Guru e Empresário

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Palhaçadas

- Olha lá, tu já ouviste falar da Serra da Estrela?
Foi com esta espantosa pergunta que, há uns dias, o Januário começou um daqueles telefonemas malucos que já vão sendo hábito e em que parece ter-se especializado.
Por isso, quando lhe disse que sim, até tive de conter o riso.
Mas, para meu espanto, reparei que ele também se estava a rir!
- Trata-se de alguma brincadeira? - perguntei-lhe eu, deveras intrigado.
A resposta foi arrasadora:
- Estou-me a rir, mas não é por tua causa! É que tenho comigo o palhaço Laçarote, que está só a fazer macacadas. Se te despachares aí do emprego ainda aqui o apanhas e ficas a conhecer. Despacha-te, que vale a pena!
Fiquei parvo.
De facto - lembrei-me então - havia um circo ambulante que, dias antes, tinha assentado arraiais na praceta em frente à loja do Januário.
A coisa até tivera a sua graça, pois o Malaquias - o arrumador de automóveis ali da zona - ficara delirante ao ver chegar aquela multidão de carros, camionetas e roulottes.
Lá ajudou a arrumar aquela barafunda, com elefantes e tudo, e quando quis receber algumas moedas de gorjeta teve o azar de as ir pedir ao Chico-Hércules, que lhe respondeu de uma estranha forma:
Atirou uma moeda para o chão, e quando o Malaquias se baixou para a apanhar...
Bem... no seguimento do delicado pontapé que já se imagina, o nosso amigo viu-se a viajar pelos ares até ir cair junto do Mágico Mandrake.
Este, depois de o ajudar a levantar-se e de se aperceber do que se passava, fez o velho truque de tirar moedas das orelhas e do nariz do pobre rapaz!
Mas julgo que ele nem se chegou a aperceber se as moedas eram verdadeiras ou falsas, pois apenas se preocupou em desatar a correr e a sair dali, para tão longe e tão depressa quanto as pernas lho permitiram!
Mas voltando ao que interessa:
Logo que pude, meti-me num táxi e lá fui ter com o nosso amigo, pois a possibilidade de confraternizar com um palhaço autêntico era algo de muito emocionante!
Cheguei muito a tempo.
Para meu grande espanto a porta da loja foi-me aberta por um cabeludo de nariz abatatado, enormes sapatorras e um gigantesco laço azul: o palhaço Laçarote em pessoa, como já perceberam!
Estendeu-me a mão e logo ali comecei a sentir-me gozado:
A gigantesca luva dele, devidamente besuntada de cola, ficou presa na minha mão!
Ao fundo, o meu amigo Januário, acompanhado pela incontornável D. Rosa, assistia à cena (que, pelo que vim a saber, já se tinha passado com eles) e riam a bom rir à minha custa.
Fiz um apelo ao meu senso de humor, esforcei-me por achar graça à brincadeira, e dediquei a minha atenção a tentar perceber o que se estaria ali a passar.
Vim então a descobrir, para meu grande espanto, que o Januário tratava, nem mais nem menos, do que aprender a tocar música num serrote!
E o Laçarote - que, para rimar, escolhera esse nome artístico desde que se iniciara nesse número - procurava ensiná-lo!
O espantoso daquilo tudo nem era o facto de o palhaço tocar música num serrote - pois se tratava de uma habilidade já minha conhecida - mas sim o facto de o nosso Grande Empresário se estar a sair menos mal!
Lembro-me que fiz um pequeno trocadilho acerca de executante e executivo, mas ele não estava para graças. Voltara à música, e procurava descobrir as notas que lhe faltavam para poder acompanhar devidamente a modinha que a nossa amiga cantava (era o "Ó Rosa, arredonda a saia", se bem me lembro).
Ali estivemos, tempos infinitos, e eu não deixava de me maravilhar, especialmente quando olhava para as sapatorras do palhaço a marcar o ritmo, qual metrónomo electrónico de última geração!

***

Como já se percebeu, havia ali um grande mistério que era preciso esclarecer... Mas só mais tarde é que vim a perceber tudo...

***

Dias antes aparecera a bater à porta da loja do Januário uma velhinha que, dizendo-se "a verdadeira importadora dos Serrotes Estrela, directamente da China", se propusera deixar alguns à consignação.
Ora, assim que o Grande Empresário se apercebera do baixo preço do produto, apressara-se a negociar um valor ainda mais vantajoso em troca da compra do carregamento todo!
E, de facto, ali estava agora uma enorme pilha de caixas de cartão em que eu ainda não tinha reparado.
- Mas acontece que fui muito bem enganado pelo raio da mulher! - explicou-me ele quando o palhaço saiu - Os serrotes não serram nada, e deixam cair mais dentes do que a minha avó quando se punha a partir nozes às trincadelas!
- E porque não os devolveste?!- perguntei eu, perplexo.
- Claro que já tentei, mas a velhota diz que já gastou o dinheiro todo. A solução poderia ser fazer queixa dela, mas não vale a pena: o mais certo era o processo prescrever...
- E então?! Não me digas que vais vender os serrotes para tocar música!
- Bingo! - foi a resposta lacónica.

***

Sem querer, eu tinha acertado em cheio!!
O Januário, logo no dia em que descobrira que fora enganado, tinha visto o palhaço Laçarote-Toca-Serrote a actuar e lembrara-se desse negócio.
- Sabes? - explicou-me ele, recostando-se no sofá das grandes decisões - Foi uma daquelas associações de ideias de que só eu sou capaz. Imaginei a pobre velhota como ré no tribunal. A palavra "ré" lembrou-me música, o Laçarote andava por aí a passear no jardim, e o resto já estás a ver e a perceber...

***

Bem, resta dizer que o negócio vai de vento em popa!
O Januário, quando acaba a matinée do circo, pega num banquinho e vai sentar-se à porta da loja.
Põe-se a tocar serrote, e já vendeu mais de 900 dos 1000 que comprou!
Mas, aqui para nós... Vê-lo lá, ao sol, tão seguro de si... apesar de tudo, faz-me dó!
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