O Meu Amigo Oliveira - I

(Texto publicado na revista "Valor" de 8 de Março de 2001,
na Secção «Humor - Salvador, o Consultor»)

   No momento em que escrevo o Salvador está para o Brasil. Embora ele não tenha dito o que ia fazer, suspeito bem que o motivo terá sido o Carnaval do Rio. De qualquer maneira até calhou bem, pois foi a forma de eu poder referir aqui um outro velho amigo, o Sr. Oliveira, que é precisamente o oposto dele:
   Enquanto o Grande Consultor se esforça por divulgar, dentro das suas possibilidades, as novas tecnologias (não lhes regateando encómios), o outro, pelo contrário, tudo faz para se lhes opor como bom comerciante da velha-guarda que se orgulha de ser.
   E é deveras irritante a forma como ele festeja os trambolhões do Nasdaq, a falência de muitas "dot-com", e a maneira como anuncia aos sete-ventos que "os crimes tais e tais" foram cometidos usando a Internet!
   Mas, um dia destes, passou-se uma coisa inesperada: Ia eu na rua quando, ao passar em frente a um Banco, vejo, através do vidro, esse velho amigo. Lá estava ele, de olhinhos matreiros a piscar e com o seu inseparável chapéu mole que, suspeito eu, não tira nem para dormir.
   Resolvi então entrar, cavaquear um pouco, e até aproveitar o facto de ele estar ali em pé (possivelmente há imenso tempo) para lhe explicar as virtudes do homebanking.
   Mas, se eu mais cedo chegasse, mais depressa ele se tinha despachado, pois o certo é que o chamaram logo, e a nossa conversa não passou do princípio.
   «Pensando bem» - matutei - «foi saliva economizada, pois ele nunca iria aceitar usar uma modernice dessas, com cheiro a Internet e a computadores».
   Mas, por coincidência, no dia seguinte encontrei-o no mesmo sítio e chamou-me a atenção um embrulho de dimensões razoáveis que trazia debaixo do braço.
   Movido pela curiosidade entrei, fui para junto dele e, enquanto conversávamos sobre coisas sem importância, reparei que me dava pouca atenção e se esforçava por desembrulhar o pacote ali mesmo, no hall do Banco.
   Interrompeu a nossa conversa por momentos, dirigiu-se ao guichet das informações enquanto eu lhe guardava o lugar na fila, e regressou com um canivete suíço que um prestimoso funcionário lhe emprestou.
   Então, compenetrado, cortou o fio e desembaraçou-se do papel pardo que dobrou cuidadosamente e depois meteu no bolso juntamente com o cordel enrolado a rigor.
   Por fim, começou a manipular qualquer coisa que eu, ao princípio, não percebi o que era. Em seguida, sorrindo, disse «Com licença» e repimpou-se num banquinho desdobrável que trouxera de casa: aderira ao homebanking, segundo me explicou.

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