Guru e Empresário

21
A in... formação

Apresentação (*):
Januário não será um jovem empresário mas é, sem dúvida, um Empresário da Nova Geração na medida em que aderiu, com o entusiasmo possível, ao novo grito do Ipiranga do "Despeça-se já!".
E aí o temos, na sua micro-empresa onde é Rei e Senhor, sempre cheio de ideias e genica, a desencantar oportunidades de negócio que a mais ninguém lembrariam!
Quanto a mim, embora mantendo o meu emprego das 9 às 17h 30m na Makro-Teknika, ajudo-o sempre que posso e na medida do pouco que sei.
A D. Rosa, funcionária superiora da limpeza na Makro-Teknika, tem, na firma do Januário, um segundo emprego a que corresponde uma ascensão social considerável: é a Secretária Particular do Grande Empresário.
Anda agora a aperfeiçoar os actos de ler e escrever, no que tem feito progressos notáveis.

***

- Vou lançar-me na Formação! - anunciou-me, um dia destes, o meu amigo Januário, num daqueles telefonemas-surpresa que faz para o meu emprego (e que, não poucas vezes, me criam problemas com a hierarquia que vai a passar no corredor e se apercebe de que a conversa não é de serviço).
Perante o meu silêncio, explicou:
- Não dizes nada? Se calhar é porque não podes falar. Mas não faz mal, que eu falo pelos dois. Ouve só com atenção.
E passou a explicar, tão eufórico que nem se preocupava com o facto de, muito possivelmente, estar a ser inoportuno.
- Vou pôr a uso o pátio das traseiras. Cabem lá umas cinco ou seis cadeiras e uma mesa para o computador.
- Boa! - respondi - Formação em informática? E quem é que vai dar as lições?
Satisfeito por ver que, afinal, eu podia conversar, esclareceu:
- O formador vou ser eu. E o meu mercado-alvo são alguns dos grandes gestores portugueses! Vou ensinar-lhes os rudimentos da Informática e da Internet!
Fiquei siderado. Mas a ideia era de génio:
Portugal está pejado de gestores que não sabem ligar um computador e - o que é pior - têm vergonha de o confessar...
Os prejuízos que esse estado de coisas provoca ao país (e às empresas pelas quais esses indivíduos são responsáveis) são gigantescos, numa altura em que estar minimamente a par das novas tecnologias é uma questão de sobrevivência para a maioria das empresas. Mesmo para uma quase de vão-de-escada, como é o caso da do meu amigo.
Portanto, e mais uma vez, o grande Januário descobrira um fabuloso nicho de mercado!
Pelo que vim a perceber, a sua ideia era "descer até ao nível de conhecimentos desses colegas", e mostrar que era possível (como ele mesmo fizera) "aprender os rudimentos da difícil ciência do ON / OFF!".
E prosseguiu:
- Além do ON / OFF, também há o problema das disquetes com o buraquinho para baixo e coisas assim, que requerem algum treino.
Eu não comentava. Tomando - e muito bem - o meu silêncio por curiosidade, ele começou então a entrar nos detalhes:
- Vamos começar por fazer uma triagem e depois dividimos os inforfóbicos em dois grandes grupos: os Recuperáveis e os Irrecuperáveis.
Esclareceu que a selecção seria feita numa entrevista "humanizada e personalizada" a levar a cabo pela D. Rosa e continuou, imparável:
- Depois, encaminharemos os formandos para um de dois cursos: os que querem mesmo aprender, frequentarão o programa «À FORÇA!», que é uma palavra derivada de «Acção de FOrmaÇAo». Será em horário pós-laboral. Mas a maioria, se calhar, ainda vão ser os outros...
Nessa altura calou-se, para aquilatar do meu interesse.
Pedi-lhe que continuasse, pude adivinhar um sorriso de alegria do outro lado do fio, e ele retomou a frase no ponto onde a interrompera:
- Pois é, a maioria vão ser os outros, que apenas vão precisar de saber ligar um computador para quando tiverem visitas no gabinete. É claro que os mais inteligentes de ambos os grupos poderão até vir a aprender a activar os screen-savers...
Boa! A coisa até já metia screen-savers! Januário estava, pelos vistos, mais adiantado do que eu julgava! Não o interrompi.
- Eu estava a pensar que duas semanas devem chegar para eles aprenderem essas coisas, incluindo ligar a ficha na tomada da parede. Para o grupo mais refractário às novas tecnologias eu faria os cursos de manhã cedo, quando eles ainda têm a cabeça fresquinha.
Eu já não dizia nada! Nem era preciso, pois o Januário, de facto, falava pelos dois:
- Ao programa de formação do grupo mais difícil eu estava a pensar chamar «Acção de Formação INtensiva de Gestores Irrecuperáveis».
Depois de um silêncio meditativo perguntou, muito sério:
- Achas que a sigla me pode criar problemas quando eu me candidatar ao subsídio do Fundo Social Europeu?
Não percebi logo de que sigla ele falava. Seria «F.I.G.I.»?! À parte o caricato do nome, quer lido assim, quer quando explicado por extenso, que mal é que poderia haver?
Mas em breve me esclareceu. E, nessa altura, pareceu-me claramente que ele não iria ter muita sorte...
De facto, qual o organismo oficial que iria subsidiar um programa que ele mesmo queria intitular de «A.F.I.N.G.IR»?!!


(*) Esta Apresentação teve de ser feita porque a história foi escrita para o Nr. 37 do Boletim "Tecnologia e Qualidade", do ISQ, cujos leitores podiam não conhecer a "ave".

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal