OlivexportO meu amigo oliveira meteu-se num novo negócio: uma firma de Exportação de Produtos Alimentares!
Só ele é que se lembraria de abandonar o negócio dos transístores e das resistências e abraçar com igual ardor os feijões enlatados, o molho de tomate e as batatas fritas!
Bem podia ter pensado… nos nabos!
Eu, de facto, continuo a admirar-lhe a genica empresarial, mas o que é certo é que, seja qual for o ramo de negócio em que se meta, acaba sempre tudo mal.
Não é que ele tente vender gelo a esquimós nem areia a beduínos (nada disso!), mas é que a sua relutância à modernização é tão grande, que a concorrência «chama-lhe um figo»…
E já dei com ele a falar sozinho, enquanto percorria as Páginas Amarelas, à procura de… um ramo de actividade em que pudesse não ter concorrência!
Não sei muito bem como é que ele vai fazer a coisa, mas, para já, mandou imprimir catálogos…
Gostaria de usar um eufemismo, e dizer que são kitsch… Mas o que aquilo é chama-se, simplesmente, uma foleirada total: muitas cores, muitos dourados, todos os tipos de letra que descobriu numa papelaria da Baixa… e a sua foto em primeiro plano!
Uma das últimas vezes que o vi tinha a furgoneta à porta da loja e alombava com resmas gigantescas desses catálogos cuidadosamente embrulhados e etiquetados.
«É para a exportação!» - Informou-me, feliz. «Vou agora levar isto ao Correio Expresso do Aeroporto. Não quer vir comigo?».
Ainda bem que não fui, pois acho que ia ficar maldisposto com a cena da conta: foram simplesmente centenas de milhares de escudos!
Encontrei-o de novo, à volta. Vinha arrasado!
«Quando soube o preço, estive mesmo para desistir!» - lamentou-se - «Mas era uma dôr-de-alma! Tive tanto amor a fazer aqueles catálogos, em inglês e tudo…».
Confesso que não tive muita pena dele. E explico porquê:
Tempos antes, quando me contou o que andava a preparar, eu disse-lhe:
«Oiça lá, você não pensou antes em fazer uma Home-Page para pôr na Internet?!»
Ficou a olhar para mim, com aquela cara de galinha hipnotizada que costuma fazer quando lhe falo de «modernices», e tive de esperar um pouco. É que as engrenagens do seu cérebro estavam a trabalhar lenta mas vigorosamente: a roda pequena tratava das vantagens, e a roda GRANDE das desvantagens…
Não esperei pela resposta e despedi-me com um «até amanhã». Quando lá voltei, no dia seguinte, fui dar com ele, acabrunhado, a pôr uma série de sinais «menos» no livro de contabilidade (à mão, claro!).
«É para poupar electricidade» - foi a resposta que me deu quando lhe perguntei porque é que não usava o computador para isso…
Não era para aí que eu queria encaminhar a conversa, mas sim para a sua futura Home-Page, pelo que, sem esperar pelo seu consentimento, liguei o PC, saí do DBase (que é o programa mais avançado que ele aceita ter) e instalei o software que arranjara de propósito.
Não demorou muito para que ele se levantasse e viesse ver. Eu tinha tido o cuidado de preparar bem o trabalho, e fiz um pouco de batota porque muitas coisas já iam meio feitas…
«Isso está a ficar giro… E depois o que é que eu preciso de fazer?»
«Depois você só tem que dizer aos seus clientes que vão à Internet, ao seu site em http://www.oliveiraexport.pt e vejam o que lá está».
De novo tive que fazer uma longa pausa. Ouvia-se-lhe o cérebro a triturar a ideia…
E veio a resposta que habitualmente me faz perder a cabeça:
«Nãã… não pode ser bem assim… Senão já todas as firmas tinham!»
Embora correndo o risco de ser injusto para com algumas empresas minhas conhecidas e que muito respeito, argumentei:
«E é que é isso mesmo, caro amigo. Qualquer empresa que se preze… ou já tem Home-Page, ou está em vias de ter uma!».
«Então e a cara?» - quis ele saber.
«Não, homem. Não é nada cara! Há fornecedores de Internet que até dão espaço de graça!»
«Eu não perguntei isso… Quero saber se é possível pôr aí a minha cara…».
Bem, se o problema era a vaidade, a solução estava ali mesmo, pois eu tinha previsto tudo:
Meti a mão ao bolso e tirei uma pequena máquina fotográfica digital, ainda a tempo de o fotografar com o seu ar de empresário perspicaz.
O resto, só para ele é que assumiu foros de magia…
«Estou a gostar. E tenho uma surpresa para si!» - anunciou ele - «Já escolhi o meu nome para o endereço do correio electrónico! Como é para exportação tive que ter certos cuidados. Mas olhe, estou chateado porque parece que não me deixam pôr o tracinho!».
E lá estava o endereço que ele queria:
Olive-Tree@mail.telepac.pt!
Mas ainda faltava a melhor. Foi quando ele comentou:
«Não nos podemos esquecer de meter aí o E-N-G!»
Essa é que, de facto, eu não estava a perceber! E ele foi buscar a maqueta dos catálogos que andava a preparar e mostrou-me:
ENG OLIVEIRA
Reagi mal a essa evidente desonestidade profissional:
«Que história é essa?! Desde quando é que você é licenciado em engenharia?!».
Riu-se, com aquele ar de chico-esperto com que eu tanto embirro, e saiu-se com esta:
«Ora, ora... nestas coisas de negócios, o ENG cai sempre bem... afinal de contas, são as iniciais de Empresa de Nutrição e Gastronomia...»
Reagi, talvez agressivamente demais:
«Ó Oliveira! Que raio! NÃO HAVERÁ QUEM O META NA ORDEM?!»
Aí, ele ficou de olhos em bico, e - gaguejando de sincera emoção - saiu-se com esta:
«Acha que era possível?! Você ajudava-me?!»
Não entendi...Mas ele também não tardou a explicar-se:
«Sim!! Era bestial!!! Você arranjava maneira de me meter na Ordem dos Engenheiros?»
Publicado no "Diferencial", Boletim da AEIST
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