Guru e Empresário

4
A Liga... Dura

Resumo do episódios anteriores (1):
Januário, "jovem empresário" na casa dos 50 anos de idade, estabeleceu-se por conta própria e agora vende ideias e palpites.
Desta vez propõe-se ajudar velhinhas a...


-Olha lá, tu já ouviste falar em jobs for the boys?! - Fora, nesse dia, a pergunta que o Januário me pusera ao telefone.
Sim, ao telefone!
Porque, ultimamente, eu já começava a ter problemas no emprego com as minhas prolongadas, sucessivas e injustificadas ausências, e passara a recusar-me a acompanhá-lo à loja por tudo e por nada.
Mas ele, reconhecendo em mim uma utilidade que nem eu próprio suspeitava ter, telefonava-me agora com frequência, às vezes só para desabafar.
E, neste caso, é claro que eu já ouvira falar nos jobs for the boys. A que propósito é que isso vinha agora?
Mas o Januário esclareceu-me rapidamente:
- Com isto das eleições trata-se de explorar um verdadeiro nicho de mercado! Aliás o mais seguro de todos, se se tiver sorte... E agora com essa história das quotas para mulheres, a coisa melhora um pouco para elas... (2)
E o que é que o Januário beneficiava com isso?! Se a sua ideia era (ao que tudo indicava...) arranjar um job para si, então agora é que eu não percebia nada!
Mas ele desvendou o resto do mistério:
- Apareceu-me aqui ontem uma distinta velhinha a perguntar se eu tinha algum conselho para lhe dar no aspecto da política... Falámos do assunto, trocámos umas ideias, e a expressão veio à baila... Claro que ela se queixou da falta dos jobs for the girls...apesar de terem inventado aquela coisa incrível do Ministério para a Igualdade!!
- E o que é que eu posso fazer? - Perguntei, sentindo que a coisa começava a fazer sentido, e demonstrando que a história me começava a interessar.
- Se queres que te diga, ainda não sei... Aliás, telefono-te só para trocar umas ideias... Nestas alturas é que me fazem falta as conversas com a D. Rosa! Mas, de qualquer forma, já começo a ter umas luzes acerca do que hei-de propor à senhora...
E foi assim, acompanhando o desenrolar da novela pelo telefone, que vim a saber que uma tal D. Portalina, atacada por serôdias ambições políticas, receava que nem à custa da lei das quotas conseguisse entrar para um cargo político-partidário.
E fora aí que entrara o apurado senso de guru do nosso amigo, que desembrulhara a ideia genial que lhe valera um chorudo cheque:
FORMAR UM PARTIDO NOVO!
Aconselhara a D. Portalina a aproveitar o seu estranho mas sonante nome, juntamente com a actual fúria dos portais (3), para se lançar no mercado da política... e pela porta grande!
E foi assim que a D. Portalina fez os possíveis e os impossíveis para juntar as assinaturas necessárias para legalizar o partido.
Mas havia alguma coisa que parecia correr mal: quando ela se propunha explicar o programa respectivo, as pessoas (especialmente as mais velhas - onde ela procurava, precisamente implantar a sua base de apoio) afastavam-se, discreta mas resolutamente.
Afinal, parece que o problema não era propriamente do partido, nem da falta de espaço político, nem do facto de ela ser mulher... e muito menos do programa, dado que pouca gente se dispunha a lê-lo ou sequer a ouvi-lo.
- Pensei que talvez o problema estivesse na forma de ela vender o produto... - Explicou-me o Januário. E continuou:
- Lembras-te da história do outro megalómano que se gabava de conseguir vender sabonetes e Presidentes da República (sic)?
Quem não se lembrava?!
- Pois é. Mas a publicidade, mesmo feita por um artista desses, pode não chegar, quando o produto não é grande coisa. E talvez faltasse à senhora a agressividade que só a autoconfiança pode dar...
Vim então a saber que o nosso amigo se decidira a segui-la, para a observar, ao longe, nas suas acções de rua. E poder vir a propor-lhe as melhorias que se viessem a revelar necessárias e aconselháveis.
E foi depois de muito calcorrear atrás da velhinha que se fez luz na cabeça do Januário!
A luz acendeu-se-lhe no cérebro quando assistiu à cena em que um brasileiro se virou para a D. Portalina e comentou, rindo à gargalhada:
- Corta essa, dona! Será que a senhora não tá vendo?! Todo o mundo enxerga que o seu partido é uma droga!
Era isso! O mal - quem diria! - estava, afinal e apenas, nas iniciais do glorioso partido: Liga Social Democrata...



(1) Ver: www.janelanaweb.com/humormedina/januario1.html, www.janelanaweb.com/humormedina/januario2.html e www.janelanaweb.com/humormedina/januario3.html
(2) «A Quota... Parte» em www.digito.pt/reboredo
(3) Estes portais nada tem a ver com os senhores Paulo nem Miguel Portas.
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