Guru e Empresário

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Negócio a-riscado

Ver o início das aventuras de «Januário, Guru e Empresário» em: www.janelanaweb.com/humormedina

***

Explicação prévia para os leitores que não residem em Portugal:
De há algum tempo para cá o nosso país viu-se invadido por uma gigantesca troupe de jovens com ar sonolento que a si próprios se atribuem a função de arrumadores de automóveis.
Mesmo quando haja 200 ou 300 lugares disponíveis, decerto um desses prestáveis moços lhe indicará o melhor deles todos para você estacionar a sua viatura.
Esse serviço é suposto ser recompensado com uma (ou mais) moedas que você deverá desembolsar com semblante prazenteiro e ar agradecido, pois a probabilidade de o seu carro aparecer riscado com um prego no caso contrário é bastante elevada.
Januário, como atrás se referiu, também pagava a sua taxa ao Malaquias, o responsável ali da zona (1). Mas havia um motivo muito forte para esse relacionamento ser tão cordial, como hoje se verá...


No meio de toda aquela barafunda que eram, afinal, as incríveis consultas do Januário, houve uma coisa que, a partir de certa altura, me começou a fazer imensa confusão:
Foi quando ouvi dizer que, ultimamente, lhe apareciam estranhos clientes a propor mirabolantes negócios... e que, em vez de lhe pagarem, ainda queriam ser patrocinados por ele!
Achavam que, sendo o Januário um perito em gestão e em negócios de ponta, decerto se relacionava intimamente com capitalistas de bolsa recheada.
E, de facto, o nosso amigo acabou por ter que dedicar bastante tempo à pesquisa dos anjinhos da massa, tradução mais ou menos à letra dos business angels de que tanto ouvia falar (2).
Mas o certo é que os verdadeiros anjinhos andavam arredados ou eram cada vez mais raros, e os que circulavam nos meios dos negócios ainda mais difíceis eram de encontrar.
Daí a minha perplexidade quando, um dia - das poucas vezes em que agora assistia ao vivo às suas sessões - o ouvi dizer a um cliente desses:
- Estou tão confiante nesse negócio das embalagens que eu mesmo entro com uma boa parte do capital...
Tratava-se de um estranho negócio, e o cliente era, desta vez, um tal Coronel Reboredo, simpático octogenário, de bengala debaixo do braço e espírito bastante vivo.
O raciocínio do distinto cavalheiro era simples:
Cada três embalagens de 33 centilitros que por aí se vendem perfazem 99 centilitros. É evidente que alguém se anda a abotoar com o centilitro em falta, e ele propunha-se ganhar dinheiro com esse 1%.
A história, que noutro lado se conta (3), até parecia indiciar um negócio com pés para andar, pelo que o Januário se decidiu a aceitar sociedade.
E o problema estava precisamente aí...
É que o nosso Coronel não tinha nem um tostão para investir!
Coçando o nariz, o grande guru concluiu:
- Vou então ter que consultar o meu banco ou o meu financiador... Amanhã dou-lhe uma resposta, senhor Coronel.
Banco?! Financiador?! Então ele tinha um capitalista por trás?! Grande novidade!
Mas, quando o visitante saiu, pegou no telemóvel e marcou um número rapidamente.
- Podes vir aqui num instante? Então despacha-te e traz o saco!
E foi perante os meus olhos esbugalhados que o Malaquias, o arrumador de automóveis ali da rua, apareceu.
Trazia na mão um saco, de flanela azul e de razoáveis dimensões, e via-se bem, pela forma das protuberâncias inconfundíveis, que eram moedas o que lá vinha dentro...
- Ainda não te apresentei devidamente o Malaquias, o gajo com mais massa aqui da rua... - disse o Januário com toda a naturalidade.
Passaram-me pela cabeça, rapidamente, histórias de outros sacos-azuis, mas nada disse e limitei-me a fazer um sorriso forçadamente simpático...
O rapaz levou a mão à pala do boné em jeito de displicente cumprimento e, sem uma palavra, pousou o saco em cima da mesinha baixa que ficava entre os dois sofás de napa verde.
Depois, meteu as mãos nos bolsos, fungou, e ficou à espera.
Januário ofereceu-lhe um cigarrito (em tempos já começado e apagado), acendeu outro semelhante para si, e começou, com voz pausada:
- Olha lá, ó meu...
Mas, para minha máxima surpresa, o fedelho atreveu-se a corrigir:
- MEU, não! Já lhe disse que o correcto é TEU!
Fiquei perplexo! Que raio de conversa!
Mas o nosso guru, rindo, explicou-me:
- É uma brincadeira só nossa! MEU são as iniciais de Master em Estacionamento Urbano... E ele considera-se um simples Técnico...
Nada disse. Toda a minha energia estava concentrada em tentar fechar a boca!
E o garoto continuou, exibindo um enorme prego:
- Pois é, Doutor Januário, a coisa agora já começa a dar umas massas para investirmos... Estava-me a custar, mas lá teve que ser. Foi mesmo preciso passar a riscar os carros à malandragem que não me pagava.
Fez-se luz no meu espírito!
Ah! Agora sim! Então isso que ele trazia no saco é que era o verdadeiro e genuíno CAPITAL DE RISCO! (4)



(1) Malaquias, além de já ter sido referido numa destas crónicas, também foi citado no texto "Especialidades" em: http://zonanon.com/plural/humor002.html
(2) Business angels é mais um desses palavrões de gestão que por aí agora circulam nos meios do management, a par de start-ups, franchisings, spin-offs e coisas dessas...
(3) Trata-se de um incrível negócio descrito na história «O Centilitro Roubado» em www.digito.pt/caderno/cad52.html
(4) É para isso que há os chamados Seguros Contra Todos os Riscos.
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