Guru e Empresário

7
Os pontos nos ii

As histórias do Januário são publicadas todas as quartas-feiras em www.janelanaweb.com/humormedina

***

Julgo que ainda não vos contei que, quando chegou o mês das férias, eu e a D. Rosa aceitámos a previsível oferta do Januário para irmos trabalhar com ele.
Fui promovido a vice-presidente temporário da empresa, e a D. Rosa acumulou as funções de secretária particular com as de Chefe do Secretariado.
O facto de ela mal saber ler nem escrever não era óbice, pois, apesar de tudo, ainda sabia o suficiente para envergonhar muito vaidoso que por aí anda... E o que mais há para aí são analfabetos e analfabetas bem sucedidos na vida...

***

Ora, um belo dia, fez-se anunciar no nosso escritório um tal José Juvenal, pessoa rude, de modos simples e pele extremamente tisnada pelo sol.
Talvez pescador... talvez camponês...
Em breve o saberíamos.
O homem entrou, envergonhado e tímido, como que pedindo desculpa por nos maçar, e começou por puxar do porta-moedas perguntando se era preciso pagar adiantado!
Bem... se ele tivesse puxado da carteira ou do livro de cheques, talvez o Januário tivesse aceitado...
Assim, começou por desconfiar (e nós com ele...) que o cliente não iria ser grande coisa em termos comerciais...
- No Inverno sou pescador e no Verão sou concessionário de uma pequena praia - começou o homem, depois de se sentar na beirinha do sofá. - E o meu negócio vai de mal a pior...
Tínhamos ali, portanto, aquilo a que se chama um banheiro...
Fiz mentalmente um trocadilho rápido, em que entrava a palavra banhada, mas recompus-me, sacudi a cabeça, e esforcei-me por lhe dar mais atenção.
Em pé, atenta e de bloco na mão, a D. Rosa, compenetrada nas suas novas e importantes funções, tomava os necessários apontamentos...
- A coisa vai de mal a pior...- continuou o Sr. José, em tom choroso - Primeiro, o mar levou a areia quase toda. A seguir, veio um fogo e destruiu a mata que havia ali ao pé e para onde as pessoas iam quando o calor apertava. Ultimamente, veio uma praga de algas. E, para ajudar à festa, uma indústria de curtumes desatou a vazar os esgotos para a água, enchendo com lamas e mais lamas a pouca areia que ficou...
- E cheira mal? - quis saber o Januário.
- Até fede, senhor! Aquilo fede como só Deus sabe! - Foi a resposta que o Sr. Juvenal deu, tapando o nariz com o indicador e o polegar para reforçar a afirmação.
- Hum... Há para aí um programa qualquer da C.E.E. que é o FEDER... Será para estes casos?! - Perguntei eu, baixinho à D. Rosa, que está dentro destas coisas.
Mas ela torceu o nariz, dando-me a entender que não.
A situação era, portanto, desesperada. Iríamos, decerto, ajudá-lo a recorrer para as autoridades competentes, mas a coisa ia demorar tempo, e a época balnear não se compadecia com tais delongas.
Januário pensou... pensou... e perguntou, por fim:
- Ó Sr. Juvenal, mas o mar está lá, não está?
O homem estremeceu, e abespinhou-se um pouco, pensando que o estavam a gozar. Mas, ao ver o ar sério do meu novo e temporário patrão, conteve-se, retomou a compostura, e respondeu, baixinho:
- Claro. O mar e as algas são as únicas coisas que ainda restam...
- Então, se há mar e algas... há iodo! E você é o feliz concessionário de uma praia altamente especializada! Uma praia só com iodo para oferecer! Não se dispersa com mais produto nenhum!
Januário estava ufano, e exibia aquele ar vitorioso que caracteriza os actuais empresários de sucesso quando acham que descobrem o verdadeiro suco da banha-da-cobra.
- É mais um nicho de mercado... - Comentei eu, também inchando o peito, para mostrar que estava a perceber onde ele queria chegar.
- Vamos, então, tratar do que lhe falta: publicidade! E terá que ser bem agressiva!
E passou a ditar para a D. Rosa:
- Anúncio em todos os jornais do país: "O MELHOR IODO DE PORTUGAL É NA PRAIA DO JUVENAL!".
A senhora lá escreveu como pode, e deu o papel ao banheiro, depois de lhe perguntar se Juvenal se escrevia com G ou com J.
O homem não respondeu, mas agradeceu, e disse que ia dali direitinho à agência mais próxima colocar o anúncio...
- Paga-me depois, se a coisa correr bem. - Condescendeu o Januário quando, mais uma vez, o viu puxar do porta-moedas para pagar a consulta.

***

Mas aconteceu que, poucos dias depois, o Sr. Juvenal entrou pela porta adentro, esfuziante de alegria. Trazia a mulher e os sete filhos, e todos vinham agradecer o nosso trabalho, que se propunham pagar com um magnífico presunto e um garrafão de vinho verde! (1)
- A praia agora está cheia, mas acho que não é bem por causa do iodo... O pessoal aparece lá em excursões, e atira-se para dentro daquelas lamas que a fábrica deita para a praia... Esfregam-se, besuntam-se com aquela porcaria... eu sei lá! Não percebo porquê, mas também não lhes pergunto... Deve ser moda... O pessoal gosta, anda feliz, gasta o dinheiro na minha tasca... e isso é que é preciso...
Estávamos perplexos... Mas o Sr. Juvenal fez luz no nosso espírito:
Mostrou-nos um jornal com o anúncio salvador, e notámos uma coisa preocupante:
Tendo o manuscrito sido gatafunhado pela D. Rosa (que nunca mais dominava o processador de texto), e sendo o nosso cliente analfabeto, já era de prever que pudesse haver alguma surpresa...
Ficámos a saber, pelo anúncio, qual a praia onde havia...

... O MELHOR LODO DE PORTUGAL!



(1) Esta referência ao tipo de vinho esteve para ser abolida. É que, sendo o vinho verde um produto do norte, nunca se sabe que raio de reacções regionalistas pode uma história destas despertar... Mas consolemo-nos: a culpa foi da D. Rosa, que é do sul...
Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte