Internet de novo tipo

(Texto publicado na revista "Bit" de Novembro de 2001)

   Aproveitando a óptima oportunidade que a BIT me ofereceu, não resisto a referir algumas pessoas minhas conhecidas que, embora não se furtando a responder aos meus e-mails, o fazem de uma forma tão estranha quanto eficaz.
   De vez em quando, dou por mim a embirrar com as pessoas que não respondem aos meus e-mails.
   E isso, infelizmente, acontece com demasiada frequência, por mais que me esmere na sua redacção, por mais importante que o assunto seja (ou me pareça), e até por mais que me esforce por ser simpático para com o destinatário das minhas palavras em formato electrónico.
   Não sei porquê, associo logo essas pessoas a zombies maldispostos e, no mínimo, incluo-os directamente na lista dos inúmeros malcriados que conheço e que só me falam quando precisam de mim.
   Bem... Na realidade, e para ser justo, tenho de reconhecer que, com a extrema facilidade que há em usar esse meio de comunicação, muita gente deve ser invadida com toneladas de bits de anúncios, de cadeias-da-felicidade, de verdadeiros e falsos alertas de vírus - quando não mesmo vírus verdadeiros.
   Mas, como adiante se verá, há alguns dos que, embora, pelo contrário, respondam, o fazem de uma forma divertida e que merece ser registada.
   Assim, aqui ficam (para a História do Mundo Digital que todos nós, melhor ou pior, estamos a escrever) referências a alguns exemplares que seleccionei e que me parecem muito mais interessantes do que os outros, os tais que nunca respondem.
   Ora veja-se:
   A Dra. Diplozóica, quando recebe mensagens (minhas ou não) de correio electrónico, pega no telefone ou no telemóvel (conforme o que estiver mais à mão), liga para o remetente, e (com a mensagem escarrapachada na sua frente num gigantesco monitor de cristais líquidos de 21") vai respondendo ponto-por-ponto, com a voz pausada e o espírito metódico que a caracterizam, sem admitir que a interrompam. E procede assim, mesmo que tenha como interlocutor um simples atendedor de chamadas ou um eficiente chimpanzé amestrado (que algumas empresas, devido à actual crise, já começam a usar para poupar nos custos).
   O Professor Micronésimo, igualmente pessoa sisuda e impecável, também nunca falha:
   manda uma funcionária de confiança imprimir-lhe os e-mails e, dado que tem o cuidado de, previamente, mandar formatar bem a página, responde depois por baixo, à mão, com a sua impecável caneta de aparo de ouro e a sua caligrafia mais cuidada. Em seguida, chama a Secretária mais antiga de todas e manda-a enviar a folha por telefax.
   Tendo sido sua colaboradora e aprendido com o Professor Micronésimo, a Dra. Herbanária não lhe fica atrás em sofisticação:
   As suas respostas são também redigidas por baixo de um print da mensagem que recebe, mas cuidadosamente dactilografadas pela sua assessora. Depois, a obra-de-arte é cuidadosamente dobrada em três, metida num envelope e confiada aos cuidados dos CTT.
   É só nessa fase que o processo varia: correio normal, azul ou registado (com ou sem aviso de recepção), de acordo com a importância e/ou urgência do assunto (que ela mesma classifica numa escala de 1 a 5 de acordo - segundo garante - com as normas de Qualidade ISO 9000).
   Inultrapassável, porém, continua a ser o meu velho amigo Oliveira:
   É a filha mais nova quem lhe trata do correio electrónico, pois ele continua a achar que «isso da Internet é coisa para garotos». Quando recebe alguma mensagem, começa por resmungar e coçar o pouco cabelo que ainda tem. Depois, se acha que é caso disso, lá dita a resposta, cujo português a jovem se encarrega de retocar o melhor que pode e sabe.
   Cheguei a temer que esse espírito retrógrado pusesse em perigo o seu negócio de transístores e resistências, e cheguei mesmo a atirar-lhe inofensivas piadas feitas à base de trocadilhos com a palavra «resistência». Mas ele nunca achou graça nem se dignou responder, e muito menos alterou os seus «hábitos digitais».
   De qualquer forma, talvez porque a concorrência seja tão conservadora como ele, o negócio lá vai singrando menos mal. E a prova é que, depois de abrir um novo estabelecimento na Baixa pombalina, quer agora abrir uma sucursal junto ao Marquês de Pombal!
   Ora, quer fosse por associação de ideias ou por qualquer outro motivo obscuro, vim a saber que ele queria instalar, entre as suas três lojas, uma ligação por... pombos-correio!

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