Guru e Empresário

8
Os pontos nos jj

As incríveis aventuras técnico-comerciais de Januário, o grande guru e empresário, são publicadas todas as quartas-feiras em: www.janelanaweb.com/humormedina

***

De facto, há coincidências fabulosas! Na última história contei-vos como é que uma pequena confusão entre um "L" minúsculo e um "i" maiúsculo pôde salvar o negócio que o Sr. Juvenal tinha numa praia de que era concessionário, vendendo "lodo" por "iodo"...
Pois a história de hoje, a cujo início não assisti, também tem bastante a ver com letras, como adiante se verá.
O Januário, desde que trabalha por conta própria, tem que se haver com o problema de arranjar trabalho.
Mas, a pouco e pouco, lá vai mantendo e entretendo os clientes certos, e, a partir de certa altura, a coisa entra na rotina, o dinheiro lá vai pingando, e por vezes não há motivo nem temas para alimentar estas crónicas.
Mas o caso de hoje é deveras espantoso, pelo que merece um adicional esforço de leitura...

***

Pois, um belo dia, estava o nosso amigo a comprar massinha para sopa de letras no supermercado do bairro, quando reparou numa coisa muito estranha:

Todas as letras eram maiúsculas...
E de um único tipo!

«Que sensaboria! Parecem todas feitas em fonte ARIAL» - matutou ele com os seus botões - «E se eu lançasse um negócio com fontes personalizáveis ou, pelo menos, alternativas?!»
Dirigiu-se à caixa, meteu conversa com a D. Ana Crónica, (1) e ficou a saber uma coisa muito interessante:
Tanto quanto ela sabia... as letrinhas eram só daquele tipo, pelo menos as do fornecedor habitual!
Januário coçou a cabeça, pensativo, e não reparou numa coisa extremamente importante:
É que, atrás dele, um misterioso cavalheiro de cartola escutava a conversa com atenção mais do que suspeita...
Também não reparou que foi seguido por ele até ao escritório, pelo que não achou estranho quando ouviu tocar à campainha da porta.
Abriu-a mas não viu ninguém...
«Querem ver que começou outra vez a moda de os putos tocarem às campainhas?!»
Mas uma vozinha vinda do chão chamou-o à chã realidade:
Um indivíduo incrivelmente pequenino olhava para ele, com cara de caso, e pedia para ser recebido, exprimindo-se com um nítido sotaque alemão...
Foi, evidentemente, convidado a entrar e não se fez rogado.
Tirou e deu-me para a mão, depois de muito hesitar, o enorme chapéu alto (que até aí disfarçara uma calvície completa), e apresentou-se:
- Sou o famoso Calvo Klein. Nasci na Alemanha, mas venho com frequência a Portugal. Pretendo investir aqui, e preciso de um conselheiro técnico-comercial de alto gabarito.
Januário não sabia que, em alemão, KLEIN significava PEQUENO. Por isso, limitou-se a sorrir cortesmente, a fazer um ar profissional, e a esclarecer:
- Então Vossa Excelência é que é O GRANDE KLEIN! Saiba, pois, Vossa Senhoria que está a falar com a pessoa certa!
E, conduzindo-o para a zona dos sofás, foi-me fazendo gestos para que eu procurasse qualquer coisa para projectar nas paredes que fosse alusiva ao homem...
Enquanto eu hesitava entre uns slides do Hitler e outros do guarda-redes do Bayern de Munique, o homem foi explicando mais coisas:
- Além de ser superiormente inteligente (o que me obriga a usar este chapéu alto para não se me escaparem as ideias do cérebro), eu sou medium. Tenho o dom da telepatia unidireccional.
Januário assustou-se, pois estava, na altura, precisamente a pensar quanto é que lhe poderia facturar sem roçar as raias do escandaloso.
Mas o Sr. Klein tranquilizou-o:
- Sossegue, pois nem sempre a coisa funciona… Aliás, a minha telepatia - que é essencialmente receptiva - só trabalha bem quando estou perto de uma caixa registadora. Talvez porque eu seja um homem de negócios… E foi isso que se passou quando você e eu estávamos no supermercado. Desculpar-me-á, mas foi sem querer que OUVI TELEPATICAMENTE O SEU RACIOCÍNIO sobre o fabrico de letras para a sopa com fontes personalizáveis...
Januário que, inicialmente, estava a ficar preocupado com a conversa, passou em seguida à fase da extrema curiosidade.
O homenzinho, depois de se mostrar incomodado com o fumo do cigarro do grande guru (que se apressou a apagá-lo e a guardá-lo na cigarreira "para iniciados"), continuou:
- Considere-me seu sócio, Doutor Januário… Aliás, vai ser nesse pressuposto que a minha conversa prosseguirá: De igual para igual, apesar da minha estatura inferiorizante.
O pequenino, embora nem chegasse com os pés à alcatifa, estava, pelos vistos, habituado a mandar! E tinha notado o "D-R" que o nosso amigo Januário decidira acrescentar recentemente na tabuleta da porta!
Cheirando-lhe a dinheiro fresco, Januário encorajou-o vivamente a continuar. E o outro assim fez, mostrando que estava já muito adiantado no seu ESTUDO DE VIABILIDADE TÉCNICO- ECONÓMICA da sopa de letras.
- Ainda antes de lançarmos o produto das fontes personalizáveis, vamos refinar o que já existe e fabricar as respectivas LETRAS MINÚSCULAS.
Januário comentou, entusiasmado:
- Boa! E se é para exportação têm de ser 26 letras, e não apenas as 23 que há para aí… E mais os 10 algarismos... E mais as letras gregas, e ainda os números romanos, e...
O homem sorriu, fez um ar superior, e comentou, atalhando com um gesto autoritário a verborreia do grande guru:
- Esperava de si um raciocínio mais avançado, meu caro Doutor! Esperava, por exemplo, que tivesse em conta que o "M" e o "W" são iguais, que o "Zero" e o "O" também… para já não falar nas semelhanças do "UM" com o "L", do "5" com o "S", do "2" com o "Z", etc, etc...
Tínhamos ali, de facto, um génio!
Sim, porque, no fim de contas, a ideia nascera na cabeça do Januário minutos atrás, e afinal o desenvolvimento respectivo estava já a ser feito pelo outro, e com total brilhantismo!
(Lembro-me de que, na altura, reprimi alguns pensamentos acerca de brilhantina e de carecas pois foi mesmo nesse momento que desencantei um slide do Einstein para projectar na parede).

***

Depois, e durante algum tempo, não ouvi falar do homem.
Soube apenas, pela D. Rosa, que ele mandara vir da Alemanha máquinas e moldes para o fabrico das massinhas e que a coisa estava a andar...
«Isto vai dar umas massas...» - parece que comentava o nosso amigo, quando a encontrava, esfregando as mãos de contentamento como se tivesse frio.

***

Ora um belo dia, quando menos se esperava, a campainha da entrada repenicou.
O toque era o do Herr Klein, e denunciava grande ansiedade...
Januário abriu a porta, o homenzinho passou-lhe por baixo das pernas e, recusando sentar-se e até mesmo a tirar o chapéu, foi direito ao sofá e ao assunto, extremamente nervoso:
- VOCÊ esqueceu-se dos acentos! VOCÊ só fez letras para o mercado de língua inglesa! VOCÊ esqueceu-se dos acentos, dos "C" com cedilha, e de coisas assim...
Januário estava siderado! Nunca pensara nisso!
Mas empertigou-se e respondeu com o maior sangue-frio:
- Eu sei, meu caro e extremoso sócio! Mas foi de propósito! Todo o meu negócio, como qualquer boa start up que se preze, está concebido em torno de uma solução informática de nova geração! O Windows que se vende mais também é o da versão inglesa, isto para já não falar no Linux!
«Esta do Linux foi muito bem metida!» - pensei eu - «E o que é que uma coisa tem a ver com a outra?!».
Mas o Januário estava imparável:
- Como sabe, o LINUX é produzido por uma firma resultante da fusão dos champôs LINIC com os sabonetes LUX. Portanto é muito mais eficiente para nos lavar o cérebro do que o Windows. Mas eu uso ambos os Sistemas Operativos, sem quaisquer preconceitos de raça, origem ou religião.
Eu estava siderado! Com que pinta o grande Januário tomava o controlo da situação e falava de coisas de que não percebia patavina!
E, como se fosse pouco, prosseguiu, cruzando as pernas e recostando-se no sofá, com ares de grande senhor:
- Recapitulando: todo o processo se desencadeou a partir do momento em que EU (repito: EU) descobri que as letras vendidas nos supermercados eram ARIAL. Tudo isto (massinha de letras, fontes, Windows, Linux e software) está relacionado entre si. E o MEU sistema operativo - quer o do MEU computador quer o do MEU cérebro - são anglo-saxónicos, com uma pitada de Macintosh na sua versão alemã. Julguei até que o senhor apreciasse, dadas as suas origens!
O homem calou-se... engolia em seco!
Eu andava a desconfiar que o homenzinho procurava apenas um pretexto para não pagar ao Januário o que lhe devia… Ou, se calhar, preparava-se para lhe pagar em letras...
E mais me convenci quando ele comentou, mas já sem grande energia:
- E os pontinhos?! Sim, e os pontinhos dos "j" e dos "i"?! O que é que me responde a essa falha SUA?!
Era nítido, agora, que o homem estava de má fé (ao assacar ao grande guru a responsabilidade total para uma falha daquelas), pois na Alemanha também se usam os "j" e os "i"...
Mas isso era não conhecer o nosso grande empresário!
Januário levantou-se, deu umas voltas pela alcatifa, fungou, pigarreou, voltou a sentar-se, acendeu calmamente o seu cigarrito recuperado (ignorando provocadoramente a cara horrorizada do Herr Klein), e atirou-lhe com esta, à mistura com uma densa baforada de fumo:
- Caro sócio, aqui na casa quem põe os pontos nos ii sou EU. E o que me diz ao "u" com trema, que é um caractere tipicamente alemão?! Hem?! O SENHOR LEMBROU-SE?! De qualquer forma, tenho já solução para isso tudo!
E, fingindo-se bastante agastado, levantou-se, mostrando assim ao outro que, por esse dia, dava a conversa por encerrada!

***

Pouco depois, as lojas eram inundadas com saquinhos de massinha em fontes Times New Roman, Geneva e Courier.
E, ao lado, saquinhos mais pequenos, SÓ COM PONTINHOS e com uma etiqueta:
«PATCH» (2) !!
A história até podia acabar aqui, que já estava suficientemente interessante. Mas ainda continuou:

***

Um belo dia, quando o Herr Klein e o Januário observavam, deliciados, a caixa registadora do supermercado da Ana Crónica a funcionar ruidosa e exaustivamente - devido à novidade das massinhas alternativas - o cavalheiro virou-se para o grande guru e comentou:
- Essa de VOCÊ ESTAR A PENSAR que eu sou "o vigarista das massas", está bem apanhada, caro Doutor! Mas olhe que não estou a querer eximir-me ao pagamento do que lhe devo!
Januário ficou atrapalhado... Que grande gaffe!
O outro explicou:
- Não se esqueça que a minha telepatia funciona especialmente bem quando estou perto de caixas registadoras, como é agora o caso...

***

Na verdade, as histórias do Herr Klein ainda se prolongaram por algum tempo. Mas apenas referirei, para terminar, o jantar que ele deu, em sua casa, para comemorar o êxito dos nossos negócios!
Claro que a sopa, como não podia deixar de ser... era de letras...
Mas passou-se uma coisa muito esquisita:
Apesar de ele ser o anfitrião... nunca mais acabava de a comer!
E já todos nós - eu, o Januário, a Ana Crónica e a D. Rosa - nos torcíamos com fome, e ainda o Herr Klein, como bom alemão para quem a disciplina é uma autêntica religião, procurava comer a sopa… POR ORDEM ALFABÉTICA!



(1) Tratava-se de uma simpática senhora, dona de um supermercado, e referida frequentemente nas aventuras do Jeremias, acessíveis neste mesmo site.
(2) Um patch é um pequeno programa, feito propositadamente para corrigir ou melhorar outro anterior.
Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte