Guru e Empresário

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Ideia Chocante!

As histórias do Januário são publicadas todas as quartas-feiras em www.janelanaweb.com/humormedina

***

Rápida explicação para os leitores que não têm a felicidade de morar em Lisboa ou arredores:
Esta cidade foi, há algum tempo, presenteada com uma razoável quantidade de painéis luminosos, extremamente brilhantes, que pretendem afixar documentários entrecortados com publicidade.
Ou, mais provavelmente, vice-versa.
Logicamente, os cérebros de tão brilhante ideia procuraram os sítios de maior movimento para os colocarem.
Mas não contaram que, pairando MUITO acima dos deles, estava já o cérebro do nosso Januário, o grande empresário!
Pois este génio continua imparável no que toca a ideias e negócios depois de ter cedido ao apelo lancinante do «Despeça-se já!» (popularizado por aquilo a que ele chama «certa imprensa do management-de-meia-tijela que por aí circula...»)


Quando, um belo dia, o Januário parou o automóvel ao pé da paragem do autocarro, já nem sequer estranhámos o facto de agora ser um BMW... «...cor-de-rosa, claro! Que é o que está a dar!»
Embora de pré-antepenúltimo modelo e com um "K" (1) na matrícula, parece que já estava pago (ao contrário de muito garboso veículo que por aí circula) e serviu às mil-maravilhas para eu saber o que é a gente sentar-se num carro bom.
O próprio facto de ele estar a evoluir automobilisticamente levava-me a confiar que os negócios estavam a seguir a mesma tendência, indo de vento-em-popa. (Ele gostava de dizer que era por isso que deixava crescer o cabelo à frente, confundindo "popa" com "poupa"...). E não me enganava muito, como hoje veremos.
Ora, de chofre, e quase sem me deixar tomar o gosto ao meu repimpanço, ele perguntou-me se eu tinha bons conhecimentos de novas tecnologias.
Respondi-lhe a verdade, que ele até já estava farto de saber:
«Aprendo o que me ensinam, faço o que posso, desenrasco-me o melhor que consigo com o Windows... mas não sou entendido em coisa nenhuma».
- Deixa lá essa porcaria das informáticas! Quanto a windows, só me preocupa esta aqui, que nunca consigo fechar... Eu quero saber é se tu percebes alguma coisa de RÁDIOS!
Referia-se, como me esclareceu em seguida, a rádios-EMISSORES, o que, para ele, já eram altas tecnologias («Basta ver a altura a que os gajos metem as antenas»)
- Qualquer coisita, sim... - respondi-lhe, parecendo-me que a seu contento - Em miúdo entretinha-me muito com isso.
Depois de esclarecidas essas e outras questões (que foram feitas pelo caminho), foi a minha vez de lhe perguntar qual o motivo delas todas.
- Espera um pouco, que já vais ver. Lembra-te que a curiosidade matou o burro.
Eu nunca tinha ouvido esse provérbio, mas, além disso, comecei a estranhar uma outra coisa:
Em vez de - como já ia sendo hábito - nos dirigirmos para o seu "escritório", estávamos agora a sair da cidade!
Pedi explicações, fiz até uma cara um pouco irritada face à ausência de resposta, mas o grande guru nada mais disse...

***

Chegámos, por fim, a uma rotunda. Contornámo-la, e começámos a andar ali às voltas, muito lentamente, estorvando meio-mundo visto que era hora de ponta...
Ele, então, depois de dar duas cuspidelas pela tal janela entreaberta, lá explicou:
- Sabes? O mal todo é que o trânsito hoje até está bom.
Que raio de frase! Mas ele lá coçou o nariz, e clarificou as ideias enquanto tirava um macaquinho da narina esquerda:
- Chegámos muito cedo. Vamos ter que esperar um pouco e ficar aqui a dar uma voltitas para fazer horas.
- Chegámos?! Mas chegámos aonde?! - Quis eu saber, cada vez mais aborrecido com tanto mistério. Mas o Januário estava concentrado na sua própria concentração (como ele dizia), acendia cigarro após cigarro, e não tirava os olhos do relógio!
Então, pouco antes das nove horas, apagou a beata, guardou-a na cigarreira de prata onde mete os cigarros já começados, acelerou, deu uma derradeira volta à rotunda fazendo-o quase em duas rodas e saiu daquela zona deixando os basbaques da Brigada de Trânsito a olhar para nós...
E entrou, com os pneus a chiar, na auto-estrada de regresso à cidade, tomando o sentido inverso ao que havíamos seguido alguns minutos atrás!

***

Ao fundo, lá muito ao longe, e já mesmo às portas do burgo, via-se agora um enorme placard luminoso, exibindo pequenos filmes e muita publicidade.
Aproximávamo-nos dessa coisa, e Januário chamou-me precisamente a atenção para ela:
- Está com atenção aqueles bonecos. O segredo-da-batata é chegarmos ao pé daquela chungaria quando forem exactamente 9 horas e 5 segundos. É a essa hora que a coisa acontece, todas as quintas-feiras.
Eu estava parvo!
Coisa?! Mas que coisa é que aconteceria às 9 horas e 5 segundos das quintas-feiras?! O que é que poderia suceder de extraordinário, à parte passarem 5 segundos da hora-limite para eu picar o ponto?! Mas tínhamos o rádio ligado e o sinal horário começou a ouvir-se...
- Olha agora para o placard... Não tires tu os olhos dessa porcaria, que agora toda a atenção é pouca para eu guiar!
Assim fiz.
De facto, com uma precisão espantosa e ao dar o último apito do sinal horário, uma chuva de estrelinhas no écran prefaciou um delicioso anúncio de lingerie em três dimensões...
E foi nessa altura que o Januário me tocou no braço e comentou, nervoso:
- Isto nunca falha! Agora agarra-te bem e não te assustes!
Guinou bruscamente para a berma da estrada e, mal ele tinha proferido aquelas palavras quando uma série de estrondos e estrelejar de vidros partidos fizeram anunciar um gigantesco choque em cadeia que não nos afectou...
- Isto é assim todos as quintas-feiras a esta hora.- Esclareceu, calmamente, desligando o motor e compondo a gravata.
- E o que é que eu posso fazer? - Perguntei, siderado, olhando em volta todo aquele pandemónio.
- Bem... Eu estava a pensar pôr a uso as tralhas que deve haver na cave lá da minha loja... Pode ser até que o Oliveira, apesar de reformado, nos queira ajudar (2)...
Eu cada vez percebia menos! À minha volta só via indivíduos aos insultos, e a única excepção era um padre velhinho e careca que apenas dizia, baixinho e olhando para o céu: «Porquê, meu Deus?! Já é a sexta vez! Porquê, meu Deus?! Já é a sexta vez!».
Mas Januário mantinha o cérebro frio.
Saiu do carro, em grande estilo, sacou de um cigarrito da cigarreira de prata («só para iniciados»), pediu lume ao tal padre (que continuava com a mesma conversa (mas agora já dizia «Porra, meu Deus!»), e voltou calmamente para a viatura, pigarreando e compondo o casaco.
Alheio a toda a balbúrdia que se desenrolava à nossa volta, apontou para o gigantesco écran e dignou-se, por fim, a explicar:
- A ideia é tu arranjares um emissor que faça interferências naquele placard que provoca esta porcaria toda...
Eu?! Então o Januário estava a querer envolver-me, a mim, numa ilegalidade dessas?!
Mas, já agora, e como a intenção parecia boa, eu quis confirmar:
- Para quê? Queres sabotar a publicidade da lingerie e proteger os incautos automobilistas libidinosos?
- Nada disso! É para meter, logo a seguir à parte dos soutiens, dois anúncios-piratas...
E mostrou-me os cartões de visita dos seus dois novos clientes: um tal ABC e um tal RR (Abílio Bate-Chapas e Roque dos Reboques)! (3)



(1) Em tempos Portugal recebeu uma remessa de carros importados a quem foi aposta uma matrícula com um "K" bem escarrapachado.
Assim, toda a gente ficava a saber que o aparente ricaço que se passeava com um Mercedes meio-novo afinal era um pelintra como os outros que o comprara em terceira-mão... nos sucateiros de Berlim...
Atendendo a numerosos pedidos de gente com esse problema, as matrículas com K acabaram.
Resta, aos remanescentes, a consolação de pensarem que "quem tem K sempre escapa"...
(2) Recorda-se que o escritório do Januário funcionava na loja que pertencera em tempos a outro "empreendedor" de alto gabarito: O Sr. Oliveira, grande defensor do comércio tradicional, e cujas aventuras se podem ler em: www.centroatl.pt/medina.
(3) Personagens do livro «Desventuras com Telemóveis», disponível em: www.janelanaweb.com/humormedina no capítulo "Oficina".
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