Sinais de fumo? Mau sinal...

(Texto publicado na revista "Cyber-Guia" de Janeiro de 2002)

   O meu amigo Oliveira é um comerciante "da velha guarda", e se o quiserem ver doente é só falarem-lhe em computadores ou (pior ainda) na Internet!
Poderão ler as histórias dele (e de muitos outros figurões...) em http://www.janelanaweb.com/humormedina nomeadamente uma, intitulada "Internet de Novo Tipo" em que ficamos a saber que ele se preparava para ligar as suas três lojas por pombos correio! Hoje, e nesse seguimento, aqui vos trazemos uma outra história semelhante.

*

Quando folheio um jornal, não resisto à tentação de ver - nos anúncios - quais e quantas empresas afixam o seu endereço do Correio Electrónico ou até o da sua Home-Page e é com prazer que vejo o seu número crescer de semana para semana.
Há algum tempo estive em Itália e a breve trecho já estava a sofrer desse mesmo "tique" que, aqui em Portugal, me vai valendo (e com justiça) ser gozado pelos amigos. E em Roma dei por mim a fazer essa estatística com o gigantesco (em tamanho e em difusão) "Corriere de la Sera".
Mas fiquei sossegado pois, pelo menos nesse aspecto, a Net tinha chegado lá. E em força: além dessas referências, o próprio suplemento do jornal trazia muita coisa sobre o assunto: reportagens, entrevistas, listas de sites interessantes, anúncios, sugestões...
Dias depois cheguei a uma pequena, pacata e simpática terra: Mântua.
Folhei o jornal local, que também não escapou à minha mania. Mas, aí, nada! Nadinha, mesmo! A Internet parecia não existir. Nem nas preocupações das pessoas daquela terra, nem nas do jornal. E, naturalmente, a própria publicidade seguia o mesmo critério.
Notei até uma coisa que me fez confusão: empresas internacionais que, no jornal de Roma, afixavam o seu URL, neste omitiam-no, como se tivessem vergonha dele ou receassem incorrer em algum castigo de origem desconhecida!
Mas, de súbito, um lampejo de espanto:
Na primeira página, em letras garrafais, a palavra mágica: INTERNET! Como é que eu a não vira logo?! Mas esperava-me um balde de água fria, na forma de sub-título:
«Criança de 12 anos mata a mãe por não a deixar navegar na Internet!»
O resto da notícia é fácil de adivinhar. E as conclusões, claras ou apenas sugeridas, são já bem nossas conhecidas: os malefícios do ciberespaço! Os fantasmas da Sociedade da Informação!
Mas voltando a Portugal e aos seus anúncios: nota-se, com frequência, um pormenor curioso: Encontram-se firmas de imobiliário ou de automóveis que já entraram há muito tempo na era da Sociedade da Informação; enquanto outras, de material informático (!!!), ainda hesitam ou pairam noutro mundo!
E a distorção atinge limites divertidos:
Empresas destas, que dizem «cavalgar a espuma da crista da onda das novas tecnologias», por vezes nem sabem o que é uma Home-Page! Ou sabem mas não tencionam ter...
Outras, que comercializam todas as tecnologias de ponta (entre elas modems ultra-rápidos e super-modernos), oferecem, como contacto mais evoluído… os seus números de telefone e de telefax! (Que tal um telefonema para uma dessas firmas a perguntar o e-mail? Na maior parte das vezes não valerá a pena. Ou até poderão ouvir uma telefonista perguntar (como já me sucedeu a mim): «Importa-se de enviar para cá um fax ou uma carta com essa sua questão?»)
Pode-se, também, encontrar anúncios de conferências e palestras sobre Internet para as quias o modo de contacto disponibilzado é o telefone número tal...
Por vezes, mesmo em revistas técnicas o panorama não é muito melhor:
«Soluções Intranet, Internet e Extranet! Solution-Providers autorizados! Somos os melhores! Sempre de olho no futuro! Rua tal... Fax número...»
«Associação de Especialistas da Sociedade da Informação! Telefone, fax e atendedor de chamadas (o número é o mesmo). Ligue já e deixe o seu recado!»
«Fazemos, em tempo record, a sua página na Web! Telefone número...»
«Empresa certificada dá cursos sobre as novas tecnologias da informação. Fax número...»
Home-pages onde se possa ver as características técnicas e os preços dos produtos (quem sabe se até fazer encomendas?)... Muitas? Poucas? Há empresas que sugerem que se vá pessoalmente e mostram um mapa, com setinhas a indicar como é que se lá chega.

*

Mas, em matéria de imagem, ninguém consegue bater o meu amigo Oliveira! Agora anda a modernizar tudo o que são impressos das suas novas sucursais: concordou comigo em como o aspecto gráfico é muito importante para o negócio, e não hesitou em dar-me razão quando lhe recomendei o máximo cuidado em tudo o que fosse coisa impressa: cartas, faxes, cartões de visita, impressos das facturas… tudo - de certa forma - faz parte da imagem que uma empresa dá de si para o exterior. E esmerou-se, mas à sua maneira: escolheu um tipo de letra bem pimba, mandou imprimir um novo logotipo dourado (uma azeitona!!!), escarrapachou o seu retrato por todo o lado, e em todos estes impressos mandou pôr… o número do TELEX!!!
Ontem encontrei-o na rua. Estava furioso! Espumava! É que o dono da tipografia, com pouco senso comercial e muita vontade de o irritar, tinha-lhe perguntado se ele não queria pôr, também, o seu número do tan-tan...
E porquê apenas do tan-tan?! Se o tivesse visto, como eu o vi, a deitar FUMO pelo nariz, ter-lhe-ia vindo à ideia um outro meio de comunicação igualmente antigo!

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