estava armado o burburinho!
Dois vedores disputavam entre si os seus méritos, cada um deles arengando a superior excelência dos seus processos.
E um senhor idoso, que morava mesmo ali em frente e todos diziam ser Marquês, resolveu intervir, pacificar os ânimos, e esclarecer os espíritos:
Ambos iriam, ali mesmo, exibir as suas artes e ver se haveria água.
Aceite o desafio, um deles apanhou um ramo de uma árvore do jardim e, rapidamente, despojou-o das folhas.
Quanto ao outro, limitou-se a baixar-se e a apanhar uma pedra que nem sequer pareceu escolher com muito cuidado.
Pela estranheza do acto, foi este quem suscitou as atenções gerais.
E já o primeiro dizia "Aqui há água!", e ainda o segundo, calmamente, metia a mão ao bolso, tirava um cordel e fazia um pêndulo com a pedra!
Puxou o boné para trás, deixou morrer a beata ao canto do lábio, e concentrou-se no que havia de ser o movimento galilaico.
Foi com particular suspense que as pessoas o viram aproximar-se, a passo manso, do sítio onde o rival o aguardava, vitorioso, com a varinha torcida.
Mas nada! O pêndulo, ali, não tugia nem mugia!
E as pessoas afastaram-se, ovalizando o círculo que se formara, quando ele, ignorando os assistentes e parecendo decifrar estranhas mensagens do Além, se dirigiu para um portão.
Era precisamente a casa do senhor Marquês, que se apressou a servir-se da chave no seguimento do que, qual sonâmbulo, o Malaquias (pois assim se chamava o suposto vedor) entrou lentamente pela quinta adentro.
Não foi preciso andar muito até que o pêndulo se pôs a oscilar.
Primeiro imperceptivelmente… depois com um pouco mais de genica… em seguida quase parando… para desatar finalmente num corrupio louco!
"É aqui" limitou-se ele a dizer, pigarreando e enrolando a guita, depois de atirar fora a pedra e a beata, dando a sua missão por terminada.
As pessoas ficaram a olhar umas para as outras.
Afinal, o que parecia vir a tornar-se numa acesa disputa acabava de forma pífia, pois não iria ser fácil comprovar-se quem tinha razão...
Mas nem sempre o que parece é!
Porque o Senhor Marquês, de olhos brilhantes e desorbitados, aproximou-se do Malaquias e sussurrou-lhe com voz tremente:
«Quanto é que você quer para vir trabalhar aqui para a quinta?»
É que o homem, sem o saber, farejara com o seu pêndulo - e localizara com precisão…- a adega subterrânea da quinta!

III
O Telemóvel Mágico

Mas falta ainda o melhor da história:
Como eu não precisava de quem me descobrisse vinho no terreno mas sim água, procurei o homem da varinha que tinha ficado do lado de fora do portão, impávido no seu local, qual caçador garantindo a posse da sua presa.
Mas, decerto abatido pela falta de atenção do público que já julgara seu, afastara-se.
Fui dar com ele, dias depois, choroso e triste, sentado num banco de pedra junto à "Tasca do Marcelino", mesmo ao lado do rival.
Os amigos metiam-se com ambos:
«Ó Chico Chalupa! Vê lá mas é se fazes como o Malaquias! À força de estar aqui na tasca já nem encontra água!»
Mas o Chico estava mais abatido do que nunca:
«Sabem o que é que me lixa? É que a minha vara deixou de funcionar!»
Não era possível! Logo agora que eu o ia contratar, é que ele perdera os seus misteriosos poderes!
Sim, porque eu tivera o cuidado de me informar, junto dos Serviços Municipalizados, que no sítio onde todos víramos a varinha torcer-se passava, de facto, uma grande canalização de esgoto!
Mas até esse facto já era de todos conhecido e motivo de chacota.
E dizia-me um velhote, na sua pronúncia saloia, engasgando-se e provocando a gargalhada geral:
«Ó meu amigo! Se vocemecê procura vedor para água, o melhor é ir para outras bandas… Os daqui são especiais! Um, só encontra vinho tinto, e o outro só topa com mijo branco!»
Mas o Chico estava mesmo abatido e não achava graça a nada...
E continuava outro velhote:
«Olha lá, ó Chico, então andas preocupado com a tua vara, que já não funciona?! Deixa lá… Olha… eu já nem penso na minha!»
E afastei-me. Não porque me incomodasse o rumo brejeiro que a conversa se aprontava para levar, mas porque tinha pressa de descobrir - fosse onde fosse - um desses vedores milagreiros...
Agora veja-se a minha cara quando encontrei, pregado numa árvore, um pequeno anúncio que - limpos que fossem os erros de ortografia - diria assim:
«Vedor por telemóvel - TM: 9...»
Só faltava esta!
Já haveria desses artistas em tele-trabalho?!
A curiosidade foi forte demais, e não descansei enquanto não cheguei a casa e lhe telefonei.
O homem recusou-se a explicar como é que fazia o seu trabalho, é claro, e eu também não insisti.
Quando ele quis saber onde era o terreno, eu imaginei-o, (usando estranhas artes de magia que me faziam sentir sumamente ridículo do outro lado do telefone) a observar um mapa da zona e a descobrir, numa planta à escala "um-para-qualquer-coisa" onde é que eu havia de fazer o buraco!
«Então eu já vou aí dizer a Vossa Excelência o sítio do furo»
Fiquei parvo!
Mas resolvi proteger-me:
Iria propor ao homem, quando ele chegasse, que - caso não houvesse água no sítio quer ele indicasse (e assentaríamos numa profundidade a não exceder) - não lhe pagaria.
Passada uma hora, vejo chegar uma bicicleta.
Ao princípio não o conheci… mas era o Sr. Malaquias!
«Só me faltava agora esta ave!» - pensei eu! «Logo agora, que o médico me proibiu de beber, é que me aparece este gajo!»
«Só me paga se encontrar água até 10 000 metros. Eu digo-lhe onde é que você faz o furo, e depois, quando estiver feito, venho cá ver se me deve alguma coisa. Está bem assim?»
Assentámos no preço e esperei.
E então, quando eu pensava que ele me ia indicar de imediato o fruto do seu trabalho de tele-vidente, sacou do bolso e pôs em acção o pêndulo que já trazia preparado:
Na ponta duma guita, pendurado pela antena… decerto adivinham o que estava!

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