Guru e Empresário

3
Esquerda, Volver!

Resumo do episódios anteriores (1):
Januário, "jovem empreendedor" na casa dos 50 anos de idade, foi sensível ao famoso grito-de-guerra do "Despeça-se já!":
Despediu-se.
E aqui o vemos, agora por conta própria, a vender ideias e palpites, transformado em guru-de-meia-tijela. Desta vez, porém, Januário vai mais longe: Propõe-se investir numa grande ideia!


Tornavam-se cada vez mais frequentes as vezes que o Januário me chamava para o ajudar. A ponto de eu começar a encarar com bons olhos a possibilidade de ir trabalhar com ele logo que a oportunidade se propiciasse.
Bem... as férias aproximavam-se, e ia ser uma boa altura.
Um belo dia, estava eu na paragem em amena conversa com a D. Rosa, quando o vi fazer uma inversão de marcha sobre o traço contínuo com o à-vontade de quem julga que pode fazer o que quer quando o dinheiro não lhe falta...
E ali tínhamos o nosso amigo a abrir-nos a porta do carro, (2) a convidar-nos para entrar, a acelerar em seguida até à Makro-Teknika onde deixou a prestimosa senhora, e a desembestar depois pela cidade fora até só parar na sua loja. Quando assim era, não precisava de explicar nada:
O Januário necessitava de mim para impressionar algum cliente ou, simplesmente, para o secretariar.
- Hoje vamos receber o Professor Belgrado, um candidato a empresário até há pouco tempo vice-presidente da UCALU (3), a poderosa União dos Canhotos Lusitanos. Caiu em desgraça, coitado... Mas ele nunca me disse porquê. Agora anda a lutar pela vida, como eu. E, apesar dos seus 65 anos, diz que quer ser jovem empresário.
- Ah... canhotos? E a associação é de esquerda? - Perguntei eu, influenciado pelas recentes eleições, mas arrependendo-me de imediato da parvoíce proferida.
Não tardou muito até ter o prazer de conhecer o dito cavalheiro.
Ruivo, de óculos extremamente graduados, gorduchinho e de nariz arrebitado, entrou pelo escritório adentro como se estivesse em sua casa, não me cumprimentando nem dando qualquer valor aos modos gentis com que eu lhe abri a porta e o anunciei ao anfitrião.
Mais a mais, eu até envergava na altura uma bonita casaca e um nobre lacinho azul, que o Januário comprara na Feira da Ladra para me valorizar o visual aquando do exercício das minhas novas e nobres funções!
Como percebi pelo excessivo à-vontade dele e pela forma respeitosa como foi recebido, as visitas do Professor eram frequentes e importantes, a ponto de o Januário ter tomado, atempadamente, uma precaução requintada:
- Tendo em conta que o homem é canhoto, e em sua atenção, vai ser preciso inverter todos os slides que temos aí para projectar...
Entre eles havia, por acaso, um retrato de Leonardo da Vinci (4). E foi assim que, porventura o canhoto mais famoso da história da humanidade, passou a incorporar a legião dos destros...
Mas adiante.
O essencial da história era que o dito senhor pretendia explorar um fabuloso nicho de mercado: Os produtos para pessoas como ele.
- Só quem é canhoto é que compreende a dificuldade em viver num mundo povoado maioritariamente por destros! - explicava - Mas com a sua ajuda, Dr. Januário, a situação vai mudar! E vamos os dois ganhar rios de dinheiro!
Fiquei banzado! Que história era essa de Doutor Januário?!
Mas eu já estava por tudo...
Ele e o cavalheiro debruçavam-se, agora, sobre um monte de folhas com desenhos. Eram projectos e mais projectos de materiais para canhotos!
- O Professor está então de acordo que retomemos o processo de patente das chávenas para canhotos? - Perguntou o grande guru.
Mas uma nuvem de desânimo pareceu, de súbito toldar a face do simpático cavalheiro:
- Sim, claro... O problema é o financiamento... Dantes era tudo mais fácil, quando eu era vice-presidente da UCALU e tinha acesso às verbas e aos centros das grandes decisões...
E uma lágrima rebelde perlou-lhe o canto do olho.
O Januário, dando umas amáveis palmadinhas no braço do cavalheiro (como que em busca de uma certa cumplicidade) perguntou, baixinho:
- Mas pode-se saber, ao menos, porque é que o Professor caiu em desgraça? Ou é segredo?
- Fui acusado repetidas vezes, pelo Presidente, de ser um incompetente! Quando, afinal de contas, era ele mesmo que passava a vida a dizer que eu era... o seu braço direito!



(1) Ver: www.janelanaweb.com/humormedina/januario1.html e www.janelanaweb.com/humormedina/januario2.html
(2) Desta vez, era um Rover, só com 5 anos. Também cor-de-rosa, pois «É a cor que está a dar!» (sic)
(3) O nome inicial era UCAL, mas houve um qualquer impedimento que não interessa para a história.
(4) Na realidade não era por acaso. O slide existia desde o tempo do antigo dono da loja, o criativo Sr. Oliveira que, sentindo-se um génio, gostava de imagens associadas à genialidade. A ideia que Januário tinha de si mesmo também não se afastava muito dessa, pelo que nunca retirou da parede do fundo um enorme cartaz com a foto de Einstein.
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